Ao longo da minha vida profissional como pediatra, sempre tive admiração pelos esforços em se disseminar ideias, propostas, estudos e pesquisas que envolvessem a ciência, a saúde, a medicina e, mais diretamente, a pediatria. Nos mais de 30 anos de minha atividade profissional, observei a imensidade dos avanços nestas áreas do conhecimento, e confesso que foram muitos.
Existe uma produção importante e significativa de pesquisas e estudos saindo dos melhores centros médicos e universitários no mundo todo, inclusive no Brasil. São centenas de papers científicos todas as semanas, milhares por ano. Muitos apontam caminhos, descobertas e soluções, sem a mínima contestação. Algumas pesquisas são a ponta do iceberg que mais tarde revelará um gigantesco bloco de esclarecimentos para as mais diferentes patologias, sintomas e diagnósticos. Cientistas e estudiosos se debruçam incansavelmente, dia e noite, em prol dos benefícios que a medicina e a ciência devem promover.
Ser visionário, afrontar paradigmas pré-estabelecidos, quebrar tabus, mostrar caminhos que inexoravelmente deverão ser percorridos, são ações louváveis. No entanto, alguns poucos estudos - ainda bem - mais atrapalham do que ajudam. É o caso de uma pesquisa apresentada recentemente na Inglaterra por pesquisadores do Childhood Nutrition Research Centre, da University College London, e do Institute of Child Health, da University of Birmingham, que questiona se mães do Reino Unido devem amamentar seus bebês de forma exclusiva até os seis meses de idade. Estão contrariando a Organização Mundial da Saúde (OMS), que preconiza o aleitamento materno (exclusivo) até os seis meses. A OMS recomenda este período de amamentação desde 2001, por ter visto e revisto diversos estudos, análises e pesquisas, com provas incontestáveis para indicar tal proposição.
Estes pesquisadores questionam as determinações da OMS e a introdução de alimentos sólidos a partir dos quatro meses, mas ao mesmo tempo não apresentaram evidências suficientes e, surpreendentemente, com poucos exames e testes para que pudessem indicar, com um mínimo de segurança, tal mudança. Sem evidências claras e cientificamente bem comprovadas, a postura destes pesquisadores é, no mínimo, leviana.
Temos que ter em mente o que pode estar por trás de tudo isto. Não é minimamente explicável tal proposta dos pesquisadores ingleses, sobretudo se estão pensando apenas em seus próprios umbigos. Queiram ou não, o que afirmam tem repercussão mundial, o que deve angariar seguidores menos avisados no mundo todo.
A gravidade da recomendação dos pesquisadores londrinos pode implicar em mudanças de comportamento de mães e com consequências sérias para seus bebês - e futuramente para jovens e adultos. A indicação da introdução de alimentos líquidos a partir dos quatro meses pode desencadear problemas de saúde a curto e longo prazo, como desnutrição, obesidade, maior propensão a infecções (curto prazo), problemas na função cognitiva, risco de doenças cardiovasculares, câncer, entre outras patologias.
(*) Sylvio Renan Monteiro de Barros é pediatra. Autor do livro ''Seu bebê em Perguntas e Respostas - Do Nascimento aos 12 meses''.

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