À exceção das formas arquitetônicas mundialmente consagradas de Oscar Niemeyer, e do poder que concentra, o palácio presidencial brasileiro não tem o apelo turístico que caracteriza muitos palácios em diferentes partes do mundo. O prédio que abriga o mais alto escalão da República é modesto nos adereços que comporta.
Poucas obras de arte valiosas, réplicas de móveis antigos que contrastam com o moderno layout projetado pelo arquiteto, divisórias de madeira, carpetes nos pisos e a falta de verde espantam o turista desavisado que tem apenas a visão externa do Palácio do Planalto.
Se a aridez do espaço físico do Planalto não atrai, há outras vantagens que levam funcionários de 140 órgãos da administração pública federal, ou sem vínculo com o serviço público, a disputarem hoje os 2.195 cargos lotados na Presidência da República. A sede do Executivo não possui quadro próprio, mas os privilegiados funcionários que ocupam os 36 mil metros quadrados do prédio têm boas razões para lutar por sua permanência no palácio.
A gratificação adicionada ao salário pago pelo órgão de origem, além do status de trabalhar ao lado da cúpula do poder público, são os maiores atrativos para os servidores. ‘‘O funcionário enche a boca para dizer que trabalha na Presidência da República’’, observa um ministro, inquilino do Planalto.
As vantagens não param por aí. Nos três blocos que compõem o anexo da Presidência, estão à disposição dos servidores três restaurantes, duas agências bancárias, posto de correio, agência de turismo, lanchonete com banca de revistas e médicos, dentistas e laboratório clínico. A Presidência tem ainda cinco bibliotecas, quadras de esporte e uma pequena academia de ginástica, usada pela segurança.
O acervo artístico do Planalto é grande, mas as poucas obras de arte de maior valor enfeitam as cinco salas que englobam o espaço reservado ao presidente Fernando Henrique Cardoso e seus convidados. No escritório, nas salas íntimas, de audiências e de reunião, obras de Manabu Mabe, Di Cavalcanti e Scliar dividem a área nobre com móveis antigos usados pelo presidente Getúlio Vargas. A sala de despachos de Fernando Henrique sugere ecumenismo. Uma grande Bíblia e uma imagem de São Francisco de Assis - presente de d. Paulo Evaristo Arns - convivem com uma lasca de cristal bruto normalmente usada para energizar o ambiente.
Diferente da estrutura física, a divisão do poder no palácio é concentrada em quatro gabinetes, depois do presidencial, instalados no quarto andar. O suporte a Fernando Henrique é dado diretamente por quatro ministros: o chefe do Casa Civil, Pedro Parente, o secretário-geral, Aloysio Nunes Ferreira, o secretário de Comunicação, Andrea Matarazzo, e o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Alberto Cardoso.
O órgão de maior peso é a Casa Civil, com 264 cargos de confiança, responsável pela formulação e revisão de todos os atos administrativos e jurídicos do presidente e o contato com os ministérios. Ao contrário dela, que ‘‘olha para dentro do governo’’, a Secretaria-Geral, com 56 cargos, faz a ponte com os outros Poderes e com a sociedade.
O núcleo político do Planalto também inclui Cardoso, que extrapolou a função de chefiar as questões de segurança institucional e pessoal do presidente, para integrar o grupo de conselheiros diretos de Fernando Henrique. Os quatro ministros reúnem-se informalmente quase todos os dias, e pelo menos duas vezes por semana sentam com o presidente para avaliar assuntos estratégicos.
Quando projetou o Planalto em 1958, Niemeyer previu uma estrutura leve, ‘‘com as colunas de pontas finas, como se o palácio estivesse apenas tocando o chão’’. Esse palácio quase suspenso, que ele imaginou integrado aos prédios dos outros Poderes no espaço mais nobre de Brasília, é hoje ‘‘separado’’ da Praça dos Três Poderes por rudimentar grade de metal. A solução encontrada pela segurança do presidente para conter manifestações transformou-se no transtorno de Niemeyer. ‘‘Isso nunca ocorreria na Europa’’, protestou o arquiteto.
Outra idealização do arquiteto, o parlatório, símbolo da comunicação do presidente com o povo, transformou-se em um mero adorno. A mídia eletrônica decretou o abandono ao espaço tão simbólico.

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