Bruxelas, 29 (AE-REUTERS) - A Otan denunciou hoje (29) que cinco líderes étnicos albaneses foram mortos a sangue frio na última atrocidade em Kosovo, e admitiu que estava correndo contra o tempo para parar o que rotulou de limpeza étnica sérvia.
Enquanto milhares de refugiados fugiam de Kosovo, a Rússia preparava uma supermissão diplomática a fim de buscar uma solução pacífica para a crise e pôr um fim no incansável bombardeios aéreos da Otan contra a Iugoslávia.
Mas aviões de combate da Otan não davam pausa, decolando de bases na Itália e Grã-Bretanha para a sexta noite de ataques contra alvos militares da Iugoslávia. Explosões foram ouvidas no norte de Belgrado, nas proximidades de uma fábrica química e instalações do exército, segundo testemunhas.
"Esta é uma campanha que está longe de terminar militarmente. Sabíamos que não seria um caso de três, quatro dias, de uma ou duas bombas", afirmou o comandante-supremo da Otan, general Wesley Clark.
Um porta-voz da Otan em Bruxelas afirmou numa entrevista coletiva que Fehmi Agani, um membro da delegação albanesa kosovar nas recentes conversações de paz na França, estava entre aqueles executados no domingo. Outro era Baton Haxhiu, editor-chefe do principal jornal albanês de Kosovo, Koha Ditore.
Ele disse que os assassinatos ocorreram depois que líderes albaneses étnicos participaram do funeral do advogado Bajram Kelmendi, que foi morto a tiros pela polícia sérvia junto com seus dois filhos na primeira noite de ataques da Otan na quarta-feira.
Autoridades sérvia na capital de Kosovo, Pristina, afirmaram à agência de notícias iugoslava Tanjug que não existem indicações de que cinco líderes albaneses étnicos teriam sido mortos.
A Otan considerou que seus bombardeios estavam tendo resultado, mas que percebeu que a situação é urgente e estava "movendo o céu e a terra" para alvejar a máquina militar do presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic.
"Para cada ato de barbaridade, cada assassinato de inocente, Milosevic tem de pagar um preço maior e maior", afirmou ao parlamento o primeiro-ministro britânico, Tony Blair.
A Casa Branca afirmou que os eventos em Kosovo parecem atender "a definições de livros escolares de limpeza étnica", mas negou que os ataques aéreos deflagaram uma nova onda de tal atividade. Clark, da Otan, disse que Milosevic estava "trabalhando muito, muito rápido, tentando apresentar ao mundo um fato consumado".
Mas os Estados Unidos e a Grã-Bretanha rejeitaram pedidos de alguns setores pelo envio de tropas terrestres. "Haveria um claro banho de sangue se você chegar a isto... Não é uma opção sensível," afirmou o secretário de Defesa britânico, George Robertson.
Numa dramática tentativa de pôr fim à crise e aos ataques aéreos da Otan, o presidente russo, Boris Yeltsin, ordenou que o primeiro- ministro Yevgeny Primakov e seus ministros da Defesa e do Exterior fossem amanhã a Belgrado a fim de conversarem com Milosevic.
A Rússia se opõe vigorosamente aos bombardeios contra seus irmãos eslavos da Iugoslávia. Moscou se sente humilhado pelo fato de a Otan ter levado à frente os ataques apesar de seus protestos, o que sublinha a perda de influência da Rússia desde o fim da Guerra Fria.
O ministro do Exterior rejeitou acusações ocidentais de que os sérvios estariam promovendo genocídio em Kosovo.
"O verdadeiro genocídio em Kosovo está ocorrendo como resultado da ação da Otan", afirmou ele, acrescentando que os separatistas albaneses étnicos estavam aproveitando os ataques aéreos da Otan como cobertura para atacar alvos sérvios.
A Rússia estima que as cinco noites de bombardeio da Otan causaram a morte de de 1.000 pessoas, a maioria civil. A Otan, entretanto, considera que as baixas são menores.
Um comandante iugoslavo disse que seu exército havia perdido apenas sete soldados em cinco dias de ataques aéreos, ao mesmo tempo que teria abatido sete aviões da Otan, três helicópteros e cerca de 30 mísseis.
A Otan tem admitido a perda de apenas um caça-bombardeiro "invisível" F117A dos EUA, no sábado, mas nega ter tido derrubado qualquer outro aparelho.
O presidente chinês, Jiang Zemin, exigiu um fim dos bombardeios da Otan. Em Praga, uma testemunha relatou que uma pessoa foi morta a tiros numa manifestação por um rápido acordo de paz para Kosovo.
Um porta-voz militar da Otan afirmou que o "grande peso" dos intensos ataques aéreos do domingo à noite concentrou-se nas forças terrestres em Kosovo, na parte mais sulista da província sérvia.
A Otan estima que 500.000 albaneses étnicos foram forçados a fugir de suas casas no último ano de conflito.
Residentes de Pristina disseram que sérvios em vingança pelos ataques da Otan puseram fogo hoje na parte norte da cidade. A rádio B92, de Belgrado, noticiou que um grande número de mulheres e crianças estava fugindo de Pristina.
Milhares de refugiados chegando no norte da Albânia davam arrepiantes relatos de humilhação e assassinatos nas mãos de forças sérvias.
"Paramilitares sérvios estão matando todo mundo que se recusa a deixar sua casa", disse Adem Basha, um homem vindo da segunda maior cidade de Kosovo, Pec, depois de cruzar para a Albânia pelo posto de fronteira de Morina, cerca de 250 quilômetros ao norte de Tirana.
A agência de refugiados da ONU, Acnur, informou que mais de 12.000 refugiados chegaram a Montenegro vindos de Pec nas últimas 48 horas.
A Albânia, o país mais pobre da Europa, afirmou que 60.000 haviam chegado a seu território e cerca de 100.000 mais estavam a caminho.

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