Bruxelas, 16 (AE-AP) - A Otan está batendo seguidamente na Iugoslávia com uma série de mísseis e bombas sofisticados, mas Belgrado está batendo nos aliados da Otan com propaganda visando chocar a opinião pública desses países.
A aliança ainda não começou a perder a guerra de propaganda, mas com cada erro, cada prova de danos colaterais, cada imagem da televisão sérvia de corpos destroçados de refugiados, o caso moral dos aliados perde um pouco de força na visão de muitos cidadãos em todo o mundo.
A visão moralista é que a Otan, além de buscar seus objetivos militares e políticos na Iugoslávia, também está matando civis inocentes.
A visão realista é que a Otan tomou a decisão de ir à guerra. Todas as guerras matam gente inocente. Você não pode ficar agonizado com cada morte acidental.
Entretanto, é exatamente isto o que a Otan está fazendo. Em um esforço para reconhecer e assumir responsabilidade por cada de seus inevitáveis erros, ela está dando uma arma ao presidente Slobodan Milosevic que pode minar o apoio à sua campanha.
Enquanto o mundo assiste aos corpos ensanguentados e tratores fumegantes espalhados numa estrada de Kosovo, a Otan fala de um infeliz dano colateral e Belgrado bate na opinião pública com gritos de ataques criminosos contra pessoas inocentes.
As primeiras imagens são as piores, disse um oficial da Otan que pediu para não ser identificado. A primeira impressão é muito mais importante do que a décima. O melhor tratamento, afirmou ele, é simplesmente reconhecer o erro, ou dizer sim, existiam aviões na área e isto poderia ter ocorrido, e seguir em frente.
Em virtualmente todo briefing a Otan repete que está tomando todos os cuidados para evitar danos colaterais, chegando ao ponto de abortar um grande número de missões. Mas, como o brigadeiro-general Giuseppe Marani disse na quinta-feira: "Quando você está conduzindo uma campanha aérea, apesar de tudo que você possa fazer, apesar de quão estritas sejam as regras que você aplica, erros podem acontecer, e o número de erros é proporcional ao volume de operações aéreas."
Com o general Wesley Clark, o comandante-supremo aliado na Europa, elevando suas forças dos originais 430 aviões para mais de mil, pode-se esperar que o número de vítimas civis certamente aumente. Isto é a guerra.
"Considero que isto seja um dos elementos mais importantes", disse Dick Leurdijk, do centro de estudos holandês Instituto Clingendahl.
"Quanto mais incidentes como esses acontecerem, mais a Otan irá perder o apoio da opinião pública. A Otan deveria, segundo ele, ter preparado anteriormente o público para a alta possibilidade de morte de inocentes.
"Uma vez que você começa uma campanha aérea, isto faz parte do jogo", afirmou Leurdijk. "Este tipo de coisa é inevitável. Por favor, leve isto em consideração".
Também, como reconheceu um alto oficial, entre os militares sempre existe uma certa hesitação em dar um quadro completo de um erro. Em muitos casos, o erro não reflete bem sobre a unidade ou o comandante envolvido.
Do ponto de vista de Belgrado, um trem cheio de civis atingido por uma bomba guiada a laser é um porrete a ser usado para bater na opinião pública nos Estados Unidos, França, Dinamarca, Espanha, para voltá-la contra a operação aérea da Otan, para pôr pressão sobre seus políticos.
Refugiados mortos pelas mesmas pessoas que dizem estar combatendo para salvá-los dão a Milosevic uma arma de propaganda que é tão poderosa quanto qualquer artefato explosivo de seu arsenal.
O próximo teste de relações públicas da Otan será quando o primeiro piloto ou soldado aliado morrer, o que certamente ocorrerá cedo ou tarde.
A guerra causa vítimas. Soldados profissionais aceitam isto. O público em geral nos 19 países da Otan não é tão sanguinário. "A guerra é mais emotiva hoje do que costumava ser", disse o oficial.

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