Sarajevo, 30 (AE-IPS) - Os 40 chefes de Estado reunidos hoje (30) nesta capital firmaram um "pacto de estabilidade" para os Bálcãs que, ao excluir a Iugoslávia e evitar compromissos financeiros efetivos, foi considerado pouco relevante.
Carl Bildt, ex-primeiro-ministro sueco e enviado especial aos Bálcãs do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, disse aos jornalistas que a exclusão da Sérvia - principal componente da Federação Iugoslava - deixa o pacto com pouca eficácia.
A declaração se soma a um encontro efetuado nesta quarta-feira em Bruxelas de 100 países doadores, que prometeram oferecer US$ 2 bilhões para a reconstrução da província iugoslava de Kosovo, e que também excluíram a Sérvia de seus planos.
Os fundos aprovados em Bruxelas, entretanto, incluem projetos já em andamento, e inclusive fundos já utilizados, segundo reconheceram funcionários da União Européia (UE).
As somas anunciadas não têm equivalente com estimativas de diversos organismos tanto da UE como privados, que avaliam os custos de reconstrução em aproximadamente US$ 30 bilhões para Kosovo e US$ 100 bilhões para a Sérvia.
Economistas independentes iugoslavos indicaram à IPS que, nas circunstâncias atuais, o país levaria 40 anos para voltar aos níveis de vida e renda de 1989, o ano anterior à desintegração da Iugoslávia.
Em Sarajevo, as principais potências ocidentais exigiram que o presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, renuncie a seu cargo como condição para incluir a Sérvia em qualquer plano de assistência econômica.
As únicas promessas financeiras foram feitas pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha.
O presidente americano, Bill Clinton, anunciou um estímulo financeiro de US$ 150 milhões para os investimentos dos EUA na região, assim como uma redução de taxas comerciais, enquanto o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, disse que seu país destinará US$ 4,8 milhões para financiar a oposição a Milosevic.
Em relação ao anúncio de Blair, a rede BBC lembrou que esta semana Londres anunciou que adotaria medidas legais para impedir o financiamento externo dos partidos políticos britânicos.
Tanto Blair quanto Clinton culparam pessoalmente Milosevic pelos males que castigam a região, e pelos ataques aéreos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que entre março e junho destruíram numa parte considerável a infra-estrutura e a indústria na Sérvia.
Em Belgrado, o porta-voz do governante Partido Socialista, Ivica Dacic, disse que a reunião de cúpula era um encontro dos países que colaboraram na agressão e denunciou que o plano pretende desmembrar a Sérvia, segundo divulgou a agencia iugoslava Tanjug.
Entretanto, o presidente finlandês, Martti Ahtisaari - cujo país está na presidência rotativa da UE - advertiu que a cúpula não deveria ser entendida como uma aliança contra a Sérvia.
Dacic exigiu que os países agressores paguem compensações à Sérvia pela destruição provocada pelos bombardeios.
Em uma análise feita na BBC, Jonathan Eyal, diretor de estudos do Instituto Real de Serviços Unificados de Londres, previu esta semana que, depois da partida dos chefes de Estado, o mais provável é que suas promessas se evaporem.
"É improvável que se materializem as vastas somas de dinheiro prometidas no clímax do conflito de Kosovo, e muitos dos tratados que estão sendo negociados como parte do pacto de estabilidade são basicamente irrelevantes", assinalou Eyal.
Apesar de o presidente Clinton ter apontado a Bósnia como modelo para a estabilização dos Bálcãs, a maior parte dos analistas considera um fracasso a fórmula de paz na ex-república iugoslava: a divisão do país em três mini-estados étnicos unidos por uma confederação.
O especulador financeiro húngaro-americano George Soros escreveu esta semana no diário The Washington Post que "não devemos repetir os erros que cometemos na Bósnia", onde "o território é muito pequeno e as diversas entidades oficiais...insistem em meter suas mãos, não muito limpas, em todas as tortas".
Andrei Morozov, especialista em Bálcãs do Instituto Russo de Estudos Estratégicos, destacou já em 1997 que o acordo da Bósnia foi alcançado unicamente por pressões extremas, apoiadas pela intervenção direta da Otan contra os sérvios-bósnios.
"Já se pode falar de uma nova geração de bósnios muçulmanos, croatas e sérvios cuja perspectiva do mundo está baseada na intolerância mútua", escreveu Morozov num estudo.
Segundo o especialista britânico Eyal, "bilhões de dólares foram derramados na Bósnia desde 1995 (data do fim da guerra) sem nenhum efeito significativo".
"No caso das ex-repúblicas iugoslavas, oferecer dinheiro efetivo é sempre parte do problema, em lugar da solução", acrescentou.
Eyal reiterou também que organizações não-governamentais vêm advertindo há semanas: que os fundos para a reconstrução de Kosovo e a assistência financeira a outros países dos Bálcãs virão em parte dos orçamentos de ajuda ao desenvolvimento.
Fontes da Comissão Européia - braço executivo da UE - têm dito que se estuda até um corte de dez por cento dos fundos de ajuda, o que equivaleria a um imposto aos países em desenvolvimento.
A Alta Comissária das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur)
Sadako Ogata, denunciou na terça-feira em Nova York que os doadores atrasam o pagamento de suas contribuições para os refugiados africanos, enquanto se apressam em prometer dinheiro para Kosovo.
A Acnur só recebeu 25 por cento dos US$ 165 milhões orçados para atender emergências na áfrica este ano, e 60 por cento de seu orçamento regular de US$ 137 milhões para esse continente, enquanto os países doadores se comprometeram a dar US$ 265 milhões para Kosovo, disse.
Ogata lembrou que na áfrica existem aproximadamente seis milhões de refugiados e deslocados, enquanto em Kosovo o número chega a uns 700 mil albaneses e 150 mil sérvios e ciganos (sendo que não haverá ajuda internacional para os dois últimos grupos).
Os protagonistas da reunião de Sarajevo foram, mais uma vez, Clinton, Blair e - apesar de ausente - Milosevic.
Os chamados abertos dos governantes ocidentais aos cidadãos sérvios para que se rebelem contra Milosevic contrastam com a falta de uma proposta política da desmembrada oposição sérvia para o futuro do país.

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