Belgrado, 23 (AE-AP) - Caças-bombardeiros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) atacaram e destruíram HOJE (23) a sede da Rádio e Televisão Sérvia (RTS) - apontada como "cérebro" do aparato militar repressivo da Iugoslávia (Sérvia e Montenegro) -, no momento em que a emissora estatal apresentava entrevista gravada do presidente Slobodan Milosevic.
O bombardeio ocorreu de madrugada, quando havia no interior do edifício cerca de 70 pessoas - entre jornalístas, técnicos e seguranças. "Dez morreram e 18 ficaram feridos", disse o ministro iugoslavo sem pasta, Goran Matic. A emissora retomou as transmissões na mesma frequência de seus estúdios em Kosutnjak - parque localizado no sul da capital iugoslava -, mostrando imagens de sua sede destroçada.
Segundo Matic, o total de mortos e feridos deve aumentar. "Há muita gente entre os escombros."
Dezenas de bombeiros passaram o dia removendo grandes blocos de cimento na esperança de encontrar sobreviventes. Logo após o impacto dos mísseis, por volta de 2 horas, a região ficou completamente às escuras. Holofotes foram ligados pelas equipes de socorro, que iniciaram imediatamente a tarefa de atendimento às vítimas. Os feridos foram levados em ambulâncias para um hospital da região. Oito permanecem internados em estado grave.
"Eu e mais dois colegas trabalhavamos no estúdio de gravação, quando ouvimos uma grande explosão, seguinda de total escuridão", contou o técnico de som Predag Djuric, de 25 anos, que recebeu ferimentos no pulmão, tórax e estômago. "Senti dores pelo corpo, enquanto o estúdio era envolvido por fumaça e pó." Um jornalista comentou: "Isso vai tornar os sérvios ainda mais indignados; a Otan não vai conseguir o que pretende..."
O ministro iugoslavo sem pasta classificou operação da Otan de ato criminoso. "É dessa forma que a aliança comemora 50 anos", acrescentou. "Trata-se de um ato de loucura. Depois de falar durante meio século de liberdade de imprensa e opinião, a aliança agride os que dizem a verdade e contestam suas mentiras."
A Otan contestou em Bruxelas e justificou a operação. "Não estamos incluindo entre nossos alvos meios informativos, estamos neutralizando emissoras que apóiam a estrutura de poder e a máquina de propaganda do senhor Milosevic", disse Jamie Seha, porta-voz da instituição.
"Essa estação de televisão é uma fonte de propaganda que só prolonga a guerra, causando sofrimentos indescritíveis ao povo de Kosovo", acrescentou Clare Short, secretária de Estado da Grã- Bretanha para Desenvolvimento Internacional. "É um alvo legítimo."
As autoridades iugoslavas já esperavam um ataque à RTS. Na semana passada, Shea havia advertido de que a máquina de propaganda sérvia estava incluída entre os principais alvos dos aviões da aliança.
"Se eles queriam calar a emissora, bastava bombardear seus transmissores", afirmou o porta-voz da chancelaria sérvia, Noboja Vujovic. "Não precisavam destruir o edifício, sempre repleto de funcionários." O funcionário iugoslavo fez questão de ressaltar que a progrmação da RTS não vai sofrer interrupções.
Liderados por repórteres da TV alemã, os correspondentes estrangeiros assinaram um documento, manifestando pesar aos parentes das vítimas.
As autoridades sérvias acusaram também a Otan de promover catástrofes ecológicas e econômicas no país, com ataques indiscriminados a seus parques industriais e refinarias.
Os bombardeios prosseguiram na sexta-feira, quando a Operação Força Aliada entrou em seu segundo mês. A cúpula da Otan deu sinal verde para o embargo de petróleo, que deverá começar em meados da próxima semana. A Rússia opõe-se à sanção e deverá manter o fornecimento a Belgrado por meio de petroleiros. Segundo a França, "não há meios de evitar as entregas petrolíferas por via marítima".
Montenegro, cujo governo não esconde simpatias pelo Ocidente, espera ficar fora do embargo. A pequena república iugoslava vem sofrendo reiteradas ameaças de Belgrado por sua resistência a uma série de reivindicações de Milosevic.
Hoje, dirigentes montenegrinos advertiram as autoridades iugoslavas para a possibilidade de uma guerra civil se a pressão não parar. Os montenegrinos rechaçaram uma ordem baixada pelo Estado Maior das Forças Armadas iugoslavas, que exige a imediata colocação da polícia montenegrina (cerca de 13 mil homens) sob o comando do Exército iugoslavo. "Essa ordem deve ser cumprida imediatamente", ameaçou o ex-presidente montenegrino Monir Bulatovic, que é apadrinhado de Milosevic.
Em Genebra, o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) informou que está se preparando para enfrentar nos próximos dias uma nova onda de cerca de 300 mil refugiados procedentes de Kosovo. Segundo o Acnur, mais de 500 mil refugiados lotam campos instalados na Albânia, Macedônia e Montenegro.

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