Otan inicia ataques a centros de poder político da Sérvia
Bruxelas, 21 (AE-AP) - Com a destruição na madrugada de hoje (21) do Edifício Nova Belgrado, sede do Partido Socialista Sérvio (do presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic) e de três emissoras de TV, a aviação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) iniciou uma nova etapa da Fase II da Operação Força Aliada contra a Iugoslávia, que estende os ataques aéreos aos centros do poder político iugoslavo.
"A Otan precisa intensificar os bombardeios mais e mais, usando meios adicionais contra os mais diversificados alvos, para enfraquecer a ação das forças sérvias e também o funcionamento do regime", declarou o presidente francês, Jacques Chirac, que definiu a campanha da aliança como luta entre "democratas e bárbaros".
Por sua vez, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, admitiu pela primeira vez o uso de tropas terrestres no conflito. "A opção está aberta, embora represente um risco considerável", disse ele na Câmara dos Comuns pouco antes de partir para os Estados Unidos, onde debateu a crise de Kosovo com o presidente americano, Bill Clinton.
Mais tarde, o general Wesley Clark, comandante das forças da Otan, recebia sinal verde de Washington para rever um plano de invasão da província sérvia, elaborado no final do ano passado. Segundo The Wall Street Journal, Clark deverá ter o documento pronto na sexta- feira, quando a cúpula da Otan vai se reunir na capital belga para comemorar os 50 anos de fundação da aliança atlântica.
Contudo, numa aparente tentativa de tranquilizar a Rússia e alguns governos ocidentais que se opõem à iniciativa, o secretário-geral da Otan, Javier Solana, classificou de "impossível" o uso de tropas terrestres, pelo menos no momento.
Em decisão - que para muitos observadores é o prenúncio da invasão - chegaram pela manhã em Tirana os primeiros 17 helicópteros antitanque do tipo Apache. Eles reforçarão os ataques da aviação da Otan contra tropas e veículos blindados dos sérvios em Kosovo.
Pelo menos três mísseis atingiram o Edifício Nova Belgrado, de 23 andares, localizado no centro da capital iugoslava. Ali funcionavam, além do partido de Milosevic, três emissoras de rádio e televisão, que perderam seus transmissores. "Estamos golpeando agora o coração do sangrento regime de Milosevic", afirmou o ministro da Defesa britânico George Robertson. "Esse prédio destruído era um dos centros nevrálgicos da planificação da matança de Kosovo."
Centenas de bombeiros tiveram um trabalho intenso para debelar o incêndio que se seguiu ao impacto dos projéteis e ameaçava alastrar- se. "Isto é um ato bestial", reagiu indignado Milosevic. A filha dele, Marija, é proprietária de uma das emissoras de rádio a televisão que tinham seus estúdios e transmissores no prédio. Ele fica próximo ao hotel Hyatt, onde estão alojados os correspondentes estrangeiros. "Isto é uma obra de criminosos", acusou o primeiro- ministro sérvio, Mirko Marjanovic, para acrescentar: "Não conseguirão: jamais iremos ceder."
A Federação Internacional de Jornalistas também protestou, lembrando que havia uma promessa da Otan de não incluir a mídia iugoslava na lista de alvos.
Ao amanhecer, a imprensa iugoslava noticiou em várias regiões do norte e do centro da Sérvia, entre as quais a cidade de Valjevo. Seis mísseis atingiram uma fábrica, provocando um grande incêndio. E acusou a Otan de bombardear um campo de refugiados sérvios em Montenegro, matando 10 pessoas e ferindo 16.
Na capital belga, o porta-voz da Otan, Jamie Shea, disse que foram neutralizados 30 objetivos, entre os principais a sede do partido de Milosevic e uma estratégica ponte ferroviária sobre o Rio Danúbio, no norte do país, perto de fronteira com a Hungria. "Isso vai dificultar ainda mais o apoio logísticos às forças sérvias que operam em Kosovo."
A queda da ponto no leito do rio, bloqueou também o tráfego de barcaças, que já estava bastante complicado na região. "Atacaremos tudo aquilo que ajudou Milosevic a planejar e dirigir a campanha de limpeza étnica", ressaltou Shea. "Não há santuários para nenhum dos aspectos da estrutura de poder do presidente iugoslavo."
A situação interna da Iugoslávia (formada por Sérvia e Montenegro) estaria começando a desmoronar, segundo diplomatas ocidentais. Uma prova disso será a recusa do presidente de Montenegro, Kiro Gligorov, de pôr sua polícia sob comando do Exército iugoslavo.
Montenegro abriga 130 mil refugiados e centenas deles teriam sido executados sumariamente por tropas sérvias, vindas de Kosovo - o que significa, segundo funcionários da Otan, que Belgrado está levando sua campanha de limpeza étnica também ao território montenegrino.





