PALAVRA DE ESPECIALISTA - Intoxicação medicamentosa
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Mariana Fazio (*) 
A famosa frase ''A diferença entre remédio e veneno é somente a dose'' elaborada pelo médico suíço Paracelso faz um alerta para o perigo do consumo inadequado de medicamentos. Infelizmente, a cada ano essa frase torna-se mais pertinente ao quadro brasileiro, segundo estatísticas do Sistema Nacional de Informações Tóxico Farmacológicas (Sinitox). Os últimos dados disponíveis são de 2008. Foram 26.384 os casos de intoxicação humana por medicamentos no Brasil, o que corresponde a 30,71% dos casos totais. Noventa pessoas morreram.
As principais causas são o excesso de ingestão, a falta de conhecimento, a facilidade de acesso aos medicamentos nas drogarias e a automedicação, prática perigosa mas amplamente praticada no Brasil. A falta de comunicação entre médico e paciente pode resultar em erros de prescrição e graves interações medicamentosas. Entre as crianças, o armazenamento incorreto é o principal fator que leva a intoxicações.
Os analgésicos (antitérmicos e antiinflamatórios) lideram o ranking de intoxicações, seguido pelos antidepressivos e estimulantes. Em terceiro lugar está a classe de medicamentos para problemas cardiovasculares.
Os antiinflamatórios não-esteroidais (Aines) correspondem à classe de medicamentos mais vendidos no Brasil, sendo prescrito para uma série de doenças, como a Doença de Reiter e a dismenorreia. Contudo, esses medicamentos não são ideais no controle ou modificação dos sinais e sintomas das inflamações, sobretudo nas doenças articulares inflamatórias comuns.
O consumo inadequado do ácido acetilsalicílico pode provocar hemorragias, sobretudo as digestivas, por inibir a agregação plaquetária de maneira irreversível. Além disso, pode causar gastrite erosiva e úlcera hemorrágica, salicilismo e a síndrome de Raye. O paracetamol, um dos analgésicos e antipiréticos mais utilizados no mundo, pode causar hepatoxicidade grave, potencialmente fatal, além de nefrotoxicidade, se utilizado em doses tóxicas. A ingestão regular de doses terapêuticas por um longo período pode causar lesão renal. A má utilização da dipirona, por sua vez, tem como consequência a agranulocitose, diminuição do número de leucócitos granulócitos.
A intoxicação por antidepressivos tricíclicos pode evoluir para uma parada cardíaca de difícil recuperação. O quadro clínico pode variar desde excitação e delírio, depressão respiratória, convulsão e morte súbita por fibrilação muscular.
Em doses terapêuticas, são inegáveis os benefícios que os medicamentos podem trazer. Contudo, ao menor sinal de suspeita de intoxicação, cujos sintomas incluem erupções cutâneas, urticária, vermelhidão, sonolência, perda de equilíbrio, tontura e alucinação, deve-se procurar um pronto-socorro. Importante lembrar, contudo, que evitar os fatores de risco é sempre a melhor solução.
(*) Mariana Fazio é farmacêutica e diretora do Remédio Certo, programa de atenção farmacêutica de cunho educativo, desenvolvido para o correto manejo e a ingestão consciente de medicamentos (www.remediocerto.com.br)


