O vigário de Florestópolis, o padre Manoel Idalgo, quer que a mesma comunidade que venceu o desafio de acabar com a mortalidade infantil encare de frente os problemas relacionados com os jovens carentes da cidade.
‘‘Tiraram a criança da cova e estão usando a mesma cova para o adolescente’’, resume o padre. ‘‘Nossos jovens estão acabando com a própria vida usando o álcool, as drogas, a violência, a prostituição, a gravidez precoce e com a falta de formação humana’’.
Voz isolada na comunidade – o prefeito, o delegado e o Conselho Tutelar dizem que a cidade é tranquila como qualquer uma do mesmo porte (veja nesta página) – o líder religioso está preocupado com o descaso de programas governamentais para esta faixa etária e quer montar em Florestópolis, também como experiência piloto para outras regiões, a Pastoral do Adolescente. ‘‘Ninguém se preocupa com eles, tenho medo que o problema tenha que se agravar para que as pessoas acordem. Mas, nós estamos dispostos a preencher esta lacuna’’, planeja.
O embrião para a nova empreitada foi uma reunião promovida pelos católicos com os professores do município. O 1º Encontro dos Profissionais da Educação foi realizado há dois meses.
Cerca de 200 professores se dividiram em grupos de discussão. A situação do adolescente foi tratada com quatro abordagens: sociológica, psicológica, ecológica e religiosa. ‘‘Nós mobilizamos os educadores para trazer para a comunidade a real situação dos nossos jovens. É o primeiro passo para que todos se envolvam com a questão’’, diz.
O padre lembra que como uma espécie de ouvidor comunitário, função que, segundo ele, desempenha diariamente, pais e mães estão ‘‘apavorados’’ com o comportamento dos filhos. ‘‘As queixas crescem dia a dia. Ninguém sabe como agir. Nem os educadores, nem a família’’, constata.
Diferente do trabalho da Pastoral da Criança, que se caracteriza pelas visitas domiciliares, se tornou consenso nas discussões preliminares que os esforços para a mudança do atual quadro deverão envolver também a escola e outras atividades ligadas aos adolescentes. ‘‘É muito mais complicado obter resultados práticos com os jovens, que sofrem influências da mídia, dos amigos, às vezes até do ambiente profissional, do que com a criança, que depende exclusivamente de um trabalho com a família’’, ressalva.
As medidas práticas da futura Pastoral do Adolescente estarão resumidas à campanhas de conscientização, segundo o padre. ‘‘Orientação é a palavra-chave. A pastoral poderá funcionar como uma família para o adolescente carente, um respaldo sólido capaz de resgatar sua auto-estima’’, explica.
Uma das preocupações dos voluntários, lembra o padre, será a de encontrar uma maneira de atrair o jovem para estas campanhas. ‘‘A igreja tem uma postura clara sobre alguns problemas: o uso do preservativo, dos métodos anticoncepcionais, das drogas, da vida sexual, da violência. Mas encontraremos uma forma de não parecermos moralistas ou paternalistas. Queremos fornecer informação para que eles sejam capazes de saber qual a melhor atitude a tomar’’, pondera.
O padre também está disposto a discutir com os jovens as ‘‘influências nefastas’’ exercidas pelos meios de comunicação – ‘‘a televisão, principalmente’’. ‘‘Não adianta falarmos uma coisa e a televisão pregar outra. Temos que ter posturas firmes e, se preciso, mostrar aos jovens quem realmente está preocupado com eles como seres humanos e não como meros consumidores’’, afirma.
Entre as idéias do Padre Manoel para tentar ‘‘neutralizar a massificação de um comportamento negativo’’ imposto pelas redes de TV, está a reinstalação da rádio comunitária, que ‘‘teve ótimos resultados’’ nos dez meses que funcionou, em 1998, mas foi lacrada pelo Dentel. A cidade não dispõe de jornal ou revista de circulação regular nem emissoras comerciais.
Com potência reduzida, o sinal da Radio do Padre como era conhecida, abrangia um quilômetro e meio de raio, ou seja, todo o perímetro urbano do município. ‘‘Não temos nenhum veículo que aproxime a comunidade. A rádio prestava um serviço importante. Todo mundo me pergunta sobre quando nossa emissora vai voltar a funcionar. Vamos lutar para que aquela experiência seja retomada e se transforme na principal voz da Pastoral do Adolescente’’.

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