Otan e Moscou fecham acordo sobre envio de soldados russos
Pristina, 05 (AE-AP) - A Otan chegou hoje (05) a um acordo com Moscou sobre o envio de novos soldados de paz russos que espera-se acalmarão temores da minoria sérvia em Kosovo que são frequentemente alvos de ataques revanchistas de refugiados retornando à província.
A chefe da agência para refugiados da ONU disse na sexta-feira que ela temia pela segurança das minorias sérvia e cigana em Kosovo em meio ao retorno em massa de refugiados albaneses étnicos que foram brutalmente expulsos da província por forças de segurança sérvias.
A Rússia, um tradicional aliado da Sérvia, vinha tentando modificar um acordo alcançado no mês passado em Helsinque e conseguir que suas tropas tivessem a liberdade de operar livre do comando da Otan em todo Kosovo.
A Otan bloqueou o envio dos soldados russos até que o acordo fosse alcançado - fazendo com que a Hungria, Romênia e Bulgária negassem permissão a Moscou de voar por seu espaço aéreo.
A Rússia queria mais liberdade para seus soldados de paz operarem em amplas áreas da província. A Otan queria limitar os russos a determinadas áreas, reduzindo as chances de que os laços estreitos entre a Rússia e a Sérvia levassem à partição de regiões de Kosovo.
Pelo novo acordo, os reforços russos, que já poderiam chegar na manhã desta terça-feira, deverão patrulhar o setor norte da área controlada pelas tropas americanas, a parte noroeste da área alemã e uma pequeno pedaço do setor francês.
Quando os reforços chegarem, a Rússia terá 3.600 soldados em Kosovo, incluindo o contingente de 750 estacionado no Aeroporto Slatina, nas proximidades de Pristina, que está sob o controle russo.
Segundo a Otan, 50.000 soldados de paz estarão eventualmente estacionados em Kosovo, incluindo os russos. A Otan anunciou hoje que 29 mil já chegaram à província.
Enquanto isto, a agência para refugiados da ONU estimou em 589.600 dos mais de 860.000 refugiados, a maioria albaneses étnicos, que fugiram de Kosovo já retornaram para a província desde que as tropas da Otan começaram a entrar lá em 12 de junho.
Sadako Ogata, a Alta Comissária da ONU para Refugiados, em sua primeira visita a Kosovo desde a chegada das tropas da Otan, disse que o retorno dos refugiados estava ocorrendo de forma tranquila. Mas ela afirmou temer pela segurança das minorias sérvia e cigana na província.
"Estamos tentando dar a eles garantias de segurança", disse ela.
A Acnur estima que mais de 71.000 sérvios de Kosovo já fugiram da província desde março de 1998, mas ela não especificou quantos partiram desde a chegada da Otan. Belgrado afirma que mais de 100.000 sérvios já fugiram de Kosovo.
Líderes da comunidade Sérvia de Kosovo exigiram hoje uma investigação internacional dos crimes contra sérvios na província e a suposta existência de campos de prisioneiros em Kosovo para sérvios.
"Temos claras indicações de que campos para sérvios ainda existem em Kosovo", afirmaram o bispo ortodoxo sérvio Artemije e o político sérvio kosovar Momcilo Trajkovic numa carta à agência independente de notícias Beta em Belgrado. Eles disseram que cabe aos soldados internacionais de paz determinar quem está controlando os campos e há quanto tempo eles existem.
"Em todo Kosovo, tudo que é sérvio está sujeito à destruição bárbara", afirmaram eles, pedindo à Otan para investigar crimes contra sérvios.
Desde a chegada das tropas da Otan, sérvios têm sido frequentes alvos de represálias por parte de refugiados que ao retornar encontraram suas casas pilhadas, suas vilas queimadas e seus parentes e vizinhos mortos por forças de segurança sérvias durante a repressão acelerada pela campanha de bombardeio da Otan.
Ainda hoje, o ex-senador norte-americano Bob Dole, encerrando uma viagem em busca de evidências como chefe da Comissão Internacional de Pessoas Desaparecidas, visitou uma vala comum nas proximidades de Pec onde estariam os corpos de 97 albaneses étnicos que teriam sido assassinados por forças de segurança sérvias.
O local estava entre os citados em um indiciamento por crimes de guerra contra o presidente iugoslavo Slobodan Milosevic. Mira Baratta, porta-voz de Dole, disse que a visita deu ao ex-senador "uma noção da gravidade e da amplitude da destruição, do deslocamento das pessoas".
Em Genebra, uma iniciativa humanitária de quatro países, uma das primeiras a levar ajuda a Kosovo, informou que se concentrará agora na ajuda à Sérvia, já que a Organização das Nações Unidas ainda não está trabalhando lá.
O diplomata suíço Walter Fust, falando sobre a iniciativa Focus - composta por Suíça, Rússia, Grécia e áustria -, disse que poderia haver uma crise humanitária na Sérvia neste inverno devido aos danos causados pelos bombardeios.
A revista norte-americana Time informou hoje que o presidente Bill Clinton autorizou a CIA a ajudar a derrubar Milosevic, que foi indiciado por supostos crimes de guerra cometidos em Kosovo.
Hackers da CIA tentarão vasculhar as transações financeiras particulares de Milosevic, a agência tentará depositar dinheiro para organizações oposicionistas na Iugoslávia e recrutará dissidentes no governo de Belgrado e no exército iugoslavo, segundo a reportagem.
Enquanto isso, o ministro de Defesa da Alemanha, Rudolf Scharping, dizia asperamente aos sérvios para derrubar Milosevic. "Meu conselho ao povo da Sérvia é: Mandem-no para longe dali e as portas da Europa permanecerão abertas", disse Scharping, em declaração atribuída a ele nesta segunda-feira pelo jornal alemão Bild.





