Paris, 14 (AE) - O comandante-supremo das forças da OTAN, general Wesley Clark, precisa de aviões. Pediu mais 300 aviões aos norte- americanos e alguns mais à Inglaterra e à França. Isso acontece hoje, ou seja, no início da quarta semana de bombardeios. E, como a OTAN sempre nos disse que seus bombardeios foram bem sucedidos, não conseguimos absolutamente compreender isso.
Neste ponto, uma dúvida atroz nos assalta: Será que Madeleine Albright é uma estrategista menos fulgurante que Napoleão ou Clauzewitz? Apesar disso, nas primeiras horas do drama, ela nos explicou muito bem: "Milosevic se dobrará após os primeiros ataques". E o secretário geral da OTAN, Javier Solana, confirmou: "Os ataques irão continuar por alguns dias".
E assim, um novo divertimento está se espalhando nos círculos militares europeus: catalogar as mancadas, as mentiras, os erros cometidos pelos chefes estrangeiros da OTAN. O erro mais grave é fazer uma guerra apenas com aviões. Todos os especialistas sabem disso e o dizem - com exceção dos especialistas da OTAN, que invocaram o precedente da Guerra do Golfo, no início de 1991.
Mas a analogia não é aceita: por ocasião da Guerra do Golfo, os bombardeios foram apenas a preparação dos ataques por terra. Ao contrário, na Sérvia, Clinton, Jospin, Chirac e outros excluiram desde o inicio qualquer ação terrestre. (Um erro terrível: quando alguém briga, não pode começar anunciando ao adversário que guardará um braço preso às costas).
Um segundo erro psicológico: os assessores de Albright a convenceram de que os generais sérvios só estavam esperando uma ocasião para trair Milosevic. Falso. Completamente falso! Também a população sérvia deveria revoltar-se contra o tirano Milosevic... Besteira! Até mesmo os adversários de Milosevic (e eles são numerosos) cerraram fileiras em torno dele. A união sagrada diante do inimigo funcionou plenamente neste povo habituado ao heroismo.
A OTAN subestimou igualmente a capacidade de resistência do Exército sérvio. Dotado de um material rústico, mas sólido, o Exécito sobreviveu: Segundo a OTAN, as defesas antiaéreas deveriam estar destruídas dentro de algumas horas. Mas, após três semanas, elas estão sempre em ação. Os tanques, os caminhões foram dispersos nas montanhas, nas florestas e escaparam aos ataques. Os únicos verdadeiros sucessos das bombas da OTAN são os grandes dispositivos logísticos ou de abastecimetno, as refinarias ou estoques de petróleo, as pontes e as estradas.
Continuaríamos durante muito tempo esse inventário de erros e falhas.
Mas esse catálogo não teria nada de surpreendente: Já é de longa data a fama dos norte-americanos como guerreiros. Eles não sabem fazer a guerra. As nações que sabem fazer guerra nós as conhecemos: são o Japão, a Rússia, a Inglaterra, a Alemanha, a França, a Turquia, a Sérvia, mas certamente não os Estados Unidos.
Diante deste quadro, surge a pergunta: "O que fazer?" Aumentar o número de aviões? Passar para a operação em terra (mais pesada, mais cruenta, mais lenta)? Ou buscar forçosamente uma saída, mesmo que seja menos honrosa? De maneira geral, na Europa, a determinação continua intacta. Mesmo os que enumeram as falhas da OTAN, mesmo os que contestam os meios, continuam fiéis aos objetivos profundos da cruzada: colocar fora de combate um tirano sanguinário e salvaguardar as populações sacrificadas de Kosovo.
O jornal "Libération" (de esquerda), depois de fazer o balanço dos erros da OTAN, não deixa de recomendar a continuação dessa aventura. "A derrota da Aliança" , escreve o ex-esquerdista Serge July, diretor de Libération, "e consequentemente o triunfo das deportações na Europa, tornou-se simplesmente impossível. Porque seria uma tragédia para os kosovares, mas também para a população sérvia. Seria um desastre para a União Européia. Representaria a morte da OTAN, constituiria uma catástrofe geopolítica que pesaria fortemente sobre o destino dos Bálcãs e da Rússia. O rosto da Europa seria mutilado...Passamos do ponto em que não há mais retorno".

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