Ossadas revelam nível de violência no MS
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sábado, 01 de novembro de 1997
Edson Luiz Agência Estado 
A descoberta de várias ossadas na região de Dourados, em Mato Grosso do Sul, na fronteira do Brasil com o Paraguai, revelou um assustador agravamento da violência no Estado. Em algumas cidades no sul do Estado, onde a maioria da população anda armada, uma pessoa é executada a cada dois dias. Nos últimos sete meses, a Polícia registrou 87 assassinatos na região. Mas esse número pode não refletir a realidade, pois circulam informações de que os assassinos conseguem manter ocultos muitos outros crimes de morte. Nessa região, a vida vale pouco - entre R$ 500,00 e R$ 2.500,00 -, e famílias inteiras são massacradas por motivos banais.
Um levantamento feito pelo Centro de Defesa da Cidadania e dos Direitos Humanos Marçal de Souza Tupã, de Mato Grosso do Sul, foi entregue à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e mostra que, em Dourados, as execuções cresceram 106% em relação ao ano passado. A cidade, que era a segunda em criminalidade no Estado, passou a ser a líder, registrando 29,88% dos crimes ocorridos de janeiro a julho deste ano. Os motivos das mortes costumam ser a chamada queima-de-arquivo (eliminação de testemunha de um crime), a guerra pelo domínio de pontos de vendas de drogas e os roubos de carros, mas um assassinato pode acontecer também por causa de uma simples discussão de rua.
A criminalidade não está restrita a Dourados. O pânico se estende por toda a fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai, uma região onde predominam o contrabando de armas e o narcotráfico. A lei pouco vale, até porque muitos crimes são atribuídos a policiais, tanto civis quanto militares. Em Ponta Porã, por exemplo, ocorreu um crime com todas as características de ter sido cometido por PMs. Foram assasinados oito parentes de Joel dos Santos Alves, de 36 anos, acusado de ter matado um PM. Mesmo preso, Alves foi executado. Injustamente, já que os culpados pela morte do policial foram descobertos pouco depois.
Para combater a pistolagem, é preciso que os culpados, que estão presos, sejam punidos exemplarmente, afirma o delegado de Dourados, Roberto Queiroz Coelho. Nesta luta, temos que trabalhar conjuntamente com o Ministério Público e o Judiciário. Entretanto, segundo o Fórum Estadual dos Direitos Humanos de Mato Grosso do Sul, o Poder Judiciário não vem correspondendo às expectativas. Num apelo feito à Comissão de Direitos Humanos da Câmara, várias entidades reclamam que a Justiça vem relaxando as prisões de alguns implicados nas execuções.
Enquanto isso, o número de crimes cresce na fronteira ao mesmo tempo em que as testemunhas e familiares dos mortos se recusam a depor, temendo ser também assassinados. As pessoas pedem justiça, punição para os matadores de seus parentes, mas se recusam a dar nomes, diz o deputado Pedro Wilson (PT-GO), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal. Eles sabem quem são os assassinos, mas temem pela vida.
Motivo fútil Os corpos das vítimas costumam ser abandonados em cemitérios clandestinos, nas estradas e nos rios infestados por piranhas e normalmente não têm identificação. Pelo levantamento feito pelo Centro Marçal de Souza Tupã, cerca de 29% dos cadáveres encontrados são enterrados como indigentes. A identificação dos corpos fica praticamente impossível, porque são desfigurados pelos assassinos com tiros, carbonizados ou jogados nos rios infestados de piranha, na fronteira do Brasil com o Paraguai.
Os matadores não perdoam mulheres e crianças. E matam pelos motivos mais fúteis. Os menores Natal da Mata Nascimento, Alexander Lima dos Santos e Claudeci de Moraes, por exemplo, foram mortos pelo PM José Cícero Simplício da Silva e pelo estivador Geraldo Oliveira Góes por terem deixado a torneira de uma borracharia aberta durante uma noite. Os três foram amarrados e amordaçados antes de ser executados. Também os travestis não escapam. Em julho deste ano, três foram assassinados, provavelmente por uma mesma pessoa.
A única solução para acabar com a onda de violência que impera na fronteira é o combate à impunidade, segundo o Fórum Estadual dos Direitos Humanos de Mato Grosso do Sul, formado por diversas entidades da sociedade civil. É necessário que as mães não tenham medo de enviar seus filhos à escola à noite nem tenham mais a tristeza de ir reconhecê-los à beira de estradas vicinais, rios e covas rasas, com o corpo crivado de balas, diz o educador social Adenilso dos Santos, integrante do fórum.


