Otan ataca Iugoslávia novamente, Belgrado corta relações
Belgrado, 25 (AE-REUTERS) - A Otan lançou hoje uma segunda noite de ataques aéreos contra a Iugoslávia e o presidente dos EUA, Bill Clinton, advertiu que a aliança continuará a bombardear até que Belgrado se curve às exigências ocidentais de paz em Kosovo.
Enquanto o violento assalto era retomado, a Iugoslávia anunciava que estava rompendo relações diplomáticas com os Estados Unidos, França, Alemanha e Grã-Bretanha. A Rússia condenou duramente os ataques, abrindo sua maior divergência com o Ocidente desde a Guerra Fria.
Forte explosões foram ouvidas por volta das 16 horas (horário de Brasília) nos arredores da capital kosovar de Pristina, logo depois de sons de aviões em alta altitude e disparos de bateria antiaérea, e toda a energia elétrica foi cortada na cidade.
Também houve fortes explosões nos arredores da capital iugoslava de Belgrado, 300 km ao norte. Testemunhas disseram que mísseis e aviões de combate atingiram bases do exército, um aeroporto e centros de comunicação e defesa aérea em toda a Sérvia.
Entre os alvos que teriam sido atingidos estavam uma grande base do exército iugoslavo em Urosevac, em Kosovo, um fábrica de suprimentos militares na cidade central sérvia de Trstenik, um aeroporto em Nis, no sul da Sérvia, e bases militares em Montenegro.
Forças dos EUA anunciaram que haviam disparado 20 mísseis de cruzeiro Tomahawk de navios de guerra no Adriático e que aviões de combate da Otan haviam levantado vôo de bases terrestres logo depois.
Não houve sinais de que Belgrado teria recuado em sua recusa em aceitar um plano ocidental para a conflituosa província sérvia de Kosovo que permitiria a entrada de tropas da Otan em seu território.
O vice-primeiro-ministro iugoslavo, Vuk Draskovic, afirmou que os bombardeios da Otan haviam destruído o plano, mas que Belgrado continuava pronto para aceitar uma autonomia para a província sérvia.
Clinton disse que o presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, "tem de optar pela paz ou iremos limitar sua capacidade de fazer a guerra", acrescentando que o objetivo da campanha era evitar uma catástrofe humanitária em Kosovo e uma guerra generalizada nos Bálcãs.
Houve palavras ainda mais duras por parte do comandante supremo da Otan, general Wesley Clark, que ameaçou numa entrevista coletiva em Bruxelas destruir as forças armadas iugoslavas e advertiu Milosevic que não "haverá santuário" para ele ou seus líderes militares.
Numa retórica equivalente de Belgrado, o vice-primeiro-ministro sérvio Vojislav Seselj pediu aos sérvios em todo o mundo para "atacar interesses americanos da melhor maneira que puderem".
"Cada soldado americano, britânico, francês, alemão, italiano, espanhol e holandês, em qualquer lugar que for encontrado, é um inimigo do povo sérvio e deve ser destruído", disse Seselj, presidente do ultranacionalista Partido Radical Sérvio.
Três destacados jogadores de futebol iugoslavos pediram a compatriotas atuando por clubes de países da Otan para boicotarem seus jogos até que acabem os ataques da aliança.
A Iugoslávia anunciou que 40 alvos foram atingidos nos primeiros ataques da Otan na noite de quarta-feira e que pelo menos 10 pessoas haviam sido mortas, mas insistiu que os danos a instalações haviam sido mínimos.
Chefes da Otan em Bruxelas disseram que forças de segurança sérvias ainda estavam atacando albaneses étnicos em Kosovo hoje, mas o primeiro-ministro italiano, Massimo DAlema, declarou que os ataques iniciais haviam parado a ofensiva sérvia.
Num primeiro sinal de divergências na aliança internacional, ele afirmou na cúpula da União Européia em Berlim que estava chegando a hora de uma nova iniciativa diplomática e saudou um pedido da Rússia por uma reunião do Grupo de Contato para os Bálcãs.
O secretário-geral da Otan, Javier Solana, afirmou que mais ataques estão planejados, mas ponderou: "Estamos falando de dias, não de meses".
Os ataques da Otan - o primeiro contra um país soberano em 50 anos de aliança - foi autorizado sob protestos da Rússia e da China no Conselho de Segurança da ONU.
A Sérvia,principal república da Iugoslávia, expulsou jornalistas pertencentes à mídia de países que tomaram parte na agresão da Otan ou emprestaram bases militares à aliança.
Em Kosovo, cafeterias, lojas e clínicas privadas pareciam ter sido atacadas com granadas ou bombas durante a noite. Fontes albanesas reportaram a ocorrência de ataques étnicos através da província e afirmaram que um homem foi morto por civis em Djakovika, no sul.
Albaneses étnicos afirmaram também que violentos choques ocorreram ontem entre albaneses e sérvios em Vucitrn, na região central de Kosovo, em uma estrada que liga Glogovac e Srbica, a oeste de Pristina e ao redor da cidade de Podujevo, no norte.
A polícia lançou bombas de gás lacrimogêneo contra centenas de pessoas que se manifestavam contra os ataques da Otan no centro da capital da Macedônia, Skopje, depois de a multidão ter atacado as embaixadas dos EUA, Grã-Bretanha e Alemanha.
O primeiro-ministro da Macedônia, Ljubco Georgievski, pediu a ajuda ocidental para lidar com cerca de 20.000 refugiados de etnia albanesa que fugiram para seu país vindos de Kosovo.
Muitos refugiados também procuraram a Albânia depois que tropas sérvias incendiaram uma vila no vizinho Kosovo. Segundo oficiais albaneses, forças sérvias bombardearam vilas no nordeste da Albânia.
A Rússia acusou Washington de querer dominar o mundo e afirmou que não participará das comemorações dos 50 anos da formação da Otan.
Em Moscou, manifestantes gritando "Fascistas" picharam os muros da embaixada e queimaram bandeiras dos EUA.
A Rússia apresentou hoje uma resolução ao Conselho de Segurança pedindo o fim dos ataques, mas o pedido certamente será negado.





