Estudos da OMS mostram que, do total gasto com a saúde, 42% é custeado com dinheiro público
Estudos da OMS mostram que, do total gasto com a saúde, 42% é custeado com dinheiro público | Foto: Ricardo Chicarelli


Informações apuradas pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) junto ao CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde), do Ministério da Saúde, apontam que houve uma redução de 10,19% no número de leitos do SUS (Sistema Único de Saúde) no País, caindo de 336.051 em 2010 para 301.797 em 2018. A cada dia, cerca de 12 leitos de internação – aqueles destinados a quem precisa permanecer num hospital por mais de 24 horas – deixam de atender pacientes pelo SUS em todo o Brasil. Só nos últimos dois anos, mais de 8.000 unidades desta natureza foram desativadas.

No Paraná, o índice de redução de leitos do SUS foi de 7,75%, caindo de 20.903 em 2010 para 19.282 em 2018, uma redução de 1.621 leitos. O conselheiro do CFM, Donizetti Dimer Giamberardino Filho, representante da entidade no Estado, destacou que a redução é nacional. "Somos um país continental e existem variações nessa redução. Isso reflete a redução do investimento em saúde, em seu custeio, na assistência. Novas estruturas são necessárias, porém esse subfinanciamento gera esse tipo de reação", destacou.

De acordo com Giamberardino, os estabelecimentos não reagem como uma empresa tradicional que baixa as portas imediatamente, porque esses estabelecimentos não anunciam que vão fechar os leitos de internação. "Isso acontece de forma agônica e lenta. A história natural da medicina aponta que, se o acesso a esse atendimento for facilitado, o diagnóstico é realizado mais rápido e as internações mais rápidas diminuiriam mortalidade, mas isso não acontece aqui. Hoje temos dificuldade de acesso a cirurgias e leitos complementares. Nos países em que esse sistema funciona melhor, a tendência é reduzir o número de leitos", apontou.

Ao mesmo tempo em que houve a redução de leitos SUS, houve aumento de leitos não SUS (particulares e de convênios) no País, passando de 123.865 em 2010 para 135.558 em 2018, um aumento de 11.693 leitos, o que equivale a um crescimento de 9,44%.

No Paraná, o número de leitos não SUS foi na contramão desse crescimento registrado no restante do País, com uma queda de 0,8%. Em 2010, havia 8.033 leitos desse tipo no Estado e em 2018, esse número caiu para 7.968. "Sobre o aumento de leitos não SUS no País, isso demonstra a questão própria do subfinanciamento e comprova a desigualdade nesse atendimento. Setenta e sete por cento das pessoas são usuárias do SUS e 23% são usuárias dos planos de saúde. Estudos da OMS (Organização Mundial de Saúde) de 2015 apontam que, do total gasto com a saúde, 42% é custeado com dinheiro público e 58%, com dinheiro privado. São 42% dos recursos para 77% da população e o restante para os outros 23% da população", apontou.

Giamberardino Filho aponta que a solução está no fortalecimento do SUS, que foi criado há 30 anos. "Desde então continua com os mesmos problemas. As políticas de Estado não estão sendo cumpridas pelo governo. Se não houver investimento, esse quadro irá persistir. Esse levantamento foi realizado com base no CNES e há a probabilidade de que esse número seja muito pior", analisou o diretor do CFM. "O investimento na saúde é necessário e prioritário. Não deve ser com transferências de responsabilidade entre as três esferas: federal, estadual e municipal. Os municípios de pequeno porte possuem mais dificuldades para articular essas ações, mas são corresponsáveis sempre", disse.

O presidente do Sinheslor (Sindicato dos Hospitais e Estabelecimentos de Saúde de Londrina e Região) e da Irmandade Santa Casa de Londrina, Fahd Haddad, afirma que em Londrina o número de leitos está estabilizado. "Isso é preocupante porque a população está aumentando. Pessoas têm vivido mais graças à medicina, e com isso aumentam chances de aumentar a internação hospitalar. O grande motivo é o subfinanciamento do SUS no Brasil inteiro", informou.

"A gente constata isso no dia a dia pela superlotação dos prontos-socorros e hospitais. Tem dias que não temos espaço para colocar os pacientes. Hoje estamos atendendo acima da capacidade e não temos perspectiva de receber os recursos desse atendimento a curto prazo. O deficit mensal dos hospitais é de R$ 4,5 milhões. Os hospitais atendem e o governo não tem recursos para pagar", ressaltou.

Haddad afirma que os hospitais não têm mais como manter essa situação. "Temos que fazer campanhas na comunidade para apoiar hospitais filantrópicos. Existem instituições com condições de aumentar o número de leitos, mas como hoje já não recebem por esses atendimentos que já realizam, como aumentar esse atendimento? Como profissional médico eu vejo a situação nos corredores. Ficamos de mãos amarradas, sem poder fazer muita coisa", lamentou.

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