Ao contrário de outros centros produtores de petróleo da Petrobras na Bacia de Campos, o campo de Roncador, onde estava localizada a plataforma P-36, era diretamente gerenciado por um núcleo de decisão localizado no município do Rio, onde fica a sede da empresa, e não no de Macaé, base operacional da bacia. A Unidade de Negócios Rio (UN-Rio), formada basicamente por engenheiros e geólogos, acompanha Roncador, o mais promissor dos campos recém-descobertos pela Petrobras, e outros três importantes blocos de exploração em águas profundas que ainda não iniciaram produção: Barracuda, Caratinga e Marlim Sul.
Todos os demais campos da principal bacia petrolífera do País ficam subordinados à Base Operacional de Imbetiba, em Macaé, gerenciada por Carlos Alberto Sardemberg Bellot, o funcionário que retirou da rede interna de computadores da Petrobras (intranet), depois da explosão da P-36, os dados sobre os problemas que vinham sendo constatados na plataforma.
A subordinação direta à UN-Rio ocorreu a partir de uma reestruturação organizacional na Petrobras criada este ano e torna ainda mais estranho o desconhecimento, por parte da direção da estatal, dos boletins que alertavam sobre as falhas detectadas no sistema de ventilação dos equipamentos da P-36. Os problemas foram relatados em boletins consecutivos nos dias 12, 13 e 14. No dia 15, três explosões na plataforma mataram dez trabalhadores. Outro, com queimaduras em quase todo o corpo, morreu na última quinta-feira, uma semana depois do acidente.
‘‘Em qualquer empresa de petróleo, relatórios como estes são acompanhados por gerentes fora da plataforma e também, on-line, pela diretoria da empresa’’, afirma Roberto Kishinami, diretor-geral do Greenpeace no Brasil, que é especializado no acompanhamento do setor de energia. Ele lembra que faz parte de todo o sistema de supervisão e segurança de produção de petróleo uma rotina conhecida como redundância, que são procedimentos duplicados desde os equipamentos de medição de temperatura e pressão até o supervisionamento dos trabalhos. Tudo devido ao alto risco que a atividade envolve.
A direção da Petrobras insiste na afirmação de desconhecimento dos boletins. Nem mesmo depois do acidente os relatórios teriam sido levados ao conhecimento do primeiro escalão da empresa, como destaca o diretor de Exploração e Produção, José Coutinho Barbosa. ‘‘A informação não nos chegou a tempo hábil’’, repete ele, que justifica a desconexão entre a área operacional e a diretoria, mesmo após o desastre, com uma afirmação simples. ‘‘Dentro das prioridades daquele momento (a tentativa de estabilização da plataforma logo após o desastre), não íamos fazer investigação das causas do acidente.’’
Alterações A P-36 era uma plataforma originalmente projetada para perfuração, com pequena planta de processamento de óleo. A mudança do projeto, com o equipamento já no meio da obra, tornou necessárias algumas adaptações. A instalação de um tanque de resíduos químicos numa das colunas de sustentação foi, segundo um técnico que trabalhou no projeto (que preferiu não se identificar), a solução encontrada para otimizar o espaço na P-36. Em qualquer outra plataforma de produção, o tanque, que acumula gás descartado no sistema, fica no convés da base.
A mudança dividiu os técnicos responsáveis pelo projeto e é duramente criticada pelo presidente do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense, Fernando Carvalho. ‘‘É uma temeridade instalar um tanque que irá gerar gás num ambiente confinado. Num espaço aberto, como o convés, poderia até ocorrer um acidente, como princípio de incêndio ou pequena explosão, mas em proporções bem menores.’’

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