Pacientes de Londrina recebem cirurgia cardíaca robótica pelo SUS
As três cirurgias, realizadas no Hospital Evangélico, foram pioneiras no interior do Paraná, com mais sete procedimentos marcados em 2025
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de agosto de 2025
As três cirurgias, realizadas no Hospital Evangélico, foram pioneiras no interior do Paraná, com mais sete procedimentos marcados em 2025

Rodrigo Otavio Santos se tornou, na última sexta-feira (15), o primeiro paciente do interior do Paraná a ser submetido a uma cirurgia cardíaca robótica totalmente custeada pelo SUS (Sistema Único de Saúde). O porteiro de 40 anos teve alta na manhã desta segunda (18), com uma cicatriz no peito “do tamanho de uma agulha de insulina”, comparou Kleber Müller, cirurgião cardíaco do HEL (Hospital Evangélico de Londrina).
O médico encabeçou o projeto da equipe de robótica de cardiologia da instituição, coordenando o trabalho com mais três especialistas. A equipe realizou o procedimento em mais dois pacientes, por meio de uma iniciativa do corpo clínico de cirurgiões com o Evangélico. Müller ressaltou que “os procedimentos não são ofertados pelo SUS ainda, mas pelo hospital, porque fizemos uma parceria e insistimos que os pacientes do SUS recebessem a atenção”.
MENOS INVASIVA
Santos nasceu com uma cardiopatia congênita chamada forame oval patente, que é uma pequena abertura entre os átrios do coração. Ele foi diagnosticado no pronto-socorro do HEL há cerca de 30 dias, após sofrer seu segundo AVC (acidente vascular cerebral) da vida, e foi iniciado o tratamento pré-cirúrgico.
“Existe uma deficiência entre a comunicação dos átrios, que o sangue não passa de forma correta, e causa um AVC cardioembólico. Seguimos com uma série de exames, foram feitos todos os exames pré-operatórios, liberamos o procedimento com o SUS e optamos por abordá-lo de forma minimamente invasiva, fechando a comunicação interatrial (defeito congênito) com eficiência”, elencou Müller.
A cirurgia foi realizada pela equipe de médicos com auxílio da plataforma robótica Da Vinci Xi. Foram feitas pequenas incisões entre as costelas do paciente, pelas quais entraram as pinças do robô, controladas pelos cirurgiões. Com a técnica, não houve necessidade de abrir o peito de Santos, o que facilitou a sua recuperação e garantiu um “resultado estético extremamente mais agradável”.
MELHOR RECUPERAÇÃO
O procedimento convencional, de peito aberto, demora o mesmo tempo que a cirurgia robótica cardíaca: quatro horas em média. Porém, o período necessário de internação seria de cinco a seis dias, com maior risco de infecção no sítio cirúrgico.

Comparando, Müller explicou que Santos “chegou na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) acordado, extubado, já saiu do leito nas primeiras seis horas andando e se alimentou de forma adequada após seis horas de extubação. Hoje (segunda) de manhã estava fazendo fisioterapia e foi de alta para o quarto.” Ainda na operação comum, a volta ao trabalho é possível após três meses, sendo que para Santos, a expectativa é que ele retorne em duas semanas.
‘FURAR E ACABOU’
Aparecido Marchi, 57, passou pelo procedimento robótico no domingo (17) e deverá ter alta nesta terça (19). Com apenas 18 horas de pós-operatório, saiu da UTI e foi para o quarto. No momento, está “tranquilo, falando e comendo normalmente”, mas com um dreno de tórax “para manter um grau de estabilidade”, explicou o cirurgião.

O defeito congênito de Santos tinha seriedade parecida com a de Vander de Franca, 47, que foi submetido à ação do robô no sábado (16) e já foi para casa nesta segunda. O diagnóstico de Marchi também foi descoberto após um AVC recente, mas se mostrava mais grave. “Era uma comunicação atrial com uma drenagem anômala. Traz uma série de comorbidades para a saúde mais severas com o avançar da idade”, pontuou o médico.
Marchi contou que foi submetido ao cateterismo, cirurgia invasiva que permite avaliar o funcionamento do coração, em Arapongas (Região Metropolitana de Londrina). Disse que poderia ter realizado o procedimento para sanar a sua deficiência congênita no mesmo hospital, mas que optou pelo Da Vinci Xi.
“Aqui foi furar e acabou a conversa”, celebrou. O homem se disse “sossegado” ao responder sobre seu estado de saúde. Complementou dizendo que “é ótimo pra mim, mas pro meu cirurgião foi melhor, porque eu estou sendo o primeiro dele”.
100 CIRURGIAS
Müller informou que são raros os hospitais que ofertam a cirurgia robótica para pacientes do SUS, e que é menos comum ainda a existência de médicos treinados para realizar a operação. As três cirurgias feitas até o momento foram orientadas por um grupo de profissionais de Brasília e Minas Gerais, além da participação de Edgar Vidotti, Marcio Henrique Cardoso e Felipe Jazbik, cirurgiões que integram a equipe especializada do HEL junto de Müller.
O êxito no projeto coloca Londrina entre os centros de referência nacional em cirurgia robótica, ao lado de hospitais como Sírio-Libanês, 9 de Julho e Albert Einstein, em São Paulo. Até o final do ano, terão sido feitas 10 cirurgias minimamente invasivas no total, com uma média de três a quatro por mês.
Müller explicou que Rodrigo, Vander e Aparecido foram escolhidos pelas suas patologias, e que os “próximos pacientes serão valvulares, os últimos, coronarianos”. Todos já foram selecionados e aguardam as datas dos procedimentos. Para o ano que vem, a expectativa é ampliar ainda mais o trabalho, com 100 cirurgias.


Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.


