Foto de Arquivo FolhaGargaloO custo portuário é uma das determinantes do acúmulo dos prejuízos: US$ 8 por tonelada, contra US$ 3 nos EUA e na ArgentinaO Brasil deve jogar fora cerca de 20% da sua safra recorde de 80 milhões de toneladas de grãos que começa a ser transportada este mês. As perdas, segundo especialistas, decorrem da incapacidade do País de lidar com uma agricultura moderna e dos gargalos decorrentes da falta de infra-estrutura. O desperdício é de aproximadamente 16 milhões de toneladas de grãos, volume superior ao da safra argentina.
A escolha inadequada de tecnologias de plantio e colheita, perdas ao longo de rodovias esburacadas, falta de opções de transporte mais eficiente por hidrovias e ferrovias, insuficiência de silos e armazéns e portos ultrapassados são algumas das causas apontadas pelas empresas que atuam no setor agroindustrial. O custo estimado do desperdício é de US$ 2,34 bilhões. O valor é ainda maior se for levado em conta a queda na produtividade pelo uso inadequado de tecnologias agrícolas que o País já possui, mas não utiliza.
Com território vasto, clima propício e água em abundância, o Brasil poderia estar produzindo pelo menos 200 milhões de toneladas de grãos, mais que o dobro da produção atual, segundo estimativa do diretor comercial da Sadia, Nelson Mamede. A média mundial aceitável de perdas na colheita, segundo ele, é de uma saca de 60 quilos por hectare. No Brasil, o índice de perdas é de três sacas por hectare. A média de produção por hectare é de 2,3 mil quilos.
A soja brasileira tem um custo médio de frete de US$ 33 por tonelada, das regiões produtoras até os portos. Na Argentina o custo é de US$ 17 e, nos Estados Unidos, de US$ 15, segundo levantamento feito pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). Argentina e EUA utilizam hidrovias e ferrovias como opção preferencial de transporte da safra, mas no Brasil 67% do transporte de soja e derivados é feito por rodovias.
Pelos trilhos da ferrovia paulista Fepasa, que abastecem o Porto de Santos, devem passar apenas 2,5 milhões de toneladas de grãos. O desperdício de óleo diesel com o transporte de grãos por rodovias é de cerca de US$ 450 milhões por ano. O valor só não é maior porque o diesel ainda é subsidiado no País.
Eliminação de empregos Somando o custo dos insumos utilizados na agricultura, o desperdício total chega a US$ 2,34 bilhões anuais. Este fator diminui a capacidade de competição da agricultura brasileira e elimina cerca de 100 mil empregos na cadeia produtiva agroindustrial, segundo um relatório feito pela Fepasa. As despesas portuárias também elevam o custo do produto brasileiro, com uma média de US$ 8 por tonelada embarcada. Na Argentina e nos EUA, o custo é de US$ 3.
Com o aumento da competição na economia mundial, decorrente do processo de globalização, o País está sendo forçado a corrigir as distorções decorrentes de duas décadas de escassos investimentos em setores estruturais da economia. Com a falência do Estado, a alternativa encontrada é a venda de concessões de serviços públicos para empresas privadas.
Os terminais portuários arrendados para a iniciativa privada já estão registrando melhores índices de desempenho do que nos tempos em que a administração era estatal. O mesmo começa a acontecer nas malhas ferroviárias da antiga Rede Ferroviária Federal. Por conta própria, empresas que trabalham no mercado de exportação também estão sendo forçadas a buscar alternativas mais eficientes de transporte.
O grupo Maggi, por exemplo, produtor de soja e sementes, descobriu que é mais barato transportar a produção de grãos do Mato Grosso de caminhão até Porto Velho, e de lá por hidrovia até Itacoatiara e Manaus. Antes a empresa transportava soja por rodovias até Paranaguá (PR). O frete por tonelada da região produtora até o Porto de Roterdan, na Europa, caiu de US$ 105 para US$ 75. No ano passado, a empresa exportou 320 mil toneladas e deve dobrar o volume em 98, graças à redução de custo.

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