Otan oferece relatos confusos sobre ataque a comboio civil
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quarta-feira, 14 de abril de 1999
Por JEFFREY ULBRICH 
Bruxelas, 15 (AE-AP) - A Otan anunciou hoje (15) que um piloto aliado de um F-16 pensou que estava atacando um comboio militar, mas pode ter atingido civis por engano e causado dezenas de mortos. Só que explicação do incidente foi confusa.
"Eles eram veículos militares", insistiu o brigadeiro-general italiano Giuseppe Marani, numa entrevista a repórteres na sede da Otan. "Se eles então apareceram como tratores, esta é uma diferente questão", acrescentou, semeando a confusão.
Marani disse que o ataque ocorreu ao norte da cidade de Djakovica, no sudoeste de Kosovo. O porta-voz da Otan Jamie Shea referiu-se a um ataque na estrada Djakovica-Prizren, ao sul da cidade.
A televisão sérvia mostrou imagens de tratores e reboques queimados, e corpos espalhados pelo chão. Segundo a tevê, houve dois ataques e civis foram mortos em ambos.
O general italiano reconheceu que dois comboios foram atacados, mas só descreveu a ação contra um, que ele disse foi ao norte de Djakovica.
De qualquer forma, a Otan reconheceu o provável erro.
"Parece que um dos aviões equivocadamente jogou ontem uma bomba num veículo civil", afirmou a Otan num comunicado.
E acrescentou: "A polícia sérvia ou veículos militares podem ter estado no meio ou próximos ao comboio. A Otan não tem meios de saber o número de vítimas causadas pelo incidente".
Autoridades iugoslavas disseram que 75 pessoas morreram e 25 ficaram feridas no ataque de quarta-feira aos comboios. Elas afirmam que o ataque foi promovido por aviões de guerra da Otan.
Foi a segunda vez esta semana que pilotos da Otan atingem civis. No anterior, outro erro levou ao bombardeio de um trem que cruzava uma ponte, que a aliança afirma era um legítimo alvo militar.
A Otan apresentou um audiotape do piloto americano do F-16 explicando seu ataque ao comboio.
O piloto, cujo nome não foi revelado, disse que estava voando a uma altitude de 15.000 pés ao norte de Djakovica, uma grande cidade no sudoeste de Kosovo, onde o exército iugoslavo e unidades especiais da polícia estavam percorrendo uma série de vilas, incendiando-as e expulsando as pessoas.
O piloto afirmou que viu "três veículos uniformemente pintados de verde escuro, parecendo veículos de transporte de tropas. Eles pararam numa casa no fim da estrada. Estou convencido agora que estas forças (do exército e da polícia) estão indo para Djakovica..." Ele afirmou que fez diversas passagens pelos veículos para se assegurar que eles eram militares.
"Tomei uma decisão neste momento de que aquelas são as pessoas responsáveis pelos incendios nas vilas que eu vi até agora. Vou em cima, coloco meu sistema na direção do veículo líder e disparo uma bomba guiada por laser naquele veículo, destruindo o veículo líder".
Dibran Asmani, 80 anos, estava em cima de um trator do comboio, aproximando-se da Albânia depois de três dias na estrada, quando o mundo explodiu na frente dele. Foi a última vez que viu sua família.
"De repente, houve uma grande explosão, e eu comecei a correr", afirmou o idoso numa entrevista depois de chegar à Albânia. "Tudo que pude pensar foi: meu Deus, a Otan está nos bombardeando. Corri pelo campo como um rato".
Assim como outros refugiados viajando no comboio atacado, ele disse que ouviu o avião, e três bombas caíram nas proximidades. Dois tratores puxando reboques cheios de pessoas explodiram.
Lushi Loshozh, 53 anos, estava descansando na beira da estrada quando os tratores, a cerca de 300 metros de distância, foram atingidos.
Ele afirmou que havia tanques sérvios nas vizinhanças, mas ele acreditou que os aviões eram MiGs sévios.
Shaban Hasanaj, 15 anos, chegou depois.
"Pude ver corpos sem cabeça, braços e pernas destroçados", disse. "Talvez havia 10 corpos lá".
Foi impossível determinar se o ataque descrito pelas testemunhas no solo tratava-se do mesmo detalhado pelo piloto do F-16 no ar.
O piloto disse que ele e seu co-piloto deixaram a área depois de passar as coordenadas para outros aviões de ataque. Esse aviões, então, aparentemente localizaram três veículos militares numa instalação e os atacaram.
Nem o piloto nem Marani se referiram ao ataque a um comboio ao sul de Djakovica.
"A Otan lamenta profundamente a perda de vidas civis", disse Shea.
"Não deixemos que um acidente, não importa quão trágico, obscure o que realmente está em jogo nesta crise, ou seja, algumas vezes alguém tem de arriscar a vida de poucos em ordem de salvar a vida de muitos", afirmou.
Marani disse que "quando você está conduzindo uma campanha aérea, apesar de tudo que você possa fazer... erros podem ocorrer. E o número de erros é proporcional ao volume de operações aéreas. Você pode tentar minimizar, e isto é exatamente o que a Otan está fazendo. Mas erros podem acontecer".


