Otan atinge asilo de idosos; Belgrado condena ataques
Belgrado, 31 (AE-AP) - Mísseis da Otan atingiram hoje (31) um hospital e um asilo de idosos na Iugoslávia, matando pelo menos 16 pessoas, disseram autoridades sérvias, em meio a crescentes preocupações sobre vítimas civis da campanha de bombardeios da aliança.
Condenando o "assassinato de civis" na Sérvia, o presidente Slobodan Milosevic disse que os últimos ataques colocam em risco os frágeis esforços de paz, que continuam esta semana com conversações com o presidente finlandês. O enviado da Rússia para os Bálcãs também anunciou planos de reunir-se novamente esta semana com Milosevic.
O governo iugoslavo reiterou que aceita os princípios estabelecidos pelo Grupo dos Oito grandes países para pôr fim ao conflito de Kosovo. Mas o último comunicado de Milosevic ainda está longe das exigências ocidentais para a composição de uma força de paz para a província sérvia.
Autoridades da aliança insistiram que "não haverá negociações" com Belgrado, que eles dizem tem de parar com a violência em Kosovo, retirar suas forças da província e permitir que tropas da Otan entrem na região para policiar a paz para os albaneses étnicos.
Em Washington, o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, Michael Hammer, mostrou-se cético em relação à seriedade de Milosevic com a paz.
"Todo mundo está imaginando se estamos à beira de um grande avanço", disse Hammer. "Eu acho que é um pouco prematuro".
A União Européia também exigiu hoje que Milosevic converta suas palavras em ação e mostre um comprometimento "sem ambiguidades e verificável" ao plano ocidental para Kosovo.
A Otan, apesar de ter-se colocado novamente na defensiva sobre sua prática de alvos, levou à frente sua escalada na campanha aérea.
Em Kosovo, jatos A-10 "Warthog" dos EUA atacaram forças sérvias combatendo rebeldes albaneses nas montanhas ao longo da fronteira com a Albânia.
A aliança reconheceu ter atingido uma base militar e uma área de depósito de munição nos arredores de Surdulica, 355 quilômetros a sudeste de Belgrado. Mas jornalistas levados à cidade viram uma cena de devastação, com 11 corpos espalhados pelo chão e cobertos com lençóis na frente do destroçado complexo médico e quatro outros, de mulheres idosas, em macas em frente ao asilo. Uma mão humana era visível, destacando-se de um monte de destroços.
Equipes de resgate ainda estavam retirando corpos dos escombros no meio da tarde, mais de doze horas depois do ataque. Sobreviventes relataram quatro explosões logo depois que um avião sobrevoou o complexo nos arredores da cidade, logo depois da meia-noite.
Bombas explodiram o principal prédio do hospital, abrigando refugiados sérvios da Croácia, e um asilo de idosos.
Segundo autoridades sérvias, que trouxeram jornalistas ocidentais para o local, dois mísseis atingiram o principal prédio do Hospital Especial para Turberculose e Doenças Pulmonares. Dois outros mísseis caíram sobre o asilo de idosos dentro do complexo, onde 35 velhos viviam.
As explosões fizeram desabar uma ala do hospital, arrancando o topo de pinheiros e chamuscando as árvores.
"As paredes, o teto, tudo caiu sobre mim", disse Mica Pjevac
uma refugiada sérvia da Croácia. "Pensei que era o fim da minha vida".
Surdulica foi vítima de um míssil errante em 27 de abril, que matou pelo menos 15 pessoas. A Otan anunciou na época que um míssil guiado a laser perdeu o rumo ao ser disparado contra uma base militar.
Em outro ataque hoje, a mídia sérvia noticiou que 10 pessoas foram mortas e pelo menos 20 feridas quando mísseis da Otan atingiram a cidade sérvia de Novi Pazar. A notícia não pôde ser independentemente confirmada.
A aliança tem admitido ter matado civis em sua campanha aérea, agora em seu terceiro mês, mas insiste que todas tais vítimas não foram intencionais.
Em Bruxelas, o porta-voz da Otan coronel Konrad Freytag insistiu que "todos projéteis atingiram alvos planejados" na área de Surdulica e que a aliança não podia confirmar as notícias de vítimas.
O ataque ocorreu um dia depois que 11 civis teriam sido mortos quando mísseis da Otan destruíram uma ponte no centro da Sérvia.
No front diplomático, o enviado russo para os Bálcãs, Viktor Chernomyrdin, anunciou que planeja viajar para a Alemanha amanhã para promover mais conversações sobre a crise. Ele deve reunir-se em Bonn com o subsecretário de Estado americano, Strobe Talbott, e o presidente filandês, Martti Ahtisaari.
É esperado que eles jantem com o chanceler alemão Gerhard Schroeder. Na quarta-feira, eles devem voar para Belgrado para outras conversações com Milosevic, segundo Chernomyrdin e autoridades alemãs.
Mas o escritório de Ahtisaari anunciou que a viagem depende do resultado das conversações em Bonn.
A imprensa russa e a iugoslava informavam sobre uma reunião de sexta-feira entre Milosevic e Chernomyrdin quando divulgaram que o presidente iugoslavo aceitou em princípio um plano de paz para Kosovo proposto pelo G-8, composto pelos sete países mais industrializados do mundo e a Rússia.
Um comunicado do governo de Belgrado despachado nesta segunda-feira reiterou a aceitação da proposta engatilhada pela reunião entre Chernomyrdin e Milosevic, dizendo que eles "visivam à paralisação da agressão contra a Iugoslávia, o retorno da paz e a obtenção de um acordo político para Kosovo".
Mas as informações indicavam que Milosevic continua se opondo à Otan no comando de uma força de manutenção de paz, questão na qual a aliança insiste.
Kosovo é uma província situada no sul da Sérvia, a principal república da Iugoslávia. Apesar de ser considerada pelos sérvios como o berço de sua identidade nacional, 90% de sua população antes de guerra era de 2 milhões de albaneses étnicos. Belgrado insiste que sua atuação militar em Kosovo é necessária para conter um movimento terrorista secessionista.





