Otan não sabe o que fazer diante da resistência sérvia Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 05 (AE) - Todo dia verificamos que a OTAN previra bombardear a Sérvia durante 40 horas para, em seguida, receber a rendição vergonhosa do presidente iugoslavo Slobodan Milosevic. Mas, por estranho que pareça, Milosevic não respeitou o plano da OTAN. E agora a OTAN não sabe mais o que fazer.
Assim se explica a rápida sucessão dos "planos estratégicos": num dia se consideram as ações terrestres, noutro a passagem para a "fase 3" (que ninguém sabe em que consiste) e no dia subsequente a construção de "corredores humanitários", antes da resignação que leva a prever apenas a prestação de socorro aos refugiados de Kosovo, etc.
Não há "piloto". No sábado um incidente inverossímil aconteceu na sede da OTAN, em Bruxelas. O porta-voz da organização Jamie Shea, esse homem tão seguro de si, leu um comunicado anunciando que a OTAN solicitara ao governo sérvio retirar suas tropas de Kosovo, aceitando o regresso dos refugiados, sob a proteção das tropas aliadas.
Uma "enormidade"! Uma reviravolta na guerra; a premissa de uma intervenção terrestre. Os faxes e E-mails pipocaram em todas as redações. Mas, poucos minutos depois, na mesma sala, um diplomata, trombeteou gritando: "Isso é uma besteira! Uma besteira! It is bull- shit!" E, veja lá, o próprio James Shea vem desmentir o que havia dito cinco minutos antes.
Consternados pelo desastre de sua ação na Sérvia os norte- americanos catam desculpas. E encontraram uma: o "New York Times" explica que se a OTAN comete tantos erros isto se deve aos aliados dos Estados Unidos.
Para o jornal nova-iorquino o Pentágono foi paralisado pelo dever de considerar seus aliados. Já que divergências estratégicas se revelam em cada encontro da OTAN e de seus amigos europeus o processo decisório é lerdo, emperrado.
Um dos generais norte-americanos que, tal como seus colegas na França ou na Inglaterra, abandonaram seus jardins suburbanos e chinelos de militares reformados, para nos iluminar, explica que "a menor das resoluções requer 18 horas para ser aprovada pela OTAN, pelo Pentágono e pelas capitais européias".
O diagnóstico do "New York Times" é insofismável: a guerra não combina com a democracia. Napoleão só consultava suas próprias células cinzentas antes de atacar em Austerlitz. Ele sempre superava em velocidade a coalizão européia (áustria, Rússia, Inglaterra, etc.) que atacava.
A mesma cacofonia se repete na mídia: cada jornal, cada emissora, apresenta sua análise, contradizendo os vizinhos, contradizendo a si próprio a ponto de a opinião pública não compreender mais nada. E isso tanto mais quanto mais pululam as falsas notícias.
Dia haverá em que será ridículo (e aflitivo) estabelecer a lista das "falsas notícias" lançadas ao bel-prazer das ondas ou dos internets.
Em Pristina, capital de Kosovo, 100 mil pessoas teriam sido reunidas no centro da cidade por soldados sérvios, anunciou à agência AFP um dos chefes do ELK (o Exército de Libertação de Kosovo). No dia seguinte a Federação Internacional dos Direitos do Homem dizia encontrar-se Pristina em chamas, mencionando ainda "esquadrões de morte", que "só poderiam ser comparados aos casos mais desumanos do terrorismo nazista".
Tais informações mentirosas são lastimáveis, arriscando atingir um objetivo oposto ao visado. E, com efeito, fomentam dúvidas quanto a todas perversidades, muito reais e muito ignóbeis, que cometem os policiais sérvios. Os "bárbaros de Milosevic já fazem bastante! Não há necessidade de inventar infâmias que não cometeram. A simples verdade já é mais medonha do que a mentira.
Espanta-nos verificar que a mídia cai tão facilmente em tais ciladas. A história recente deveria abrir os olhos. Recordamos: nas convulsões mortais do comunismo diziam-nos que o regime comunista romeno de Nicolae Ceausescu deixara atrás de si "ossários". Ora, esses "ossários" eram fotografias tiradas num necrotério absolutamente normal de Bucareste.
Quando os americanos bombardearam uma fábrica no Sudão explicaram- nos que se tratava de uma unidade de produção de gases mortais. Na verdade se tratava de uma fábrica de adubos ou de perfumes. Mais recentemente, depois dos bombardeios do Iraque e do assassinato de um líder xiita, anunciaram que um levante geral devastava o Iraque, destruindo todas cidades. Esse levante jamais existiu.





