Pais têm dificuldades de impor limites
É na escola, onde a criança desenvolve grande parte de seu processo de socialização, que o uso da Ritalina vem sendo mais percebido. A reportagem ouviu relatos de educadores que confirmam a incidência do uso do medicamento em até 18% dos alunos de uma mesma sala de aula. Para os professores, há casos em que o remédio é realmente necessário - nos de alunos hiperativos -, mas a banalização é uma realidade. ''A causa é o imediatismo de muitos pais e neurologistas, que querem medidas rápidas'', afirma Raquel (nome fictício), de 48 anos, professora de ciências de uma escola particular de classe média alta.
Alguns educadores dizem que o uso indiscriminado do remédio está vinculado à dificuldade que algumas famílias têm de impor limites aos filhos. ''É comum ouvirmos 'não sei o que faço com meu filho. Ele toma medicação, mas não sei o que fazer''', conta Isadora (nome fictício), de 43 anos, professora de história do ensino fundamental. ''Ouço pais falando 'meu filho tem 13 anos e mudou muito. Vou levá-lo ao neurologista e ao psiquiatra.' Ele tem 13 anos, é claro que mudou: é a idade de ser agitado'', diz a professora de história Larissa (nome fictício), de 32 anos. ''Se criassem uma escola que ensinasse os pais a educarem as crianças, seria um sucesso. Muitos priorizam a carreira e, quando percebem mudanças nos filhos, decidem levá-los ao médico.''
As escolas ouvidas afirmam não ser contra o medicamento - o desafio é mostrar aos pais que é possível tentar métodos menos invasivos, como terapia e atividades físicas.
Esse foi o caminho escolhido pelo pediatra da Unifesp José Artur Medina, pesquisador do TDAH, que convive com o transtorno na família. Além dele próprio, seu pai e seu filho são portadores. ''Já fui reprovado, preso, me envolvi com drogas. Cheguei a experimentar Ritalina e notei um ganho cognitivo. Mas muda a personalidade'', diz. Para o filho de 5 anos, Medina receitou suplementos de ômega 3 e aulas de judô. Exercícios físicos, diz ele, estimulam uma parte do cérebro menos desenvolvida em crianças com TDAH e isso proporciona grande melhora.
A pediatra Maria Aparecida Moyses, da Universidade Estadual de Campinas, também critica a padronização do pensamento e aprendizado. ''Nós não somos assim.'' (AE)





