Certas palavras, segundo o escritor inglês Graham Greene, são como granadas. Usadas com imperícia, explodem na boca. No mesmo dia em que tive nas mãos o plano Brasil diz Não à Violência, quarenta páginas divididas em quatro capítulos, conheci, participando de um debate na TV, o coronel da Aeronáutica José Moacir Ribeiro e sua esposa Rosemary. O casal teve três filhos. O caçula, 17 anos, uma das três vítimas do brutal assassinato praticado em Mongagá, litoral paulista, onde o menino e dois amigos universitários passavam o feriado de Páscoa e, dentro de uma casa, foram surpreendidos por dois degenerados, os mataram com crueldade e barbarismo.
O coronel da FAB me disse que perdeu o epicentro, não sabe o que fazer, não conseguiu reencontrar-se depois da tragédia. A mãe, trazendo nas mãos uma foto colorida do jovem filho, pergunta-se sobre o porquê disso tudo. Na ausência de respostas culpam-se por terem autorizado o menino a passar fora de casa alguns dias.
É um casal traumatizado, vivendo ainda em estado de choque, buscando soluções e tentando encontrar caminhos. O confronto com a realidade dos personagens principais da violência, que são vítimas, nos coloca diante de um painel de frustrações, nos quais medimos as palavras para não ferir ainda mais os corações sofridos.
Pois é, Greene diz que palavras mal usadas explodem na boca. Teses mirabolantes, promessas, devaneios e delírios reduzem-se a pó diante do concreto. Os dois perguntaram o que eu achava do caso. Senti-me encurralado e balbuciei que apenas conseguia pensar até que ponto é capaz de chegar a espécie humana. As palavras-granadas de Greene estão ajustadas no texto que Maurice Dantec fez para apresentar o livro de Hosmany Ramos, o médico-escritor e transgressor das leis, Marginália, que está senso editado pela famora Gallimard, de Paris. Dantec diz que o leitor, examinando a obra, pode descer aos esgotos da civilização, ousar contemplar a face hedionda do crime em toda sua verdade, renunciar por uma vez a todas as ilusões humanitárias sobre a natureza do homem.
José Moacir e Rosemary, pais atingidos na alma pela impiedade de assassinos que lhes tiraram do convívio o alegre caçula da família, olham-se e fazem perguntas. Pude apenas proferir algumas palavras de consolo e solidariedade.
O plano Brasil diz Não à Violência destaca dez questões, relacionadas ao tráfico de drogas, proteção de testemunhas, comércio de armas, roubo de cargas, conflitos rurais, apoio a policiamento ostensivo, valorização da auto-estima de profissões como as de policiais e bombeiros, combate a justiceiros, destruição de pistas clandestinas de pouso e fortalecimento da Policia Federal.
O contato com o casal vítima da violência em sua expressão máxima deixa-nos em situação delicada: diante do real, precisamos de ações realistas; diante do fato, exige-se soluções concretas.
O plano do governo federal evidencia, mais uma vez, que o Estado sozinho está sendo incapaz de gerenciar o problema. Se quiser desfrutar de dias melhores, mais e mais a sociedade precisa saber organizar-se e colaborar na prevenção social, que não sendo feita acaba sendo uma das raízes do crime.
Olho para José Moacir e Rosemary, que estão sempre querendo chorar, e faço as minhas considerações: os problemas crônicos de segurança giram em torno de homicídios e latrocínios, uso e tráfico de drogas, roubos e furtos, sendo que há momentos em que essas modalidades criminosas se entrelaçam. Portanto, para que se mate menos temos que ter menos armas em circulação; para que os traficantes não ocupem tanto espaço temos que ter menos dependentes; para os crimes contra patrimônio, precisamos de prevenção e polícia especializada.
A rigor é isto. É verdade, mas uma uma ponta de teoria. José Moacir e Rosemary, olhos sem brilho, parece que se esforçam mas acham difícil de entender. Pelo menos, atendo a Grahan Greene, procurei usar as minhas palavras com perícia.

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