PALAVRA DE ESPECIALISTA - Reações adversas em idosos induzidas por medicamentos
Por Adávio de Oliveira e Silva (*)
Nos últimos 100 anos, condições e contextos do envelhecimento humano melhoraram de forma exponencial, fazendo com que a média de expectativa de vida dobrasse a partir do final do século 19 permitindo que os idosos continuem ativos e saudáveis. Este avanço, acentuado nas últimas décadas, ocorreu pela adoção de medidas preventivas que reduziram a incidência e a intensidade de fatores de risco e o uso de múltiplos medicamentos, complexos em seus regimes de administrações.
No entanto, a disseminação do uso de remédios despertou a maior incidência de reações adversas, devidas às interações dos fármacos e a menor adesão dos idosos às prescrições. A falta de suporte familiar a indivíduos com déficits cognitivos, em uso de quatro a mais de seis medicamentos e distribuídos em doses diárias fracionadas, gera ao paciente dificuldade no entendimento dos horários que os remédios devem a ser tomados.
Nessa faixa etária, as pessoas sofrem o declínio da função renal e a redução da massa celular e do fluxo sanguíneo hepático, comprometendo as enzimas que metabolizam os medicamentos na primeira passagem pelo fígado. Com a redução das massas de músculo esquelético (sarcopenia) e óssea (osteoporose), os receptores celulares dos medicamentos se mostram menos competentes, ao mesmo tempo em que se modifica a capacidade de absorção gastrointestinal. Reações adversas ocasionadas por este cenário são responsáveis por 50% das internações.
Como os idosos têm um maior risco de desenvolvimento de câncer, estes sofrerão o impacto das cirurgias, dos anestésicos usados e de analgésicos no pós-operatório, com risco maior de desenvolvimento de surtos de delírio durante o período de recuperação. Os pacientes passam, ainda, por quimioterapia e outras drogas, responsáveis por distúrbios da medula óssea, risco maior de cardiotoxicidade e de efeitos colaterais gastrointestinais como diarreia, vômitos, desidratação e distúrbios hidroeletrolíticos e de modificações intensas em seus estados psicológicos.
Tais inconvenientes da interação medicamentosa, embora significativos, não devem limitar a atuação de médicos e cuidadores. É importante que os profissionais da saúde reconheçam as barreiras que precisam ser transpostas no trato da interação medicamentosa, avaliando a situação de cada paciente, para beneficiar aqueles que se encontram na terceira idade e exibem reações adversas aos medicamentos.
* Adávio de Oliveira e Silva, gastroenteorologista da Beneficência Portuguesa de São Paulo.





