Curitiba - Começou ontem o novo julgamento do caso Evandro Ramos Caetano, assassinado no dia 7 de abril de 1992, num suposto ritual de magia negra, em Guaratuba, no litoral paranaense. Após cinco adiamentos, os pais-de-santo Osvaldo Marcineiro e Vicente de Paula Ferreira e o ajudante de terreiro Davi dos Santos Soares, acusados de participar do ritual macabro, sentaram novamente no banco dos réus. Ferreira e Soares respondem ao processo em liberdade. Apenas o pai-de-santo Osvaldo Marcineiro está preso desde julho do ano passado acusado de estelionato. O depoimento de Marcineiro, considerado como o dono do terreiro, começou no período da manhã. Ele negou que tenha cometido qualquer tipo de crime. O julgamento deve terminar sexta-feira.
Os pais, a tia e os avós de Evandro acompanharam o julgamento. A família, revoltada com um dos crimes de maior impacto no Paraná, aguarda com ansiedade a condenação dos réus. ''Estamos cansados de sofrer, esperando há 12 anos pela condenação. Só queremos que a Justiça seja feita'', declarou a tia Davina Caetano. Evandro morreu com seis anos de idade. Ele era o filho mais novo do casal Ademir Batista Caetano e Maria Ramos Caetano. A família está, no momento, sem advogado. O pai de Evandro, Ademir Caetano, resolveu dispensar o advogado Cláudio Dalledone Júnior, por ter trabalhado na defesa de Valentina de Andrade, investigada por ter supostamente praticado crimes semelhantes em Altamira, no Pará, onde foi absolvida das acusações. Ela também foi investigada no Paraná e no Maranhão. Os crimes supostamente por ela praticados envolviam a castração e o assassinato de crianças em rituais de magia negra.
Segundo leitura dos autos do processo, Celina e Beatriz Abbage, acusadas de serem as mandantes do crime (julgadas e absolvidas em abril de 1998) teriam pago 7 milhões de cruzeiros (moeda da época) pelo serviço que visava reerguer a serralheria da família Abbage, naquele município. Para tal trabalho, seria necessário o sacrifício de uma criança de pele clara. Ainda, segundo a leitura, os acusados teriam procurado a criança destinada à oferenda durante a manhã do dia 6 de abril, a teriam mantido em cativeiro durante algumas horas e a teriam sacrificado na noite do dia 7 de abril.
Segundo o Ministério Público (MP) estadual, o menino Evandro foi morto por asfixia, teve seu couro cabeludo arrancado, pescoço, mãos e orelhas cortadas, costelas serradas e vísceras retiradas e colocadas em uma tigela, em oferenda aos deuses da magia negra.
Interrogado pelo juiz Rogério Etzel, Osvaldo Marcineiro negou a autoria do crime, embora na época ele tenha confessado sua participação nas sessões de magia negra que sacrificaram o menino Evandro. Marcineiro disse que foi obrigado a confessar um crime que não havia cometido mediante diversas sessões de torturas. As informações da época são bastante divergentes. Segundo o juiz, Marcineiro chegou a dizer, na época, que foi Vicente quem estrangulou Evandro. Mas, ontem ele negou tudo o que havia dito anteriormente. ''Confessei tudo sob tortura.'' Essa também foi a alegação feita por Beatriz e Celina durante o maior julgamento da história do Brasil, que durou 34 dias e acabou com a absolvição das duas por falta de provas de que o corpo era mesmo de Evandro. O MP conseguiu exames de arcadas dentárias e de DNA comprovando que o corpo era do garoto e conseguiu a anulação do julgamento delas.
Marcineiro também contou sua trajetória no município de Guaratuba. Ele trabalhava como artesão no centro de Curitiba, e conta que se mudou para lá em 1992, ano da morte de Evandro. Logo que chegou, ele montou uma tenda de leitura de búzios, onde trabalhava Vicente de Paula. Segundo Marcineiro, Celina Abbage chegou a frequentar a tenda, porém poucas vezes. O acusado, Vicente de Paula, Davi e Beatriz costumavam frequentar o Centro Espírita de Hortênsia. De acordo com o depoimento do réu, no dia 6 de abril (um dia antes do assassinato de Evandro), familiares de uma criança desaparecida foram até o centro espírita pedir orações para que a mesma fosse encontrada. ''Beatriz e Vicente então saíram em busca da criança, mas não a localizaram.''(Com Luciana Pombo)

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