Paixão de colecionadores mantém viva a tradição dos discos de vinil no centro do Rio
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sábado, 10 de julho de 1999
Por Murilo Fiuza de Melo 
Rio, 11 (AE) - Em pouco mais de 10 anos no mercado, o Compact Disc, o CD, fez sumir das lojas convencionais do Rio os tradicionais discos de vinil. Mas, por nostalgia, paixão ou simples gosto pela raridade, um grupo de colecionadores ainda conserva a tradição da bolacha preta de 12 polegadas. Em barraquinhas na Rua Pedro Lessa, no centro, eles são uma referência para quem gosta, principalmente, de samba, bossa nova e das músicas da Jovem Guarda. Movidos pela paixão, mais do que pelo lucro, conseguem, em média, R$ 600,00 por mês nessa atividade. "Isso aqui é a nossa trincheira de resistência", diz Wanderlino Oliveira, de 55 anos, 30 dos quais dedicados ao comércio de vinil de rua. O espaço é democrático e o velho long-play convive harmoniosamente com os disquinhos digitais prateados. Entre as 14 barraquinhas, é possível encontrar de tudo, principalmente, os chamados samba de raiz, como os de Cartola, Candeia e Nelson Cavaquinho. "Esses são os mais procurados atualmente", atesta Carlos Queiroz, de 43 anos, que, apesar de ter o mostruário de sua bancada repleta de CDs, ainda comercializa vinil. "Se o cliente pedir, eu procuro". Segundo Carlinhos, como é chamado, o público que mais procura LPs de samba de raiz são os jovens. Há explicação. Desprezados pelas grandes gravadoras, muitos sambistas tradicionais nunca tiveram suas obras relançadas em CD - alguns deles até chegaram a sair, mas em tiragens pequenas. Resultado: com o boom do ritmo entre os jovens da classe média, a procura aumentou e os discos viraram raridade.
"Como diria o Nelson Sargento (sambista da Velha Guarda da Mangueira), o samba agoniza mas não morre", emenda Carlinhos. Alguns desses discos chegam a custar R$ 25, 00 como é o caso de "Clementina Cadê Você?", o primeiro LP da cantora Clementina de Jesus, e "Minha Querida Portela: Sambas de Terreiro", disco lançado por um selo independente, em 1972, pelas mãos de Candeia, então diretor do Departamento Cultural da escola de Oswaldo Cruz. Frequentadores - O produtor musical Hermínio Bello de Carvalho é um dos frequentadores ilustres do local. Há três semanas, teve uma surpresa. "Encontrei o "João, Amor e Maria", uma ópera produzida por mim, Cacaso e Maurício Tapajós em 1966", conta Hermínio, que levou o LP para dar a um amigo. Muitos vendedores da feira de discos recebem encomendas de LPs raros de bossa nova de colecionadores do exterior. Bruno Alonso de Almeida, de 37 anos, guarda uma lista de clientes da Suécia, Holanda e Inglaterra. Histórias - Oliveira, o mais antigo em atividade, conta que certa vez, lá pelos anos 80, ele recebeu um pedido para localizar um disco triplo de Frank Sinatra, gravado no Madison Square Garden, em Nova York. Depois de uma busca pela cidade, Oliveira encontrou o tal vinil, mas não esperava a reação do cliente. "Ele chegou com a mulher, viu o disco e começou a chorar copiosamente... Não entendi nada", diz. "Aí é que veio a explicação: aquele casal viu o show do Sinatra na lua-de-mel".
Os próprios vendedores também são protagonistas de outras histórias. O cearense José Cordeiro Alves, 45 anos, 22 dos quais na atividade, lembra que desde pequeno gostava de ouvir as músicas da Jovem Guarda, de Roberto Carlos e do conjunto The Fevers. Já no Rio, Alves foi confeiteiro, antes de se especializar na venda de discos de vinil da Jovem Guarda. Como ele, Nilson de Faria, 46 anos, trocou o balcão de restaurante pelo comércio do vinil e, ainda, adotou o nome de Jerry, em homenagem ao seu maior ídolo: o cantor Jerry Andriani.


