Um país que apresenta melhores índices sociais, como a queda da mortalidade infantil e do analfabetismo em mais de um quinto, mas não consegue dividir a renda entre ricos e pobres está retratado nos indicadores sociais da década de 90, apresentados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A pesquisa, que compara dados de 1999 com os de 1992, mostra um percentual cada vez maior de crianças na escola e a consequente diminuição da proporção de adolescentes que trabalham.
Mas revela que os 10% mais ricos da população têm rendimento médio 19 vezes maior do que os 40% mais pobres. É a mesma variação de 1992, o que atesta que a desigualdade ficou inalterada. ‘‘É menos difícil combater a pobreza do que a desigualdade’’, afirmou o presidente do IBGE, Sérgio Besserman, durante a apresentação da Síntese de Indicadores Sociais 2000.
Em sete anos, a mortalidade infantil caiu de 44,3 bebês mortos por mil nascidos vivos para 34,6. Em números absolutos, 111 mil crianças morreram antes de completar um ano de idade em 1999. Os índices revelam uma queda substancial que se deve a programas como sa© úde da família, aleitamento materno e aumento do número de agentes de saúde, que passaram de 90 mil para 120 mil em menos de quatro anos.
Nos últimos trinta anos, o Brasil reduziu a taxa de mortalidade em 65%, mas ainda está em desvantagem quando confrontado com outros países. Na Argentina, o índice é de 18,4 mortes por mil, no Chile de 10, nos Estados Unidos, de 7,3 e em Cuba, 6,4. Segundo dados da Organização Pan-Americana de Saúde, as taxas brasileiras se equiparam às da mortalidade infantil em El Salvador e Honduras.
A redução da taxa de analfabetismo é significativa, mas o número absoluto ainda é muito alto. O percentual da população com 15 anos ou mais de idade analfabeta diminuiu de 17,2% para 13,3%. São, portanto, 15 milhões de brasileiros jovens, adultos e idosos que não sabem ler ou escrever. O IBGE ressalva na pesquisa que o Brasil ainda apresenta uma taxa ‘‘alarmante’’ de analfabetos funcionais, pessoas com menos de quatro anos de estudo. Em 1999, 29,4% das pessoas com 15 anos ou mais eram analfabetos funcionais.
Na educação, os dados mais significativos são em relação ao percentual de crianças na escola. Em todas as faixas entre 5 e 24 anos, a taxa de escolarização aumentou, o que representa mais chances de inserção no mercado de trabalho. O presidente do IBGE chama atenção, porém, para o fato de que nas faixas fora da idade obrigatória (7 a 14 anos), o acesso à escola ainda favorece a população de alta renda.
A média de anos de estudo da população ocupada aumentou em um ano entre 1992 e 1999, passando de 5,3 anos para 6,3 anos. Os nordestinos aumentaram de 3,6 anos em média para 4,5. No Sudeste, o aumento foi de 6,2 anos para 7,3 anos. No Sudeste, a média de estudos é 2,8 anos maior do que no Nordeste. Em 1992, era de 2,6 anos. A Unesco considera que o aprendizado se consolida a partir do quarto ano de estudo.
Para os demógrafos do IBGE, o investimento em políticas públicas no Nordeste será decisivo para ditar o ritmo da melhoria dos indicadores sociais.
‘‘Quase todos os indicadores sociais melhoraram, com exceção para a violência e o desemprego. E há os indicadores que avançam rápido, como escolarização, e os que avançam mais devagar, como saneamento’’, resume o presidente do IBGE.
A década de 90 será lembrada como aquela que consolidou a diminuição da família brasileira, que passou da média de 4,5 pessoas nos anos 80 para 3,4 nos 90. O formato da família ainda é casal com filhos, para a proporção caiu de 60% para 55% do total das famílias. Registrou-se um crescimento de um outro tipo de formação familiar: aquela de mulheres sem cônjuges que vivem com os filhos.

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