País fica entre piores em mortalidade
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de dezembro de 1997
Gustavo Alves Agência Estado Rio de Janeiro 
Arquivo FolhaNúmeros amargosA pobreza
contribui
com a
estatística
da fome
oculta e
da fome
aparente:
segundo o
relatório
do Unicef,
em 1996,
de cada mil
crianças
nascidas
vivas no
Brasil,
52 morreram
antes dos
5 anosO Brasil tem a 79ª pior taxa de mortalidade infantil entre os 189 países cuja situação de suas crianças é informado no relatório Situação Mundial da Infância 1998, divulgado ontem em todo o mundo pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Baseada em dados produzidos em 1996, a estimativa do Unicef foi de que, no ano passado, de cada mil crianças nascidas vivas no País, 52 morreram antes dos 5 anos.
A colocação do Brasil no ranking é pior do que a de países menos desenvolvidos, como Paraguai e Colômbia. A comparação mostra que o desenvolvimento econômico não corresponde necessariamente à melhoria das condições de vida das crianças, afirmou o médico Halim Antônio Girade, oficial de saúde do Unicef, ao divulgar o relatório ontem, na Federação das Indústrias do Rio de Janeiro.
Girade reconhece que há algumas boas notícias em relação à nutrição infantil, em comparação com estudos anteriores do Unicef. A desnutrição crônica baixou de 15,7% da população infantil, índice registrado em 1989, para 10,5% em 1996. A redução foi de 36% nas áreas urbanas e de 16,3% na zona rural. Em números absolutos, significa que, das 15.626 milhões de crianças brasileiras com menos de cinco anos, 1,641 milhão sofrem de desnutrição crônica.
O relatório também aponta 359 mil crianças com desnutrição aguda - situação na qual a fome é provocada por acontecimentos inesperados mas temporários, como enchentes. A quantidade significa 2,3% do total de crianças, mas ela pode crescer, caso o fenômeno El Ni¤o piore a seca no Nordeste, alertou o oficial de Saúde. Qualquer índice além do apontado no relatório seria desastroso para o País, avisou.
Girade reconheceu que o aleitamento materno no Brasil deu um salto muito grande. Segundo ele, nos últimos dois anos, a taxa de menores com 4 meses de idade que se alimentam somente do leite da mãe passou de 3,6% para 39% do total. Apesar disso, o Unicef estima que apesar da tendência favorável ao aleitamento materno exclusivo, mais da metade das crianças brasileiras é excluída desta prática antes de completar dois meses de idade.
ElogioO Programa de Agentes Comunitário de Saúde (Pacs) e a Pastoral da Criança da Igreja Católica foram elogiados por Girade como grandes responsáveis pelas melhorias das condições de alimentação das crianças no País. A Pastoral chega a ser elogiada em um artigo publicado no relatório, que tem versões em seis línguas diferentes.
O estudo do Unicef mostra que, nas comunidades atendidas pelos agentes de saúde, o índice de crianças com menos de 2,5 quilos ao nascer é de 5%, e de 6% em locais beneficiados pela pastoral. A média nacional, que se manteve estável, é de 9,2% - 295 mil dos 3,2 milhões de bebês que o fundo calcula que tenham nascido em 1996. O melhor índice é abaixo de 5%, explicou Girade, lembrando que crianças com peso abaixo de 2,5 quilos têm 11 vezes mais chances de morrer antes de completar um ano de idade.
O médico do Unicef alertou também que o Brasil corre riscos ao seu desenvolvimento com o que chama de fome oculta - deficiência de três micronutrientes essenciais para o desenvolvimento intelectual e físico da criança: vitamina A, iodo e ferro. Segundo Girade, a mistura destes produtos com alimentos de grande consumo, como sal, leite, açúcar e farinha, garantiria a saúde infantil ao custo de R$ 0,12 per capita ao ano no Brasil.
Ele admitiu que é muito difícil que o Brasil atinja cinco das sete metas para a nutrição infantil que o governo se comprometeu a cumprir até 2000, no Encontro Mundial de Cúpula pela Criança, em 1990. As metas que não devem ser atingidas são justamente o combate aos distúrbios causados pela falta de micronutrientes, a promoção da amamentação e a promoção e acompanhamento do crescimento em todos os países. O único compromisso cumprido foi o de redução de 50% da taxa de desnutrição moderada e grave em crianças menores de 5 anos.


