Otan teria matado 19 num bombardeio a uma prisão
Belgrado, 21 (AE-AP) - A Otan realizou seis ataques sucessivos contra uma prisão de Kosovo nesta sexta-feira (21), matando pelo menos 19 pessoas e ferindo muitas outras nos primeiros ataques, divulgou a mídia iugoslava. O presidente Slobodan Milosevic exigiu o fim dos ataques aéreos e disse que os "agressores da Otan" são responsáveis pelo êxodo em massa de Kosovo.
Os aviões da Otan sobrevoaram Belgrado entre o fim da noite de sexta-feira e o início da madrugada de sábado, pelo horário local, e fortes rajadas de artilharia antiaérea foram ouvidas pela capital. Ouvintes de rádios descreveram que o barulho das explosões vinha de bairros adjacentes, mas não havia informações imediatas sobre vítimas fatais nem danos.
A falta de energia elétrica deixou às escuras algumas regiões de Belgrado.
Uma nova onda de refugiados - observadores internacionais falavam em 3.700 ao o cair da noitr - chegou em tratores à Albânia, quebrando uma calmaria de uma semana. Muitos falaram de forças de segurança sérvias batendo em suas portas e ordenando-os a partir.
Depois de dias de notícias de deserções em massa de reservistas do exército iugoslavo, um porta-voz do Ministério do Exterior afirmou que tropas que retornaram esta semana para duas cidades centrais sérvias eram "apenas soldados regulares voltando para casa" como parte de uma redução das forças sérvias em Kosovo. "Não existem deserções", garantiu o porta-voz Nebojsa Vujovic a repórteres.
Cerca de 400 reservistas do exército retornaram esta semana para Aleksandrovac e Krusevac, dizendo que não voltariam para a linha de frente, segundo notícias publicadas em Montenegro, a pequena república que com a Sérvia forma a Federação Iugoslava.
O governo de Montenegro se opõe a Milosevic e à sua confrontação com a Otan sobre Kosovo, uma província sérvia.
Os Estados Unidos também informaram que têm notícias de deserções em massa entre reservistas do exército iugoslavo. Também tem havido notícias de manifestações contra a guerra promovidas por soldados.
Na cidade montenegrina de Cetinje, cerca de 5.000 pessoas - quase um terço da população - protestaram hoje contra o recente reforço de tropas do exército iugoslavo em torno da cidade e exigiram a retirada dos militares.
"Estamos aqui para perguntar em alta voz o que essas pessoas em uniformes estão fazendo em nossa cidade", afirmou o manifestante Mirko Dapcevic, sendo bastante aplaudido. A manifestação foi uma das primeiras e certamente o maior protesto contra o exército da Iugoslávia em Montenegro.
Na Sérvia, intensos ataques aéreos da Otan atingiram repetidamente a prisão de Dubrava em Istok, no noroeste de Kosovo. Depois de cinco ataques durante o dia, bombardeiros retornaram à noite e despejaram mais dois mísseis contra o edifício destruído, informou a agência de notícias iugoslava Tanjug.
Em Bruxelas, oficiais da Otan afirmaram ter bombardeado um "complexo de segurança" em Istok. Autoridades sérvias afirmaram que a prisão para mil detentos abrigava em sua maioria partidários do rebelde Exército de Libertação de Kosovo (ELK).
Jornalistas ocidentais acompanhando a primeira missão da ONU em Kosovo desde o início da campanha aérea de oito semanas viram sete corpos ensanguentados cobertos com lençóis no pátio gramado da prisão, paredes dos prédios marcados por bombas de fragmentação, e nervosos guardas com armas automáticas mantendo prisioneiros à distância.
Um prisioneiro gritou: "Nos ajude, tem um monte de feridos aqui atrás", e um guarda replicou: "Tudo bem, tragam eles para o salão. Já chamamos uma ambulância mas as estradas estão ruins."
Milosevic, num comunicado depois de um encontro com uma delegação parlamentar grega, voltou a pedir o fim dos bombardeios da Otan.
Outro "grande crime" da Otan, acrescentou ele, "é a baixa acusação contra nosso país pelo êxodo de albaneses de Kosovo, apesar de ser bem sabido que o movimento de albaneses e outros moradores de Kosovo de suas casas foi causado pelos bombardeios".
As exigências de paz da Otan incluem uma total retirada das 40.000 soldados e membros da polícia especial de Milosevic de Kosovo e o estacionamento na província de uma força de paz internacional centrada na Otan. Milosevic se opõem às duas condições.
Seguindo-se a ataques durante toda a noite até as primeiras horas da manhã, bombardeiros da Otan despejaram mísseis à luz do dia em alvos por toda a Sérvia e retornaram durante a noite. Sirenes alertando sobre novos ataques aéreos soaram em Belgrado, Kragujevac, Novi sad e Pancevo.
Em outro ataque fatal em Kosovo, bombas da Otan mataram uma pessoa na noite de hoje em um ataque contra o centro de Djakovica, a 70 quilômetros de Pristina, capital da província conturbada, informou a imprensa local.
Sete pessoas, incluindo quatro crianças, ficaram feridas quando bombas atingiram tanques de combustível - pela sétima vez nesta campanha - e um transmissor de rádio e tevê em Smederevo, 50 quilômetros a sudeste de Belgrado, informou a Tanjug, a agência de notícias controlada pelo estado.
A mídia iugoslava noticiou ataques na noite de hoje contra pontes, e contra várias cidades sérvias, incluindo Uzice, Sérvia central, Posega, no sudeste, e em Bor, no leste, onde bombas atingiram fábricas e depósitos de combustíveis.
Em ataques na noite de quinta-feira, as residências dos embaixadores da Suíça, Suécia, Espanha, Índia, Noruega e Hungria foram danificadas, e as missões diplomáticas da Líbia e de Israel também teriam sido atingidas por estilhaços.
A Suíça, cujo embaixador oferecia um jantar diplomático quando as janelas explodiram, recebeu pedidos de desculpa entregues ao governo em Berna por autoridades dos EUA.
"Às oito e quinze, a sobremessa tinha acabado de ser servida, quando veio o impacto", relatou o embaixador sueco Mats Staffansson, um dos convidados, ao jornal Aftonbladet, da Suécia. Ele acrescentou que junto com embaixadores da Eslováquia e do Vaticano ele se jogou sob a mesa de jantar.
Em Bonn, Alemanha, enviados de sete potências ocidentais e da Rússia não conseguiram chegar a um acordo sobre um esboço de resolução da ONU apoiando os termos da Otan para o fim do conflito.
E em Moscou, o outro centro da atividade diplomática, o enviado russo Viktor Chernomyrdin cancelou abruptamente encontros com autoridades ocidentais. Autoridades próximas às negociações não conseguiam dar uma razão para a iniciativa, mas disseram não ter razão para acreditar que as conversações estão em apuros.
O subsecretário de Estado norte-americano Strobe Talbott reuniu-se enquanto isto em Moscou com o ministro do Exterior grego, George Papandreou, e com o enviado da ONU Carl Bildt.





