Padres da nova geração são mais conservadores
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de abril de 1999
Por Roldão Arruda 
São Paulo, 25 (AE) - De acordo com um estudo publicado na última edição da Revista Eclesiástica Brasileira (REB), da Editora Vozes, as novas gerações de padres brasileiros são mais conservadoras e apegadas aos sinais distintivos de sua condição, tais como festas, vestes, poderes. Para o autor do estudo, o teólogo e professor Luiz Roberto Benedetti, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (Puccamp), os novos presbíteros dedicam-se menos aos estudos e às questões ligadas à justiça social. É o oposto do que ocorreu nos anos do regime militar, quando a Igreja no Brasil, "por conta das circunstâncias e pela ação sua forças mais generosas, tornou-se voz e vez dos sem-voz e sem vez", afirma o estudioso.
Para ele, a opção pelos pobres se esvazia cada vez mais, provocando reações explícitas, como essa, registrada na publicação: "Não aguento mais esse negócio de pobre, pobre!" As afirmações de Benedetti são baseadas em pesquisas realizadas por ele e outros pesquisadores entre seminaristas e padres formados recentemente, além de suas observaçõs pessoais como professor de seminário. Ele registra que o número de seminaristas empenhados, ou dispostos a empenhar-se em organizações claramente vinculadas às ações sociais, como as comunidades eclesiais de base (CEBs), a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e as organizações voltadas para os operários, os índios e os imigrantes caiu cerca de 50% em relação a 20 anos atrás.
O professor da PUC acredita que está havendo uma volta ao passado. Um sinal disso seria uma ênfase menor nas relações com outras igrejas, o chamado ecumenismo. Aturdidos por um pluralismo religioso crescente e pelo declínio do prestígio católico que conheceram na infância, os novos padres estariam preocupados sobretudo em revalorizar o catolicismo. Ele cita o padre Marcelo Rossi, apontando-o como um tipo de empresário da salvação, que faz sucesso na mídia e e constrói, à sombra dela, um aglomerado de empresas que editam livros, vídeos, CDs, cassetes, camisetas. Entre outros padres que agem da mesma maneira, segundo Benedetti, estariam Jonas Abib, da TV Canção Nova, e Alberto Luiz Gamberini.
Estes três pregadores, de acordo com o estudo, divulgam mensagens de cunho fundamentalista, apologético e propõe a interpretação literal da Bíblia. "Fazem pregação de um Deus mágico, milagreiro, que age de maneira imediata, mecânica", diz o artigo publicado na REB. "Uma religião de cunho mágico".
Para Benedetti, que também é padre, o clericalismo estaria renascendo com força total. "Incapazes de dialogar com os homens de hoje, os padres tendem a se firmar sobre o que lhes é próprio: o poder sacerdotal", afirma. "A geração atual tende a voltar-se para si mesma, pela mediação institucional da Igreja
que lhe dá um poder e os símbolos associados a este poder, a esta identidade".
As causas dessas mudanças na mentalidade dos presbíteros
de acordo com o estudo, não estariam associadas apenas às mudanças no cenário das religiões no País. Trata-se de um fenônomeno mundial, que teria raízes também nas mudanças que o atual pontífice realizou nos seminários, pulverizando boa parte das inovações que haviam surgido com o Concílio Vaticano II, nos anos 60. Para ele, os atuais seminaristas são formados à margem do mundo, isolados da realidade social. Muitos deles, originários de famílias pobres, vêem na profissão de padre uma oportunidade de ascensão social.


