Tirana, 23 (AE-AP) - Enquanto a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) completava hoje (23) 2 meses de sua campanha aérea contra a Iugoslávia (Sérvia e Montenegro), atacando usinas termoelétricas e prevendo a vitória para breve, forças sérvias libertaram centenas de albaneses étnicos em idade militar, que denunciaram torturas, e obrigaram-nos a cruzar a fronteira albanesa.
Cerca de 600 conseguiram cruzar no remoto posto albanês de Morina, debilitados por pelo menos 20 dias de "vida subumana" em prisões sérvias nas regiões de Smrekonica e Mitrovica.
Todos eles receberam água, rações, roupas e medicamentos e relataram a experiência nas mãos da polícia sérvia. "Antes de me levarem para a prisão, golpearam-me diante de meus filhos com incrível fúria", contou Bahri Hyseni, de 30 anos. "Éramos cerca de 400, amontoados numa única cela, onde só podiamos ficar de pé ou sentados", lembrou. "Eles batiam na gente a todo instante."
Outro refugiado, com sinais de tortura no rosto, disse que ele e seus companheiros ficaram quatro dias e quatro noites sem receber comida ou água. "Depois disso, passaram a dar para a gente apenas um pedaço de pão por dia", acrescentou.
A maioria esmagadora dos kosovares libertados pelos sérvios é constituída de homens entre 20 e 50 anos de idade. Nenhum tem idéia de onde estão seus parentes. O Alto Comando das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) calcula em 250 mil o número de albaneses étnicos em idade militar desaparecidos em Kosovo desde 24 de março, quando a Otan iniciou a Operação Força Aliada. Foram detidos sob suspeita de colaborar com o Exército de Libertação de Kosovo (que hoje voltou a acusar o Exército sérvio de usar armas químicas contra a guerrilha), ou pertencer a ele.
Em Bruxelas, o porta-voz da Otan, Jamie Shea, disse que a aviação aliada concentrou seus ataques nas últimas 24 horas em alvos militares em Kosovo e centrais termoelétricas sérvias, "que alimentam a máquina repressora sérvia". Quase todo o país ficou sem luz hoje.
Num balanço dos dois meses da campanha área, Shea assegurou que foram destruídos um terço do armamento pesado do Exército sérvio e pelo menos cem aviões da Força Aérea, além de centenas de instalações militares e pontes rodoviárias estratégicas. Segundo o porta-voz, a Otan está muito próxima da vitória.
Em Londres, o chanceler britânico, Robin Cook, anunciou a decisão da aliança de ampliar de 28 mil para 50 mil o número de soldados que devem formar a futura força de paz para Kosovo. O general Wesley Clark, comandante das forças da Otan, havia solicitado esse reforço na semana passada para "fazer mais pressão" sobre o presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic. Segundo Cook, as forças da Otan estarão preparadas para entrar na província sérvia "com ou sem acordo".
Em Washington, o ex-secretário de Estado Henry Kissinger lançou duras críticas ao que classificou de "guerra de 5 mil metros de altitude" conduzida pelo presidente Bill Clinton. "Em qualquer uma das fases da tragédia de Kosovo havia disponíveis combinações de diplomacia e força que jamais foram levadas a sério", ressaltou Kissinger em artigo publicado na revista Newsweek. "Uma guerra feita em nome de convicções morais a 5 mil metros de altitude, que devasta a Sérvia e torna Kosovo inabitável, merece ser contestada tanto em bases éticas quando políticas."
O ex-chefe da diplomacia americana acusa Clinton de deixar-se guiar obsessivamente pelas pesquisas de opinião e indaga: "Por que, então, não intervir na Argélia, Sudão, Serra Leoa, Croácia, Ruanda, Cáucaso e outras regiões?"

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