Davos, Suíça, 28 (AE) - Há um ano Armínio Fraga estava em Brasília, assumindo a presidência do Banco Central, enquanto o Brasil era assunto de piadas de empresários, economistas e políticos de vários países, reunidos no Fórum Econômico Mundial. Fraga é o principal representante brasileiro neste ano, em Davos
e seu trabalho inicial, hoje, foi mostrar as perspectivas de uma economia em recuperação depois de uma grave crise cambial. O setor externo, segundo ele, está muito mais sólido e preparado para resistir a impactos.
Para começar, o governo federal deve amortizar neste ano US$ 3,9 bilhões e já captou Us$ 1,75 bilhão em duas operações no mercado. As exportações começam a ganhar impulso e o País deverá beneficiar-se da melhora dos preços agrícolas.
Praticamente inexiste no País capital externo de curto prazo, em condições de sair de uma hora para outra. Os créditos de curto prazo são vinculados a operações comerciais e mais estáveis que as aplicações especulativas. No ano passado, o investimento direto estrangeiro, acima de US$ 29 bilhões, foi mais que suficiente para cobrir o déficit em conta corrente, pouco superior a US$ 24 bilhões.
Esse quadro, segundo Fraga, permite alguma tranquilidade em face de uma possível alta de juros nos Estados Unidos, com o risco normal de alguma redução da oferta de dinheiro. Ele reafirmou a expectativa de crescimento econômico próximo de 4% neste ano (3,5%, na projeção "conservadora" do BC), com preços ao consumidor subindo cerca de 6%.
Mesmo com a expansão dos negócios - incluído maior consumo de bens duráveis -, dificilmente haverá maior pressão inflacionária, de acordo com a avaliação de Fraga. Alguns empresários têm falado em repasse de preços, mas a situação varia de setor para setor, argumentou Fraga, e, de modo geral, há muita capacidade ociosa na economia, condição para aumento da oferta sem pressão de custos.
Fraga apresentou esse quadro numa entrevista e, pouco antes, num almoço com latino-americanos. Lá estavam o novo ministro da Economia da Argentina, José Luis Machinea, o presidente do Banco Central do México, Guillermo Ortiz, e o presidente da Corporação Andina de Fomento, Carlos García. "Há um ano", comentou García, "todos perguntavam em Davos quando seria o fim do mundo - se no sábado, no domingo ou na segunda." A situção melhorou rapidamente, no ano passado, mas sobram problemas importantes de longo prazo.
O primeiro deles, concordaram todos, é consolidar um novo regime fiscal. Isso pode parecer um objetivo muito modesto, disse Ortiz, como se alguém, ao lhe perguntar o objetivo de viagem, respondesse: subir a escada sem cair, como primeira condição para uma grande jornada. A imagem foi retomada por Fraga. Como Ortiz, ele destacou também a importância de buscar maior competitividade, por meio de investimentos em educação, em tecnologia e de uma série de reformas capazes de fortalecer o sistema produtivo. Fraga também se estendeu na discussão da mudança permanente das condições fiscais. A Lei de Reforma Fiscal, recém-aprovada na Câmara dos Deputados, foi apontada como exemplo desse esforço.
Machinea e Fraga falaram sobre os benefícios recíprocos da retomada do crescimento no Brasil e na Argentina e reafirmaram os propósitos de convergência das políticas macroeconômicas. Tanto melhor, segundo Machinea, se o Brasil for bem e, como consequência, o real se fortalecer, favorecendo a economia argentina.
O deputado inglês Kenneth Clark, ex-ministro do Tesouro britânico, perguntou a opinião das autoridades latino-americanas sobre a dolarização no Equador. Também houve concordância: é um erro ver a dolarização como remédio para todos os males - especialmente quando entre eles se incluem sérios problemas políticos, como no Equador.
Além de ter participação prevista num almoço, numa entrevista e num grande painel de discussão hoje, Fraga tinha vários encontros marcados. Deveria encontrar, entre outros, o vice-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, Stanley Fischer, e o banqueiro William Rhodes, do Citigroup, negociador da dívida externa latino-americana nos anos 80.

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