Paes dizia viver em Torre de Babel
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de outubro de 1998
Eder Chiodetto Agência Folha 
Chovia quando cheguei à casa do poeta José Paulo Paes para entrevistá-lo no final de 97. Ao toque da campainha surgiu Dora, sua mulher. Rapidamente resgatou-me do frio, da chuva e do trânsito infernal de Santo Amaro. A casa desconhecia o quão insalubre estava o mundo lá fora. Ali ouvia-se Bach (ou seria Mozart?) e o perfume do almoço de Dora recendia no ambiente.
Fui levado até seu escritório, no fundo da casa. Ele me aguardava em pé, apoiado em sua bengala. A mesma para a qual escreveu: Contigo me faço/ pastor do rebanho/ de meus próprios passos.
Conversamos umas duas horas. Contou-me dos seus tempos de farmacêutico, de como se tornou autodidata no aprendizado de línguas, da importância que o concretismo teve em sua obra.
Lembrou o tempo em que construiu a casa numa pequena e sossegada rua, hoje ruidosa avenida. Há 20 anos escreveu: Sou o poeta mais importante da minha rua, mesmo porque minha rua é curta.
Sobre o ofício de tradutor, essa bendita torre de Babel, revelou que lia e escrevia em oito línguas, mas não sabia falar esses idiomas. Sou surdo-mudo em várias línguas. Não as domino, sou dominado por elas.
Trabalhava cinco horas diárias ouvindo música clássica nos inúmeros rádios espalhados pela casa. Quando Dora quer me achar, procura o rádio que está ligado.
Numa rápida pausa da chuva fiz seu retrato no quintal. Quando viu a foto publicada ligou se dizendo emocionado com a imagem em que aparecia trabalhando sob a placa da antiga tipografia de seu avô, afixada na entrada do escritório. Pediu-me cópia de presente, retribuiu com seu livro Prosas Seguidas de Odes Mínimas.
Ao saber de sua morte na última sexta-feira reli seu poema Escolha de Túmulo: Onde os cavalos do sono/ batem cascos matinais./ Onde o mundo se entreabre/ em casa, pomar e galo./ Onde ao espelho duplicam-se/ as anêmonas do pranto./ Onde um lúcido menino/ propõe uma nova infância./ Ali repousa o poeta./ Ali um vôo termina,/ outro vôo se inicia.
Mais adiante, em Balancete, ele define a morte: esquina ainda por virar quando já estava quase esquecido o gosto de virá-las. Caso não soem trombetas, que ao menos os rádios estejam ligados para além dessa esquina.


