Porto Alegre, 23 (AE) - O crescimento projetado de 32% na safra brasileira de arroz 1998-1999, elevando a produção para 11,28 milhões de toneladas, provocará redução de preços do produto no mercado interno. Segundo a analista Vera Velho, diretora da consultoria Agriplan, o ingresso de 2,7 milhões de toneladas a mais em relação à colheita passada coloca o País em situação próxima da auto-suficiência, pois a demanda interna fica ao redor de 11,5 milhões de toneladas. Vera explica que está se construindo um "cenário completamente novo" para o mercado de arroz a partir desta semana, quando começa a colheita no Rio Grande do Sul. Por causa disso, ela prefere não arriscar a margem precisa para recuo nos preços, hoje na faixa de R$ 20 00 o saco de 50 quilos ao produtor.
Segundo Vera, a próxima safra permitirá que o Brasil se feche para importação de terceiros mercados, principalmente os Estados Unidos, complementando a pequena diferença entre produção e demanda com aquisições no Mercosul. Isso praticamente elimina a referência dolarizada para os preços, retraindo as cotações. De outro lado, porém, os produtores não estarão sujeitos às tradicionais pressões para vender o arroz na "boca da safra", entende Vera Velho. De acordo com ela, além de praticamente não haver a concorrência do produto importado, o financiamento para custeio concedido no ano passado, ao ser parcelado em cinco vezes, trouxe junto uma espécie de EGF, pois os agricultores não precisarão fazer caixa a qualquer custo para pagar o empréstimo tomado em 1998.
Outro ponto que vai interferir na formação do novo cenário de preços, conforme a analista, é a inexistência de estoques reguladores oficiais do produto, o que elimina a interferência do governo no mercado. Além disso, as altas taxas de juros vão dificultar a formação de estoques nas indústrias, estimulando a formação desses estoques com os próprios produtores para conter maiores baixas no mercado.
Otimismo - Vera considerou "otimista" a projeção de crescimento de 37% na próxima safra brasileira de trigo, conforme anunciado hoje pela Conab. De acordo com ela, a estimativa ainda é sujeita a questionamentos, ainda não se sabe se haverá disponibilidade de sementes de boa qualidade para semear 1,67 milhão de hectares projetados para o plantio, 17,8% acima da safra passada. Mesmo assim, Vera admite que é "possível" alcançar os 3 milhões de toneladas anunciados pela Conab face à "euforia" dos produtores diante da elevação dos preços.
A cotação do grão é balizada pelo mercado internacional e mesmo com o aumento da produção interna, o Brasil ainda estará muito longe de suprir a própria demanda, estimada entre 8,7 milhões e 9 milhões de toneladas.
A estimativa anunciada pela Conab para a a próxima safra de soja, apontando uma pequena queda de 0,5% em relação aos 31,3 milhões colhidos no ano passado, não deve alterar a situação do segmento, que amarga os preços mais deprimidos dos últimos 23 anos. Segundo Vera Velho, o mercado internacional está abastecido do produto e a situação só pode mudar se a produção cair nos Estados Unidos, que respondem sozinhos por 49% da produção mundial de 154 milhões de toneladas. A definição sobre a safra americana, entretanto, não virá antes de agosto, explicou Vera.
De acordo com a analista, a desvalorização do real proporcionou alguma compensação aos produtores brasileiros, que têm parte das despesas das lavouras em moeda nacional e produto cotado em dólar. Mesmo assim este é um ganho relativo, avalia a analista, pois na condição de segundo exportador mundial de soja
o Brasil é formador de preços. Com o mudança no câmbio, o produto nacional fica mais competitivo internacionalmente, ajudando a deprimir as cotações.
Em relação ao milho, a quebra na safra gaúcha, que contribuiu para reduzir os índices nacionais de produtividade, aliada à desvalorização cambial, fará com que as indústrias do Estado busquem o produto no Centro-Oeste em vez de recorrer ao Mercosul. "Isso fortalece o produtor nacional", diz Vera Velho. O frete mais caro para buscar o milho de Goiás e Mato Grosso do Sul, segundo ela, é compensado pelo aumento dos custos das importações.

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