O líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), José Rainha Júnior, ganhou um forte aliado no processo em que é acusado de participar de duplo homicídio, em 89, em Pedro Canário, interior do Espírito Santo. O antigo pároco da cidade de Madalena (CE), padre Pedro Paulo Cavalcante, de 51 anos, garante que Rainha estava em Madalena - a cerca de 200 quilômetros de Fortaleza - no dia 05 de junho de 1989, quando, em Pedro Canário, foram mortos o fazendeiro José Machado Neto e o policial Sérgio Narciso da Silva. De acordo com o religioso, Rainha participava da ocupação da fazenda Reunidos de São Joaquim. O padre hoje está aposentado e mora em Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza.
‘‘Eu me lembro muito bem da sua fisionomia, da sua presença na região, tanto no assentamento, no meio dos camponeses e dos líderes locais, como assistindo a missa que celebrei, no dia seguinte, para comemorar a desapropriação, pelo Governo, da fazenda Reunidos de São Joaquim, disse. O padre garante que não se baseia apenas na memória. ‘‘Fiz anotações destes acontecimentos na minha agenda pessoal e no livro de tombo’’, disse ele, referindo-se a uma espécie de diário oficial da igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, em Madalena, onde trabalhou.
‘‘Eu não acredito que o Rainha, naquele dia 5 de junho de 1989, tenha se deslocado à noite até Pedro Canário, para matar o fazendeiro e o policial e tenha amanhecido, no dia 6, em Madalena. E não acredito nesta possibilidade, porque a considero simplesmente impossível de ter sido concretizada, não só pela distância que separam os dois lugares, como pelo tempo que seria gasto, explicou o pároco.
O padre diz que, de acordo com as anotações de sua agenda, no dia 2 de junho, estava preocupado com ‘‘o ajuntamento daquelas pessoas na fazenda’’ e levou um médico e uma enfermeira para atender aos acampados. No dia seguinte, ainda de acordo com as anotações, o padre permaneceu na cidade, envolvido com outras atividades evangélicas.
‘‘No dia 4, um domingo, depois de celebrar missa num lugar chamado São Miguel da Macaoca, na fazenda do prefeito Raimundo Andrade de Moraes, levei-o (o prefeito), no meu carro, para conhecer o assentamento. Foi neste dia que conheci José Rainha’’.
No dia seguinte, segundo os registros em sua agenda, o padre Pedro Paulo celebrou missa em Salgadinho, a seis quilômetros de Madalena, indo, em seguida, até o assentamento, quatro quilômetros adiante. ‘‘Lá, vi o Rainha entre os sem-terra, com aquele seu jeito bonachão, de sandálias japonesas, bem magro e esguio. Isto foi finalzinho da tarde’’, disse. Pedro Paulo, que diz ter ‘‘problemas no coração’’, garante não ter medo da verdade, ‘‘afinal um homem de Deus não mente’’.
O padre Pedro Paulo Cavalcante recordou, com riqueza de detalhes, o dia 6 de junho de 1989: ‘‘neste dia, recebi para almoçar o bispo de Quixadá, d. Adélio Tomazin, que estava com o vigário geral da diocese, monsenhor Vicente Albuquerque, numa visita de rotina’’. Depois do almoço ‘‘fomos, eu e o bispo, até o assentamento dos sem-terra, para ele ter uma idéia do que estava acontecendo’’.
A visita de d. Adélio, diz ele, foi rápida; menos de uma hora. D. Adélio, continua o pároco, não esteve com o Rainha ‘‘mas eu vi o Rainha no meio daquela gente, porque já o conhecia’’.
No dia seguinte pela manhã, ele diz ter chegado ao assentamento em torno de 8h, para comunicar aos sem-terra a decisão do Governo do Estado de desapropriar a fazenda. Os sem-terra, disse ele, comemoraram a decisão e, às 16h, celebrou uma missa num altar improvisado. ‘‘Nessa missa, o Rainha estava lá presente, como o prefeito Raimundo Andrade de Moraes’’, afirmou o padre Pedro Paulo.
Para reforçar as informações do religioso, Andrade de Moraes, que voltou à Prefeitura, confirmou ter comparecido duas vezes ao assentamento na fazenda Reunidos de São Joaquim, uma no domingo, junto com o padre e outra na quarta feira, para a ‘‘missa da vitória’’. O bispo de Quixadá, d. Adélio confirmou sua ida ao assentamento, mas ‘‘não tive contato com as lideranças do movimento’’.

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