Palácio modesto desperta interesse
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sábado, 23 de setembro de 2000
Cláudia Carneiro e Isabel Braga, da Agência Estado De Brasília 
À exceção das formas arquitetônicas mundialmente consagradas de Oscar Niemeyer, e do poder que concentra, o palácio presidencial brasileiro não tem o apelo turístico que caracteriza muitos palácios em diferentes partes do mundo. O prédio que abriga o mais alto escalão da República é modesto nos adereços que comporta.
Poucas obras de arte valiosas, réplicas de móveis antigos que contrastam com o moderno layout projetado pelo arquiteto, divisórias de madeira, carpetes nos pisos e a falta de verde espantam o turista desavisado que tem apenas a visão externa do Palácio do Planalto.
Se a aridez do espaço físico do Planalto não atrai, há outras vantagens que levam funcionários de 140 órgãos da administração pública federal, ou sem vínculo com o serviço público, a disputarem hoje os 2.195 cargos lotados na Presidência da República. A sede do Executivo não possui quadro próprio, mas os privilegiados funcionários que ocupam os 36 mil metros quadrados do prédio têm boas razões para lutar por sua permanência no palácio.
A gratificação adicionada ao salário pago pelo órgão de origem, além do status de trabalhar ao lado da cúpula do poder público, são os maiores atrativos para os servidores. O funcionário enche a boca para dizer que trabalha na Presidência da República, observa um ministro, inquilino do Planalto.
As vantagens não param por aí. Nos três blocos que compõem o anexo da Presidência, estão à disposição dos servidores três restaurantes, duas agências bancárias, posto de correio, agência de turismo, lanchonete com banca de revistas e médicos, dentistas e laboratório clínico. A Presidência tem ainda cinco bibliotecas, quadras de esporte e uma pequena academia de ginástica, usada pela segurança.
O acervo artístico do Planalto é grande, mas as poucas obras de arte de maior valor enfeitam as cinco salas que englobam o espaço reservado ao presidente Fernando Henrique Cardoso e seus convidados. No escritório, nas salas íntimas, de audiências e de reunião, obras de Manabu Mabe, Di Cavalcanti e Scliar dividem a área nobre com móveis antigos usados pelo presidente Getúlio Vargas. A sala de despachos de Fernando Henrique sugere ecumenismo. Uma grande Bíblia e uma imagem de São Francisco de Assis - presente de d. Paulo Evaristo Arns - convivem com uma lasca de cristal bruto normalmente usada para energizar o ambiente.
Diferente da estrutura física, a divisão do poder no palácio é concentrada em quatro gabinetes, depois do presidencial, instalados no quarto andar. O suporte a Fernando Henrique é dado diretamente por quatro ministros: o chefe do Casa Civil, Pedro Parente, o secretário-geral, Aloysio Nunes Ferreira, o secretário de Comunicação, Andrea Matarazzo, e o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Alberto Cardoso.
O órgão de maior peso é a Casa Civil, com 264 cargos de confiança, responsável pela formulação e revisão de todos os atos administrativos e jurídicos do presidente e o contato com os ministérios. Ao contrário dela, que olha para dentro do governo, a Secretaria-Geral, com 56 cargos, faz a ponte com os outros Poderes e com a sociedade.
O núcleo político do Planalto também inclui Cardoso, que extrapolou a função de chefiar as questões de segurança institucional e pessoal do presidente, para integrar o grupo de conselheiros diretos de Fernando Henrique. Os quatro ministros reúnem-se informalmente quase todos os dias, e pelo menos duas vezes por semana sentam com o presidente para avaliar assuntos estratégicos.
Quando projetou o Planalto em 1958, Niemeyer previu uma estrutura leve, com as colunas de pontas finas, como se o palácio estivesse apenas tocando o chão. Esse palácio quase suspenso, que ele imaginou integrado aos prédios dos outros Poderes no espaço mais nobre de Brasília, é hoje separado da Praça dos Três Poderes por rudimentar grade de metal. A solução encontrada pela segurança do presidente para conter manifestações transformou-se no transtorno de Niemeyer. Isso nunca ocorreria na Europa, protestou o arquiteto.
Outra idealização do arquiteto, o parlatório, símbolo da comunicação do presidente com o povo, transformou-se em um mero adorno. A mídia eletrônica decretou o abandono ao espaço tão simbólico.


