Otan realiza mais intenso bombardeio contra a Iugoslávia
Bruxelas, 30 (AE-AP) - A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) efetuou hoje (30) o mais intenso bombardeio da Iugoslávia desde o início da Operação Força Aliada em 24 de março. Com 600 missões em menos de 24 horas,.várias residências foram atingidas num bairro de Belgadro. Entre outros alvos, foram destruídos na capital iugoslava os edifícios do Ministério da Defesa, do Estado-Maior das Forças Armadas, o QG da Polícia Sérvia e o escritório do vice-primeiro-ministro iugoslavo, o ultranacionalista sérvio Vojislav Seselj.
"Durante a operação, um míssil errou o alvo e atingiu várias casas num bairro residencial da capital iugoslava (que além do bombardeio sofreu um pequeno abalo sísmico)", lamentou o porta-voz da Otan, Jamie Shea. "Não estamos em condições de informar se houve vítimas."
Segundo o porta-voz da chancelaria iugoslava, Neboja Vujovic, 4 civis morreram e pelo menos 40 ficaram feridas só na capital.
Shea classificou a missão de uma das mais bem-sucedidas, empreendidas até agora pela aliança contra o "regime opressor" do presidente Slobodan Milosevic. "Conseguimos, com pleno êxito
neutralizar um de nossos principais objetivos: neutralizar o QG da polícia sérvia, maior responsável pela limpeza étnica em Kosovo, que agora estende-se também à própria Sérvia", acrescentou. Ele destacou também o ataque ao principal transmissor da Rádio e Televisão Sérvia (RTS) - que já retomou sua programação normal -, instalado num monte 15 quilômetros ao sul da capital.
A campanha aérea - que já se igualou em dias à empreedida pelos aliados contra o Iraque durante a Guerra do Golfo - alcançou também o interior da Sérvia, Montenegro e Kosovo. Foram lançadas bombas e mísseis contra alvos em Pristina (capital de Kosovo), principalmente depósitos de combustível localizados nos suburbios da cidade. Três civis teriam morrido ali, segundo a agência iugoslava Tanjug. Um aeroporto ao sul de Podgorica (capital de Montenegro), usado pelo Exército, ficou bastante danificado.
O vice-primeiro-ministro Seselj ficou indignado com o ataque. "Eles querem que a gente se renda, mas nós vamos vencer em defesa da Sérvia", afirmou ele diante dos escombros de seu escritório.
As sirenes soaram várias vezes durante o dia em Belgrado - anunciando a chegada de caças-bombardeiros -, que recebeu hoje o negociador russo Viktor e o pastor americano Jesse Jackson.
Jackson, que chegou a Belgrado para tentar libertar três soldados americanos capturados em 31 de março por uma patrulha sérvia na fronteira macedônia, visitou as áreas atingidas pelos bombardeios. "Se não ocorrer um avanço nas negociações, os bombardeios vão tornar-se cada vez mais intensos", previu. "Temos medo e há dor de ambos os lados", acrescentou, tentando consolar Zhivko Novakov, de 70 anos, morador de uma das casas atingidas por um míssil. "É incrível, jamais podia esperar isso de nossos amigos", disse Novakov. "Eles vão dizer novamente: Foi um erro, lamentamos." Visivelmente comovido, Jackson lembrou a situação dos albaneses étnicos, que tiveram suas casas queimadas pela polícia sérvia. "As pessoas de fé têm de criar um ambiente para conversações diplomáticas, construir pontes para a diplomacia e a confiança", acrescentou o pastor, que deverá reunir-se com o patriarca Pavle, chefe da Igreja Ortodoxa Sérvia.
Jackson visitou os soldados americanos presos. "Eles estão bem", destacou. Segundo o pastor americano, a libertação deles "não consta da agenda" das autoridades sérvias.
A missão do pastor americano não conta com o apoio nem autorização da Casa Branca. Ele foi advertido de que não deve vincular a eventual libertação dos soldados a suspensão dos bombardeios.
Tanto o presidente dos EUA, Bill Clinton, quanto o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, reiteram hoje: os bombardeios serão intensificados. Clinton mandou mais 10 fortalezas B-52 para o palco da guerra, enquanto Blair liberava mais caças-bombardeiros Harrier e Tornados.
Por sua vez, o secretário-geral da Otan, Javier Solana, anunciava o início do embargo de petróleo à Iugoslávia, apesar dos veementes protestos da Rússia.
Referindo-se à medida, o secretário da Defesa dos EUA, William Cohen, advertiu: "Creio que usaremos a força se isso for necessário (para conter o fornecimento de combustível ao Exército iugoslavo por mar, terra e ar)."
A declaração do chefe do Pentágono irritou o governo russo que, já advertiu, não vai suspender o suprimento de óleo a Belgrado. "A Rússia não é um país que se possa ameaçar dessa forma", reagiu o general Leonid Ivachov, porta-voz do Ministério da Defesa russo. "Somos suficientemente fortes para defender nossos interesses, incluindo os econômicos."
Em Kosovo, a situação da população local piora a cada dia, segundo relatos de refugiados que chegam à Albânia e Macedônia e observadores da Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). Tropas sérvias estão completando a retirada de albaneses étnicos da cidade de Prizren. Entre a noite de quinta-feira e a manhã de hoje, chegaram a Kukes (Albânia) 7 mil pessoas, todos habitantes daquela cidade, que ficou praticamente vazia. É igualmente grande o número de refugiados que cruzaram hoje a fronteira macedônia - carca de 4 mil.
O Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) estima em 760 mil o total de albaneses étnicos instalados em campos improvisados nos países vizinhos e em Montenegro.
O Acnur denunciou um novo massacre de kosovares perpetrado pela polícia sérvia em Meja (sul da província) no início da semana. Cerca de 300 homens teriam sido executados, enquanto suas mulheres e mães eram expulsas da cidade.





