Belgrado, 30 (AE-REUTERS) - O presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, apresentou hoje (30) a perspectiva do fim dos combates em Kosovo, mas a Otan declarou querer "ação, não palavras" antes de encerrar sua ofensiva de mísseis e bombas.
Falando à televisão estatal iugoslava após negociações de emergência com o primeiro-ministro da Rússia, Yevgeny Primakov, Milosevic disse que estava pronto para retirar algumas forças de Kosovo e permitir o retorno livre dos refugiados se a Organização do Tratado do Atlântico Norte encerrasse os ataques aéreos.
Mas líderes da Otan rejeitaram a proposta.
O presidente norte-americano, Bill Clinton, disse que os aliados da Otan estavam "unidos em nosso ultraje" sobre o que ele chamou de atrocidades sérvias em Kosovo.
"Nós estamos determinados a manter nossa política", disse ele.
"As propostas levadas pelo primeiro-ministro Primakov não têm base para um acordo político", ecoou o chanceler alemão Gerhard Schroeder depois de reunir-se com Primakov, que viajou de Belgrado para Bonn a fim de conversar com o líder alemão sobre seu encontro com Milosevic.
"São ações, e não palavras, que contam. Ele sabe o que tem de fazer", disse um porta-voz do primeiro-ministro britânico, Tony Blair.
Milosevic disse que a ofensiva aérea aliada poderia provocar uma nova explosão nos Bálcãs.
Ele disse que a nação sérvia mostrou, por meio de sua "heróica defesa" contra a Otan, que ela não poderia ser quebrada pela força.
Primakov estava otimista quando falou a jornalistas no aeroporto de Cologne/Bonn antes de encontrar-se com Schroeder.
"No geral, este é um bom começo", afirmou Primakov. "Ele (Milosevic) está pronto para ser construtivo. Se os bombardeios cessarem, ele está pronto para reduzir sua presença militar na região", disse ele a jornalistas por meio de um intérprete.
Mas , considerando a proposta inaceitável, a Otan começou a examinar a possibilidade de passar para a Fase III de sua estratégia de bombardeio da Iugoslávia - destruição de centros de comando, como o edifício do Ministério da Defesa iugoslavo, em Belgrado.
O dirigente russo deve conversar com o secretário-geral da Otan, Javier Solana, amanhã em Bruxelas. Segundo Solana, Moscou não dispõe, atualmente, de nenhum instrumento ou poder de pressão sobre Milosevic.
Pela manhã, a secretária de Estado americana, Madeleine Albright, havia telefonado para seu colega russo, Igor Ivanov, que integrou a delegação russa em Belgrado.
"Os Estados Unidos apóiam todas as iniciativas para deter a ofensiva sérvia em Kosovo", disse ela. O subsecretário de Estado Thomas Pickering ressaltou que Clinton não exige que Milosevic assine o acordo de Rambouillet para suspender o bombardeio.
"Ele quer que o presidente iugoslavo ordene o fim da campanha de limpeza étnica em Kosovo, retire as tropas iugoslavas e a polícia sérvia da província e retorne à mesa das negociações", acrescentou.
No campo militar, a sirene soou em Belgrado - anunciando mais um bombardeio - tão logo Primakov deixou a cidade. Alvos militares e estratégicos voltaram a ser atingidos na região. Mas o grosso do ataque recaiu sobre as tropas iugoslavas em Kosovo.
Os EUA aumentaram o número de aviões colocados à disposição da Otan, que anunciou planos para bombardear a Iugoslávia as 24 horas do dia. Simultaneamente, a França anunciava que a Iugoslávia já perdeu 50% de seu potencial aéreo.
A intensidade dos ataques não diminuiu a ofensiva sérvia na província. Eleva-se a 118 mil o número de albaneses étnicos que deixaram suas casas desde o dia 24. Cem mil estão na Albânia e o restante na Macedônia e em Montenegro. Muitos deles estão em precárias condições de saúde. A fome atinge a maioria, forçada a sair de suas casas sem nenhum recurso ou provisão. São frequentes os casos de desmaio por inanição e frio.
A polícia sérvia, segundo testemunhas, bombardeia e incendeia aldeias e cidades. É o caso de Pec (oeste de Kosovo), que ficou praticamente arrasada. "Cem mil pessoas moravam ali", disse James Shea, porta-voz da Otan. "Pec lembra a cidade fantasma de Phnom Penn (capital do Camboja, que teve pelo menos 1 milhão de habitantes exterminados pelo Khmer Vermelho)."

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