Washington, 25 (AE) - Os líderes da Organização do Tratado do Atlântico Norte encerraram sua cúpula de três dias hoje (25) reiterando sua determinação de ampliar e perserverar no bombardeio contra a Iugoslávia e usar a operação - a primeira intervenção ofensiva em grande escala da Aliança - como modelo para suas ações futuras.
A Hungria, um dos três países do antigo bloco soviético recentemente admitidos na OTAN e vizinha da Iugoslávia, prontificou- se a receber mais tropas da Aliança. A Macedonia, que é candidata a membro da organização, também deu a luz verde para um aumento dos contingentes de soldados ingleses e alemães em seu território. Os governos da Eslovênia e da Romenia, que também têm pretensões de entrar para a OTAN, autorizaram que seu espaço aéreo seja usado para os bombardeios contra Milosevic. E o presidente Bill Clinton advertiu o líder sérvio a não investir contra esses ou quaisquer outros países vizinhos pois "um ataque contra eles será considerado como um ataque contra a OTAN "e nós responderemos".
A exibição de determinação que os líderes esforçaram-se para fazer durante a reunião, a perspectiva de devastação econômica, de uma vida cada vez mais difícil na Iugoslávia, a falta crescente de eletricidade no país e a destruição das instalações da televisão oficial que Belgrado usava como arma de sua propaganda, deixaram alguns altos funcionários da Aliança mais confiantes de que as pressões contra Milosevic começarão logo a aparecer na elite sérvia e apressarão o final do conflito nos termos ditados pela OTAN.
Mas os mesmos funcionários sabem que a demonstração de unidade da Aliança foi possível apenas porque os líderes evitaram a discussão dos temas que os dividem, como, por exemplo, a mobilização de uma grande força terrestre para invadir o Kosovo, que vários líderes civis e militares consideram indispensável para ganhar a guerra.
Isso, somado à ineficácia do bombardeio aliado, até agora, em produzir seu principal objetivo, ou seja, convencer Milosevic a cessar sua campanha de limpeza étnica da população de origem albanesa do Kosovo e retirar suas tropas da província, e as incertezas que pairam sobre a duração e o desfecho do conflito mantiveram sem resposta todas as perguntas que existiam sobre o presente e o futuro da OTAN antes do início da cúpula de Washington - um conclave planejado há meses como uma festa do triunfo da mais bem sucedida aliança militar defensiva da história mas que acabou se convertendo num conselho de guerra.
O encontro produziu um cenário mais detalhado do que a OTAN considera um final aceitável para o conflito. Mas, em lugar de esclarecer os objetivos da Aliança durante e depois do conflito, ele gerou mais dúvidas mesmo em lugares escolados na interpretação das nuanças dos pronunciamentos oficiais.
O melhor exemplo foi dado pelo Washington Post, no sábado. "OTAN Suaviza Condições", anunciou a manchete do jornal em sua primeira edição, sugerindo que os líderes estavam preparados a fazer algum tipo de concessão a Milosevic para suspender o bombardeio. Três horas mais tarde e depois de irados telefonemas da Casa Branca à redação, o jornal saiu como uma nova interpretação. "OTAN Emenda Condições", informava a manchete da edição final.
Sinais de divisão e de confusão foram emitidos também por alguns dos líderes. Enquanto o primeiro-ministro da Inglaterra, Tony Blair, proclamava que "o sucesso é a única estratégia que eu estou preparado para considerar", o presidente da França, Jacques Chirac, que apenas dois dias antes de embarcar para Washington defendera a mobilização de todos os recursos necessários para vencer, em discurso pela televisão, manifestou sérias dúvidas sobre uma proposta dos EUA de barrar em alto mar navios petroleiros destinados à Iugoslávia.
Chirac lembrou que a interceptação de navios constitui um ato de guerra, enquanto outros líderes advertiram sobre o risco de um incidente deste tipo com a Rússia. O ministro das Relações Exteriore da Itália, Lamberto Dini, desafinou mais feio, criticando publicamente o ataque que destruiu a sede da emissora de televisão oficial da Iugoslávia.
Depois de receber uma explicação do secretário-geral da OTAN, Javier Solana, Dini disse que falara em nome pessoal e não como representante de seu país, de cujo território parte a maioria dos aviões envolvidos no bombardeio da Iugoslávia.
Costas Simitis, o primeiro-ministro da Grécia, realizou proeza política ainda maior. Líder de um país cuja população opõe-se maciçamente ao ataque da OTAN contra a Iugoslávia, Simitis afirmou publicamente várias vezes que o bombardeio não resolverá o problema do Kosovo, mas indicou que, como membro da Aliança, a Grécia continuará a permitir o uso de seus portos e de seu espaço aéreo para os ataques.
Apesar desses senões, a esperança, em Washington é que a cúpula leve Milosevic a usar os bons serviços do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, e o enviado especial da Rússia, Viktor Chernomyrdin, para encontrar uma saída. O presidente Boris Yeltsin conversou por telefone hoje com Clinton. Apesar das declarações de reafirmação da solidariedade com os sérvios, os russos também já dão sinais de que sua paciência com Milosevic tem limites. E Annan deve ir a Moscou esta semana para tentar mapear uma possível saída diplomática para o conflito, que continua parecer tão improvável quanto um desfecho militar.
Um cálculo que circula no Congresso americano é que o apoio que as pesquisas de opinião mostram hoje para uma eventual mobilização de tropas desaparecerá quando a Otan terminar a revisão de suas opções militares e anunciar que serão necessários pelos menos 150 mil soldados para tirar os sérvios de Kosovo.

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