Belgrado, 24 (AE-REUTERS) - Pouco depois de um dramático pronunciamento do presidente Slobodan Milosevic justificando a decisão de "resistir a qualquer preço à agressão da Otan" e de uma ameaça do Kremlin de deslocar armas nucleares táticas para a Bielo- Rússia, começaram a cair hoje (24) à noite as primeiras bombas sobre alvos militares e estratégicos na Sérvia (incluindo Kosovo), lançadas provavelmente de aviões B-52.
"Há dezenas de mortos, principalmente militares e parentes de militares", informava pouco depois a agência noticiosa iugoslava Tanjug. Pelo menos 20 alvos foram atingidos,segundo a rede de televisão a cabo americana CNN, que mantém dois repórteres em território iugoslavo.
Sob controle total da polícia sérvia, as emissoras de rádio e de televisão iugoslavas limitaram-se praticamente anunciar o início do bombardeio. "Fiquem tranquilos, os criminosos da Otan não nos vão vencer", disse o apresentador da TV estatal, sem dar detalhes.
Num primeiro momento, a população de Belgrado - capital da Iugoslávia (Sérvia e Montenegro) - não demonstrou muita apreensão, nem mesmo quando as sirenes começaram a soar por alguns minutos e riscos alaranjados de dois mísseis surgiram no céu, seguidos de explosões. Não houve nenhuma alteração no trânsito nem no movimento de pedestres no centro da cidade. Pela manhã, intensas filas de carros formaram-se juntos aos postos de gasolina e depósitos de gás de cozinha. Também era intensa a procura de alimentos nos supermercados.
Em Pristina - capital de Kosovo (província sérvia cuja populaão é, em sua maioria esmagadora, de origem albanesa) - as ruas da cidade ficaram vazias durante todo o dia. Ouviam-se tiros esporádicos de fuzil e outras armas leves. A população permaneceu em suas casas. A energia elétrica foi cortada. E, quando a noite caiu, a cidade estava às escuras.
Por volta de 20h00 soaram as sirenes, anunciando o bombardeio. Quinze minutos depois, riscos alaranjados surgiram no céu e ouviram- se pelo menos cinco grandes explosões. "As bombas atingiram o aeroporto de Slatina, usado pelo Exército iugoslavo", disse uma testemunha, que viu também várias ambulâncias passarem diante de sua casa.
As sirenes soaram também na cidade industrial de Nis (sul da Sérvia), que foi sobrevoada por aviões.
Quando explosões já eram ouvidas em Belgrado, o presidente americano, Bill Clinton, e o secretário-geral da Otan, Javier Solana, apareciam em público para confirmar o início da operação militar.
"Estamos lutando contra uma agressão destrutiva, racial, étnica, religiosa e cultural", disse Clinton, referindo-se a Milosevic. "Se não atuarmos agora, será pior."
Solana também atribuiu a operação militar à resistência do presidente iugoslavo. "Milosevic é o único responsável pelos ataques aéreos, pois se nega a conter as ações violentas (dos sérvios) em Kosovo e negociar de boa-fé." O secretário-geral da Otan não deu detalhes sobre o bombardeio. Mas, segundo fontes do Pentágono, participaram dele dois caças-bombardeiros B-2 (invisíveis ao radar), oito B-52 (fortalezas voadoras americanas) que partiram da base de Fairford (Grã-Bretanha), com rumo desconhecido, e caças-bombardeiros F-16, F-18 e EA-6B, que decolaram da base de Aviano (Itália).
Além disso, misseis Tomahawk podem ter sido lançados de porta- aviões estacionados no Mar Adriático, perto do litoral iugoslavo. A Otan conta com cerca de 400 aviões, postos à sua disposição pelos EUA, Grã-Bretanha, Itália, Holanda e Alemanha - 5 dos 19 países que integram a aliança e apoiaram, por unanimidade, o ataque.
A Otan comprometeu-se a defender a Albânia em caso de uma invasão iugoslava e determinou a suas forças na Macedônia (10 mil homens)que se preparem para defender aquele país.
Tradicional aliada dos sérvios, a Rússia reagiu com indignação. O presidente Boris Yeltsin decidiu rever as relações da Rússia com a Otan, enquanto o primeiro-ministro Yevgeny Primakov ameaçava deslocar armas nucleares táticas para a Bielo-Rússia. "Se situação assumir contornos inconvenientes para a segurança da Rússia, certamente vamos adotar tal providência", insistiu.
Pouco antes, Serguei Prijodko, conselheiro político do presidente russo, havia garantido, em entrevista à agência Interfax, que a Rússia não tinha intenção de fazer ameaças em relação à Kosovo.
Yeltsin foi avisado com algumas horas de antecedência sobre o início do bombardeio por Clinton. Os dois conversaram por telefone durante 50 minutos. "Foi um diálogo muito duro", ressaltou Prijodko. "Yeltsin insistiu na tese russa de que esse assunto é da exclusiva competência do Conselho de Segurança da ONU", acrescentou o assessor político. "Ressaltou também que o bombardeio da Iugoslávia põe em sério risco a estabilidade na Europa, podendo provocar uma guerra."
Segundo o porta-voz da Casa Branca, Joe Lockhart, Clinton pediu compreensão e colaboração a Yeltsin e também "esforços para não prejudicar as relações entre os dois países".
Internamente, Milosevic parece, pelo menos no momento, não enfrentar nenhuma oposição na Sérvia, onde o Parlamento aprovou integralmente a resistência e condenou a Otan. Na Macedônia, no entanto, o governo local rejeitou o estado de emergência decretado pelo presidente iugoslavo, alegando que não sofre "perigo iminente de ataque".

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