Cidade de Gaza, Faixa de Gaza (AE-AP) - No coração da Cidade de Gaza, lugar onde a soberania palestina foi duramente conquistada e local onde israelenses são raramente vistos hoje, o som de uma sala onde alunos tropeçam com as ásperas consoantes de uma música folclórica hebraica pode ser ouvido.
É a celebração da independência pelos estudantes Palestinos. Os professores do Abrham Center dizem que aprender hebraico é uma escolha de um vizinho livre que quer não apenas a paz, mas também laços econômicos e sociais com Israel. As autoridades palestinas dizem que irão em breve pedir a restauração da língua que já foi imposta aos estudantes pelos governo militar israelense.
Três vezes por semana, 50 comerciantes, operários, policiais palestinos e até mesmo diplomatas do Golfo Pérsico reúnem-se no centro de educação na cidade da Gaza para cantar músicas hebraicas, ler seus clássicos e pronunciar aquelas palavras nada familiares com a ajuda de fones de ouvido. Os palestino devem ler hebraico, diz a diretora Samira Fadel," dessa forma eles podem aprender a odiar ou amar, contanto que possam comunicar-se".
Para Fadel, uma nativa de Gaza que aprendeu hebraico no Ulpan Akiva, um famoso centro de estudos Arabe-Hebreu, indicado anualmente para o Prêmio Nobel da Paz, a ação recíproca entre palestinos e israelenses é crucial para a paz.
Duas vezes por ano ela traz grupos, em sua maioria compostos por membros da esquerda israelense, para Gaza para uma semana de curso intensivo de árabe. Ela também envia seus melhores alunos para estudar hebraico em Israel, tentando estreitar os laços para reter o crescente isolamento comercial e social imposto por Israel desde a autonomia em 1994.
Pelas novas leis israelenses, apenas 45 mil dos 1 milhão de habitantes da Gaza têm permissão para deixar a faixa para trabalhar e fazer negócios em Israel, apesar do primeiro-ministro Ehud Barak ter prometido no final de agosto que iria aumentar este número.
Judeus israelenses que queiram entrar na parte palestina de Gaza precisam de permissão prévia, que geralmente vem como parte de grupos organizados para dar 24 horas de escolta pela polícia palestina. A polícia pede aos israelenses para não falarem hebraico em locais públicos por temerem que tornem-se alvos de extremistas.
Após a criação das zonas autônomas, os palestinos aboliram os três anos de estudos de hebraico que foram compulsórios nos 25% das escolas de Gaza que eram comandadas pelo governo militar israelense.
Estudantes do Abraham Center, como Nabila Esbitan, 19 anos, dizem que os palestinos ainda precisam aprender hebraico para saber o que os israelenses dizem em suas reportagens de televisão, livros e jornais. "Assim, eu posso entender a mentalidade deles, o que eles estão fazendo", diz ela em hebraico correto e pausado, vestida com as tradicionais roupas para mulheres muçulmanas, que as cobrem dos pés à cabeça.
Esbitan, que também estuda hebraico arcaico na Universidade Islâmica de Gaza, nunca esteve em Israel e não havia encontrado um civil israelense até que um grupo esteve no Abraham Center para estudar árabe. Outros estudantes do programa financiado pela Noruega são comerciantes, operários e oficiais palestinos. Um diplomata de um país do Golfo Pérsico, que se recusou a ser entrevistado, estava lendo poesia e cantando em hebraico para aprender um língua praticamente inexistente em sua terra.
Naim Abu Hummus, Ministro Adjunto da Educação das Autoridades Palestinas, disse que o governo da zona autônoma irá, em breve, oferecer hebraico como alternativa em 50% das escolas da faixa de Gaza. "As autoridades palestinas fizeram uma escolha estratégica para a paz", e aprender a língua de Israel "faz parte deste sistema de realização da paz".
Contatos sociais, mesmo entre israelenses e palestinos que defendem a paz, são dificultados por uma história de ódio e violência. Salim Abu Arma, um professor de hebraico no Abraham Center, lembra-se de um encontro com um ex-colega de classe, um soldado israelense com quem dividiu o mesmo quarto em Ulpan Akiva, o centro árabe-hebraico.
O soldado o reconheceu em Gaza num dia tenso durante a intifada, o levante palestino contra a ocupação israelense, e tentou abraçá-lo.
"Eu disse: Se você me abraçar agora, no minuto seguinte você ouvirá que eu estou morto na calçada, conta Abu Arma, lembrando-se do seu medo de que outros palestinos suspeitassem de que ele estivesse colaborando com Israel.
Mas os que estudam hebraico em Gaza esperam agora fazer contato com israelenses numa nova atmosfera de paz.
"As pessoas me perguntam por quê, o que eu quero com hebraico?", diz Khalid Safi, um professor de história de 34 anos que está começando a estudar a língua. "Você precisa de hebraico para aprender história".

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