PALAVRA DE ESPECIALISTA
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Léa Michaan 
Quanto mais espaço dá-se para o medo, mais ele se apropria e toma conta da pessoa. O caminho para dominá-lo é conhecer como se dá o funcionamento deste sentimento dentro de nós e de quais recursos dispomos para enfrentá-lo.
Existem quatro tipos de medo: o normal e real; o patológico e irracional; o imaginário; e a ansiedade. A diferença entre os dois primeiros reside no grau. Não sentir medo de nada leva a pessoa a ser imprudente ao ponto de correr risco de vida. Por outro lado, sentir medo exagerado impede a pessoa de viver normalmente.
Mas de onde vem o medo? Vem do nosso instinto animal que fareja o perigo. Este instinto, uma vez instalado, só passará quando se prove o contrário: que o perigo não existe, já passou ou é infundado.
O medo normal e real é o medo positivo, uma vez que todo ser humano precisa sentir medo, pois este é um instinto de sobrevivência e um fator de proteção contra os perigos. Ao sentirmos medo, acionamos as reações de defesa do organismo.
O ser humano é capaz de ampliar este medo a dimensões irreais. Ou seja, utilizar o medo para situações imaginárias. Podendo-se imaginar uma situação estressante, vivemos organicamente e emocionalmente tal situação. Isto explica a tendência atual em que as pessoas procuram notícias trágicas, novelas dramáticas, envolvimento exacerbado nas brigas entre os times de futebol.
Há uma busca constante por adrenalina, as pessoas procuram por isso para compensar as comodidades da vida moderna, diferentemente do homem primitivo, que precisava de grandes doses de adrenalina para caçar; ou, na Idade Média, para sobreviver às guerras e às doenças.
O medo exagerado é irracional e começa a se transformar em medo patológico quando traz transtornos, quando o medo começa a tomar conta da vida da pessoa. Este é o medo negativo, pois começa a escravizar o indivíduo. Em geral, os medos são criados a partir de alguma experiência ruim que a pessoa viveu ou viu outra pessoa passar.
O medo exagerado do desconhecido é reflexo da falta de confiança em si. Dizendo de outro modo: quando há uma relação consistente da pessoa com ela mesma, através de diálogos internos, o que desenvolve a capacidade para pensar, tem-se a impressão da existência de algo bom em nossa mente com o qual podemos contar. Este sentimento nos dá forças para enfrentar e dominar nossos medos, antes que estes nos dominem.
Aquele que não confia nos próprios recursos e capacidades está mais sujeito a sentir medo porque este sentimento nos coloca em contato com a nossa fragilidade. Portanto, se nos sentimos possuidores de recursos escassos, automaticamente nos sentimos muito frágeis e limitados.
Por fim, as doenças do medo são as mesmas doenças da ansiedade. São duas faces da mesma moeda. A diferença é que no medo há um objeto para ser temido: real ou imaginário. Já na ansiedade, o objeto a temer inexiste e a pessoa não sabe o porquê desta sensação desagradável. Nela surgem os mesmos sintomas do medo: reações de alerta do organismo, físicas e mentais. Taquicardia, pressão alta, sudorese, tremores, ondas de calor ou calafrios, palidez, formigamento nas mãos e pés, rubor, sensação de paralisação e gagueira. Por não ter o objeto a temer, a ansiedade torna-se muito mais angustiante.
*Dra. Léa Michaan é Psicoterapeuta e Psicanalista, graduada em psicologia pela Universidade Mackenzie e Pós-graduada em Psicoterapia Psicanalítica pela Universidade de São Paulo (USP).


