País enfrenta aumento de casos de oropouche
Com sintomas semelhantes ao da dengue e chikungunya, doença ainda não tem transmissão local no Paraná
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de outubro de 2024
Com sintomas semelhantes ao da dengue e chikungunya, doença ainda não tem transmissão local no Paraná
Franciely Azevedo - Especial para a FOLHA 

O Brasil enfrenta, nos últimos meses, um aumento significativo de casos de febre oropouche, que é transmitida pelo mosquito-pólvora. A doença, com sintomas semelhantes aos da dengue e chikungunya, ainda não tem transmissão local no Paraná. Apesar disso, o estado está em constante alerta.
A Sesa (Secretaria de Estado da Saúde) informou que o Paraná possui 12 casos de moradores que contraíram a doença oropouche em outros estados. Os dados constam no Sinam (Sistema de Informação de Agravos de Notificação). “Importante ressaltar que não há nenhum caso autóctone da doença no Paraná até o momento”, disse a pasta.
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) informou, nesta segunda (7), que irá priorizar a análise dos pedidos de registro de testes que identifiquem doenças como dengue, chikungunya e oropouche. A medida deve durar até 31 de dezembro deste ano
A FOLHA conversou com a pesquisadora Cláudia Nunes Duarte dos Santos, chefe do Laboratório de Virologia Molecular da Fiocruz Paraná, que é uma das especialistas que lideram as pesquisas sobre o vírus oropouche no Brasil. Ela esclareceu os principais pontos em relação à doença.
O que é a febre oropouche e quais são suas características?
Essa febre é causada pelo vírus oropouche, que é um arbovírus. O que isso significa? Que é um vírus transmitido por artrópode. Nesse caso do oropouche, é um mosquito que transmite. É uma infecção que causa febre, além de outros sintomas.
Esse é um vírus novo?
Esse vírus foi descrito pela primeira vez no final dos anos 50 e início do 60 e ele sempre circulou em um ambiente mais silvestre, mais restrito à região amazônica. Ele infectava seres humanos, mas de uma forma mais esporádica, com um número menor de pessoas envolvidas. O que aconteceu de um ano e pouco pra cá? Com a destruição da biodiversidade, da floresta, e o aquecimento global, o comportamento do vírus e do mosquito mudou.
E por que esse avanço do vírus está acontecendo tão rapidamente?
Eu quero adiantar que não será o único vírus, porque a Amazônia abriga milhares de vírus, incluindo os que ainda não conhecemos. Essa floresta funciona como um escudo, ela mantém o vírus mais restrito. Quando você começa a destruir a floresta e entrar em contato com esse ambiente silvestre, esse vírus acaba se dispersando para áreas mais urbanas. Foi o que aconteceu e hoje temos o vírus oropouche distribuído em todos os estados brasileiros.
Qual o cenário da doença aqui no Paraná?
O Paraná não tem ainda casos de transmissão local, que chamamos de autóctones. Só que a vizinha Santa Catarina tem uma transmissão importante, com centenas de casos locais. Já no Paraná, os casos investigados ainda são importados, ou seja, pessoas viajantes que foram infectadas em outros locais. Isso não significa que não esteja acontecendo, porque pode estar passando por baixo do radar. Mas o serviço de saúde no Paraná é muito efetivo e acredito que teríamos percebido.
Qual a característica desse mosquito?
O nome científico dele é Culicoides paraensis, mas a gente conhece aqui no Paraná como mosquito pólvora e outras regiões como maruim. É aquele mosquito bem pequenininho, que tem uma picada que dói. Ele é um mosquito altamente distribuído e é o vetor principal do vírus oropouche.
Quais as diferenças entre a febre oropouche e outras doenças como a dengue e chikungunya, que também são transmitidas por mosquitos?
Essas doenças são transmitidas por vírus e mosquitos de espécies diferentes. Os sintomas como febre aguda, dores no corpo e de cabeça se confundem, por serem bastante semelhantes. A diferença é o curso da doença. A oropouche tem o perfil de uma doença mais neurológica, porque pode afetar o sistema nervoso central em alguns casos. Inclusive, há óbitos pela primeira vez na literatura relacionados à infecção pelo vírus oropouche.
Como estão as pesquisas em relação à febre oropouche?
Nós fazemos as pesquisas no sentido de vigilância epidemiológica, em colaboração com a Secretaria de Estado de Saúde do Paraná. Eles fazem as coletas dos vetores e amostras, que são encaminhados para o nosso diagnóstico. Estamos fazendo essas pesquisas para tentar implementar medidas de controle antes que a situação fique grave. Como podemos controlar isso? Não é uma situação trivial. Esse mosquitinho fica em ambientes mais úmidos com matéria orgânica como em plantações de banana, por exemplo. Então, é evitar ter esse ambiente perto das casas e evitar ser picado.
Os repelentes são eficazes no combate a esse mosquito?
Isso está sendo pesquisado e é motivo de grande preocupação, porque nunca se prestou atenção nesse mosquito como um vetor. Então assim, a gente tem observado os repelentes e ainda não sabemos se eles são 100% eficazes como são para mosquitos que transmitem a dengue e a zika. Então, para o maruim estamos aprendendo em tempo real.
Então, como se proteger neste momento?
Uma alternativa é telar portas e janelas para evitar a entrada do mosquito nas residências. O problema é que tem que ver a malha da tela, porque como ele é um mosquito muito pequenininho, acaba passando por telas que tem um espaço de malha maior.


