Ter boas maneiras à mesa é mais do que comer de boca fechada, mastigar direitinho e não derrubar farelos no chão. O paladar da criança, sobretudo na primeira infância, também precisa receber lições importantes. A principal delas se refere à intensidade do sabor doce. ''Até os quatro anos, a criança já formou todo o seu paladar, já aprendeu se precisa tomar suco com ou sem açúcar'', exemplifica o médico Carlos Alberto Nogueira de Almeida, diretor do Departamento de Nutrologia Pediátrica da Associação Brasileira de Nutrologia.
''Uma criança que recebe o seu primeiro suquinho adoçado aos quatro meses nunca mais vai querer tomar um suco sem açúcar. O paladar dela não terá tido a chance de perceber o açúcar da própria fruta, a frutose, que ficará mascarado pela sacarose do açúcar refinado'', completa.
Segundo Almeida, pesquisas recentes no campo da nutrologia sugerem que o desenvolvimento de um paladar doce demais na criança pode ser induzido até durante a amamentação. ''Alguns estudos indicam que a mãe produz um leite mais adoçado se ela consome muito açúcar'', explica. Ele lembra que também o sal em demasia pode deseducar o paladar infantil. ''Se a criança for exposta desde cedo a sabores marcantes, e isso vale não só para açúcar e sal, mas também para condimentos picantes, vai desenvolver precocemente a necessidade por esses alimentos.''
Pais que pretendem contribuir para a formação de um paladar saudável no filho devem investir na oferta de alimentos naturais, tais como frutas, verduras e legumes. ''Se a criança for treinada para saborear os mais saudáveis, vai tratar os industrializados como exceção, como algo que ela come só na festinha. O problema é que, hoje, a fruta é que tem sido a exceção. Aí, não adianta querer que uma criança de oito anos ache que chuchu é uma delícia'', diz o médico.
Na casa da jornalista Ana Paula Nascimento a alimentação é a mais saudável possível: o cardápio básico contém arroz, feijão, uma carne, salada e verdura cozida, diariamente, por isso foi mais fácil para a mãe educar a filha Amanda Nascimento Pasqualino, de dois anos, a se alimentar de forma correta.
''Ela mamou exclusivamente no peito até os seis meses e quando começou a comer papinhas, resolvi seguir a lista de sugestões do pediatra, variando todo dia os grupos alimentares'', conta Ana Paula, lembrando que no começo, Amanda comia apenas uma colherzinha de papinha, deixando a mãe um tanto preocupada.
''Fui insistindo, mudando os legumes e ela nunca mais rejeitou. Ela se deu bem tanto com as papinhas amassadas quanto com pedaços maiores de alimentos e com um ano já comia praticamente a mesma comida da casa, só que com menos tempero'', recorda a jornalista.
Hoje, Amanda já sabe distinguir as texturas que mais lhe apetecem e sua paixão é carne, além de banana, uva, melancia, tomate e até cebola. ''Nunca achei difícil preparar papinhas, inclusive o pediatra dizia para colocar um fiozinho de azeite no prato dela para mudar o sabor. Ela sempre comeu alimentos frescos, até porque em casa não compramos comida pronta. Acho que ela come tão bem porque comemos bem e porque foi educada a gostar de alimentos saudáveis'', reitera Ana Paula.
Apesar do marido dela ser louco por doces, depois do nascimento da filha, o casal decidiu diminuir radicalmente a oferta de guloseimas em casa. ''Sobremesa é fruta, mas também não proíbo a Amanda de comer doce, principalmente se ela vê alguém comendo.'' Para o lanche da escola, Ana Paula utiliza diariamente o leite e uma fruta. ''Ela gosta de sorvete e pirulito, mas não pede, só come quando tem'', diz a mãe, confessando que filha adora comer: ''Ela até bate palminha na hora da refeição''.
Doutora em nutrição pela Universidade de São Paulo (USP), Hellen de Sousa Coelho lembra que o hábito alimentar se forma pela repetição. ''É preciso oferecer o alimento de oito a doze vezes para se ter certeza de que a criança não gosta dele. Muitas apresentam ''neofobia'', que é a aversão a algo novo que nunca foi experimentado.
Outra dica é oferecer o alimento saudável em momentos propícios, em que outras pessoas estejam provando dele. Quando a criança se acostuma com um tipo de alimentação, tende a gostar dele sempre'', diz. O inverso é verdadeiro: comer só alimentos artificiais pode virar um hábito difícil de ser revertido. ''No início pode ser que a criança adore o fast food pelo brinquedo que vem junto com o lanche. Mas, quando a coleção de bonecos estiver completa, talvez ela já tenha se habituado com aquele padrão alimentar'', conclui. (Com Agência Estado)

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