O padre Vieslau Morawski, 63 anos, polonês naturalizado brasileiro, é há 8 anos o orientador espiritual dos 90% de católicos entre a população de Marquinho. Ele abriu a porta de sua casa demonstrando receio de falar com o jornalista. Depois, certificando-se de que a entrevista não se concentraria nos episódios ds sexta-feira, a voz do pastor tornou-se mais fluente. Com serenidade, o padre argumentou em favor ‘‘do povo simples, que quer viver em paz’’, mesmo reconhecendo: ‘‘Aqui sempre houve fatos desagradáveis’’. Mas o religioso não aceita que se espalhe a imagem de que a cidade é um ‘‘covil de bandidos’’.
Vieslau disse na missa de domingo que ‘‘todos são seus paroquianos’’, o que inclui familiares das pessoas presas, e que ‘‘a maioria delas não é formada por bandidos’’. Para o padre, ter armas em casa ‘‘é comum para o povo do interior, principalmente para quem vive em lugares ermos’’ e por falta de informação a população não se preocupa com o fato de haver necessidade de registro das armas.
No caso do prefeito, o padre não considera sensato apontá-lo sem provas finais como ‘‘criminoso’’ e especula que ele acumulasse armas em casa ‘‘porque vinha sofrendo ameaças’’. Vieslau tem Eleutério como ‘‘uma pessoa cordial’’ e o considera ‘‘um político que fez alguma coisa de bom pelo povo, porque aqui tudo estava por fazer, quando ele assumiu’’.
Também procurada pela reportagem, a professora Vilma Buzarello, 43 anos, diretora do Colégio João Rysicz, só falou a muito custo, com a promessa de que a conversa não teria referência à factualidades. Nascida em Marquinho, ela sabe bem que o histórico da região é marcado por episódios violentos, ‘‘mas a situação hoje é bem mais crítica’’.
Adversários políticos do prefeito também foram procurados, mas ninguém aceitou falar sendo identificado. Em um local, um destes adversários indicou outro, seu amigo, mas recusou-se a telefonar para ele por telefone avisando que a reportagem o procuraria: ‘‘É melhor não me meter, porque de repente o pessoal do prefeito descobre que eu liguei...’’ A Folha foi ao endereço e foi recebida com grande cautela pelas mulheres da casa – a mãe, política atuante, e sua filha. O ‘‘chefe’’ da família, também político, estaria dormindo. A mulher falou pouco, mas a filha foi mais incisiva.
Segundo a moça, João de Lima Eleutério ‘‘quer ser reeleito’’ e proclamava constantemente ‘‘que ninguém teria coragem de se apresentar como candidato para enfrentá-lo’’. Por que? ‘‘Ora, todos sabem como ele e seu grupo são violentos’’.
Pessoas ligadas a João de Lima Eleutério, em sua casa, onde havia grande aglomeração, também não se dispuseram a falar. Pelo contrário: uma mulher imediatamente se antecipou às demais pessoas, aos brados, acusando ‘‘a Imprensa’’ de agir incorretamente, ‘‘botando todos aqui como bandidos’’. Depois, determinou que a reportagem se afastasse, ‘‘para não acontecer coisa pior’’.
O presidente da Câmara e outros vereadores não foram encontrados, assim como o vice-prefeito Olídio Dal Pai (PMDB), 62 anos. Sabe-se que o vice desentendeu-se com Eleutério pouco depois da posse. Ele teria receio de assumir o cargo, em decorrência de impedimento do titular – o que dependerá de posicionamento da Câmara. O vice teria recebido ameaças, de parte de pessoas ligadas ao prefeito. (P.P.)

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