Otan entra no 3º mês de ataques e vê sinais de que Milosevic está "cedendo"
Belgrado, 24 (AE-AP) - A Otan bombardeou nesta segunda-feira (24) usinas termoelétricas e campos de pouso e anunciou que existem sinais de que o homem forte iugoslavo, Slobodan Milosevic, estava "cedendo" depois de dois meses de ataques aéreos.
Enquanto isto, uma equipe da ONU, chefiada pelo brasileiro Sérgio Vieira de Mello, constatou que a situação humanitária em Kosovo é pior do que se esperava.
Sirenes antiaéreas soaram depois do pôr-do-sol nas três maiores cidades da Iugoslávia - Belgrado, Novi Sad e Nis - assim como em muitos outros lugares.
Depois de visitar por três dias a província conturbada pela guerra, os integrantes da sua equipe perceberam que a situação em Kosovo está "muito pior do que temíamos", disse Sérgio de Mello.
Apesar de integrantes da missão não terem podido visitar todos os lugares que queriam, o que eles ouviram e viram foi suficiente terem um "quadro do que aconteceu. Tudo indica que existe uma tentativa de deslocar, limpar etnicamente Kosovo", afirmou ele, classificando a escala da crise de "gigantesca".
Mas não houve evidências de um pausa nas atividades das forças de Milosevic em Kosovo, com milhares de novos refugiados entrando na Macedônia. Muitos disseram que tentaram se manter em Kosovo, mas finalmente desistiram sob o peso combinado dos ataques aéreos e a repressão da polícia sérvia.
Enquanto os ataques da Otan entravam no terceiro mês, a mídia sérvia divulgou que 100 pessoas foram mortas nos ataques de sexta-feira e domingo contra uma prisão na cidade de Istok, no noroeste de Kosovo. Não houve confirmação independente da notícia da Rádio Belgrado. Anteriormente a informação era que 19 pessoas haviam morrido naqueles bombardeios.
Aviões da Otan sobrevoaram hoje Kosovo, Belgrado e todas as partes da Sérvia, a principal república da Iugoslávia, no 62º dia da campanha aérea.
Dez fortes explosões sacudiram Novi Sad nas proximidades de uma refinaria e uma usina elétrica e quatro mísseis disparados por jatos da Otan atingiram alvos civis ao redor de Glogovac, 25 quilômetros a sudoeste da capital kosovar de Pristina, segundo a agência estatal de notícias Tanjug.
A agência independente de notícias Beta divulgou um ataque contra Nis por volta das 21h40 (horário local), mas apenas afirmou que um "grande clarão" pôde ser visto no horizonte oriental da cidade.
A companhia elétrica estatal da Sérvia pediu aos consumidores para serem pacientes enquanto Belgrado e outras cidades sofriam um terceiro dia de escassez de energia.
No quartel-general da Otan, o secretário-geral Javier Solana disse que o isolamento internacional de Milosevic e a crescente dissenção interna fortalecem sua convicção de que a aliança deve manter sua campanha aérea ao invés de considerar uma invasão por terra.
"Queremos manter a estratégia que neste momento está produzindo rapidamente resultados", afirmou Solona.
Ele insistiu que a união da Otan continua forte apesar de pedidos da Grã-Bretanha pelo envio de tropas terrestres se necessário, e disse que Milosevic está "cedendo. Não existe dúvida sobre isto". Enquanto não existem desafios ao poder de Milosevic, houve notícias de protestos contra a guerra.
Nas comunidades sérvias de Krusevac e Alexandrovac, multidões de cerca de 2.000 pessoas se manifestaram hoje contra a convocação de homens locais para o serviço militar.
E a polícia na cidade central sérvia de Cacak deteve para questionamento três líderes de um movimento antiguerra, informou a agência de notícias Montena, da república menor iugoslava de Montenegro.
Mais de 800.000 da população de antes da guerra de 2,1 milhões de Kosovo - predominantemente albaneses étnicos - fugiram ou foram expulsos de Kosovo desde que começaram os ataques aéreos da Otan em 24 de março, e o ritmo de chegada na vizinha Macedônia tem aumentando dramaticamente.
Cerca de 7.000 refugiados eram esperados hoje no principal posto de fronteira macedônio, Blace, elevando o total de chegadas desde sexta-feira para mais de 20.000. Um funcionário de uma agência humanitária afirmou que o grande aumento prova que os últimos residentes albaneses étnicos estavam sendo expulsos, especialmente ao redor de Pristina.
"Você pode chamar isto de o último empurrão", disse Astrid Van Genderen Stort, uma porta voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). "Não sabemos ao certo quantas pessoas sobraram em Kosovo, mas temos visto um maciço influxo".
Cerca de 250.000 refugiados fugiram para a Macedônia nos dois meses de bombardeios, apesar do esforço do país de limitar o fluxo.
Muitos refugiados que chegaram nesta segunda-feira foram obrigados a passar a noite na fronteira, dormindo sob plásticos até que a Acnur persuadiu autoridades da Macedônia a deixar que eles entrassem depois de um impasse de uma hora.
A Otan divulgou que sua aviação lançou 554 bombas durante a noite, apesar do mau tempo. Os alvos incluíam usinas de energia, depósitos de munição e estações repetidoras de televisão.
Os aviões da Otan atacaram usinas de energia nos últimos três dias, aparentemente para fazer aumentar a pressão interna contra Milosevic. A maior parte de Belgrado, capital da Iugoslávia, estava sem energia hoje e a companhia elétrica local pedia paciência.
"Todos os esforços estão sendo feitos nesta situação difícil para restaurar o fornecimento de energia a usuários prioritários - hospitais, a companhia de água e padarias - para aliviar o desastre humanitário causado pela Otan", informou a companhia de energia da Sérvia.
A imprensa sérvia informou que 15 bombas da Otan atingiram estações de bombeamento de água nesta segunda-feira em Sremska Mitrovica, dando sequência aos ataques do fim de semana que deixaram pelo menos 10.000 pessoas sem água.
Belgrado tinha apenas 10% de suas reservas de água devido aos danos causados a estações de bombeamento e à paralisação do fornecimento de energia, informou a imprensa. Dois mísseis "destrutivos" foram disparados contra a usina de Kostolac, 45 quilômetros ao leste de Belgrado.
Estações transformadoras em Novi Sad e Nis também foram atingidas e incendiadas, informou a agência de notícias independente Beta.





