Belgrado, 20 (AE-AP) - A Otan lançou hoje (20) ataques durante o dia em Pristina e outras partes de Kosovo, enquanto acusava forças sérvias de estarem participando de uma macabra "operação safari" visando esvaziar a província de sua maioria albanesa étnica.
Combates também foram noticiados hoje dentro de Kosovo entre rebeldes albaneses étnicos e forças sérvias. Quinze guerrilheiros feridos do Exército de Libertação do Kosovo (ELK) foram levados hoje para um hospital na cidade fronteiriça albanesa de Bajram Curri, disseram observadores internacionais, junto com os corpos de dois rebeldes mortos no enfrentamento.
Também hoje, um soldado albanês foi ferido numa troca de tiros de metralhadoras e com franco-atiradores na fronteira entre Albânia e Iugoslávia ao sul da cidade kosovar de Djakovica.
Foi a primeira notícia de confronto entre forças albanesas e iugoslavas desde o início da campanha de bombardeios da Otan em 24 de março.
Num outro incidente grave, soldados iugoslavos penetravam na Eslavônia Ocidental - uma área desmilitarizada entre Montenegro e Croácia (reclamada por croatas e sérvios), controlada pela ONU. O governo croata apresentou um protesto nas Nações Unidas. "Cerca de 300 soldados sérvios participaram dessa operação ilegal", reagiu um porta-voz da chancelaria croata.
Em Kosovo, a agência independente de notícias FoNet divulgou que uma pessoa morreu e duas ficaram feridas num ataque durante o dia contra um prédio governamental na capital Pristina. Mísseis também atingiram o aeroporto da cidade, acrescentou a agência.
Aviões da Otan atacaram pelo menos quatro vezes hoje alvos nas proximidades da mina de carvão de Belacevac, em Kosovo, segundo a agência oficial de notícias Tanjug. A mina abastece de carvão uma estação de força de Pristina que gera eletricidade para a maior parte de Kosovo.
Em Bruxelas, o porta-voz da Otan Jamie Shea disse que forças militares e paramilitares sérvias estavam bombardeando colinas a fim de tirar de esconderijos albaneses étnicos, fazendo-os marcharem por rodovias ou colocando-os em trens rumo à fronteira e então fechando-a para eles.
As acusações surgiram enquanto a aliança levava à frente sua quarta semana de ataques contra a Iugoslávia, bombardeando alvos em cerca de uma dezena de cidades e vilas. Helicópteros e tropas dos Estados Unidos estão rumando para a Albânia a fim de reforçar a capacidade da aliança de atacar forças terrestres da Iugoslávia.
A Otan também conseguiu hoje com que o governo da Romênia lhe desse acesso ilimitado ao espaço aéreo do país para a campanha de bombardeio. A Bulgária também aceitou informalmente o pedido - os parlamentos das duas nações devem dar uma aprovação final esta semana.
Milhares de albaneses-kosovares estão confinados numa terra de ninguém na fronteira da Macedônia, sem acesso a comida e cobertores e estão proibidos de entrar por um governo que diz que não consegue dar conta de seus já 127.000 refugiados.
Com grupos humanitários ainda tendo dificuldades para atender mais de 600.000 refugiados na Macedônia, Albânia e Montenegro, a agência humanitária da ONU afirmou esperar que outros 100.000 cheguem de Kosovo nos próximos dias.
O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, admitiu que a aliança não pode ajudar 850 mil refugiados em Kosovo.
"Nada pode ser feito pelos refugiados que perambulam pelos vales ou esconderam-se nas colinas e florestas do território", lamentou Blair. "Estamos profundamente preocupados com essa gente que tem única chance de sobrevivência em nossa campanha aérea (bombardeio)."
Dirigentes dos movimentos internacionais de ajuda humanitária reafirmaram desconhecer o paradeiro de uma imensa coluna de kosovares (a maioria a pé) que se dirigia no fim de semana à fronteira albanesa.
"Devem estar sob controle de forças sérvias, o que, por si só
é motivo de grande preocupação", disse um funcionário do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur). "Apenas cem refugiados cruzaram a fronteira albanesa desde sábado", acrescentou.
Técnicos do Acnur, em Genebra, acreditam que forças sérvias forçaram a coluna de refugiados (estimados em mais de 100 mil) a buscar rotas alternativas. "Hoje podem estar retidos em vários lugares, com frio e fome", destacou um porta-voz da instituição.
Chefes militares da Otan pensaram em lançar alimentos de pára-quedas para eles, mas desistiram da idéia por considerar esse tipo de missão arriscado demais para os pilotos. Os aviões teriam de voar a baixa altitude, transformando-se em alvo fácil para as baterias de mísseis sérvias. A França, contudo, está disposta a tentar.
Os sérvios reforçaram suas tropas no território por temer uma invasão terrestre (admitida hoje pela primeira vez pelo chanceler britânico, Robin Cook) e para neutralizar a guerrilha do Exército de Libertação de Kosovo (ELK). O presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, disse ter dado ordem de atirar para matar soldados da Otan no caso de invasão.
A Tanjug não comentou a denúncia, optando por fazer um balanço dos bombardeios de hoje, levados a cabo pela aviação da Otan. Informou também que mísseis e projéteis caíram sobre áreas habitadas de Nis (casas e fábricas), matando uma pessoa e ferindo 11. "Dez habitações foram arrasadas e outras tantas seriamente danificadas no distrito de Sljaka, perto da estação ferroviária de Crveni Krst."
Por sua vez, o porta-voz da Otan, Jamie Shea, disse que os esquadrões de aviões da aliança atacaram e destruíram 20 objetivos militares e estratégicos - entre os quais depósitos de combustível, pontes rodoviárias e ferroviárias e blindados, tanques e outros tipos de equipamentos.

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