Dizem que um dia um velho advogado andava pelas ruas de sua cidade, preocupado com as ações que estavam sob sua responsabilidade, assustado com a situação financeira não só de seus clientes e amigos, mas também com a dele próprio, apreensivo com o caminhar da política nacional em que um escândalo espocava após o outro sem que quase ninguém mais se lembrasse do anterior, com a morosidade do Judiciário, com a nossa democracia ainda tão frágil e tanto e tanto mais quando, de repente, assim como num relâmpago, é abraçado por um colega, veterano profissional das lides forenses, que lhe dá talvez uma das mais esperadas notícias de sua vida:
- No Paraná, agora, as férias forenses são só de 30 dias por ano e vão de 20 de dezembro até 20 de janeiro do ano seguinte.
Quando deu por si, ele estava dando saltos incontidos de alegria sob os olhares curiosos de todos quantos viam a inusitada cena sem saber do que se tratava.
- Trinta dias por ano? É muita felicidade, é até difícil de acreditar!
Pois era verdade mesmo, assegurava seu colega.
Ele ainda nem bem havia assimilado a extraordinária notícia quando, em seu escritório, ao abrir a correspondência do dia constatou que, para ele que advogava não só no Paraná, mas também no Estado vizinho, as agruras das intimações via Diário da Justiça haviam acabado.
Lei federal sancionada na véspera pelo presidente da República determinava que, quando o advogado atuasse em Estado diverso daquele em que tem sua inscrição principal, as intimações deveriam ser feitas dali em diante pelo correio e não mais pelo Diário da Justiça.
- O mundo está mudando, o mundo está mudando, cantarolou o advogado, sem se preocupar muito com o olhar intrigado de sua secretária que, aliás, ultimamente andava preocupada com o aspecto sisudo e carrancudo do bom homem, fruto talvez das dificuldades de sua profissão.
Tudo ainda estava meio embaralhado em sua mente quando recebe um telefonema de seu órgão de classe: finalmente o STJ julgara as várias ADINs impetradas contra o Estatuto da OAB e as liminares haviam sido cassadas:
- Quer dizer que daqui para diante não corro mais o risco de ser preso ao defender um cliente?
- Claro que não, assegurava-lhe a voz do outro lado da linha. Vamos em frente, a liberdade até existe!
É muita coisa para um dia só, comentava ele, baixinho, com seus botões, cada vez despertando mais suspeitas em sua secretária, que às escondidas e a todo momento observava seu comportamento anormal:
- Teria enlouquecido de tanto trabalhar e sofrer o pobre homem?
Mas não era nada disso: o mundo estava mudando, pensava ele, os homens de bom senso estavam finalmente sendo ouvidos.
À tarde caminhava lentamente quando irrompe em seu escritório um colega ainda jovem, mas daqueles idealistas que acreditam que podem consertar tudo e, aos gritos, brada com uma folha de fax nas mãos:
- Você não sabe o que aconteceu! Você não sabe o que aconteceu, repetia ele. Acabo de receber um fax! Você não sabe o que aconteceu!
- Mas o que foi desta vez, o que foi?
- Pois saiba que o Congresso aprovou e está indo para o presidente sancionar a lei que todos nós queríamos, a lei que proíbe ao ex-juiz e ex-promotor de Justiça advogar, a não ser que ele renuncie aos rendimentos de sua aposentadoria.
O jovem advogado nem concluíra suas palavras e o velho advogado caiu sobre sua surrada escrivaninha, exclamando: ‘‘Meu Deus, meu Deus, é muito bom para ser verdade.’’
E assim foi o dia todo, repleto de notícias: O Tribunal de Justiça determinara que o DJ publicasse uma lista única, a cada edição, com o nome dos advogados que estavam sendo intimados; o TRT, por sua vez, implantara também o sistema de lista, com os nomes dos advogados antecedendo a publicação das intimações; o Congresso votara contra o ‘‘efeito vinculante’’, o Conselho Nacional de Educação decidira acatar todos os pareceres da OAB quanto à criação de novos cursos de Direito; o Protocolo Integrado em todo o Paraná agora era realidade; o Forum de Curitiba (finalmente!) iria ser concluído e em seis meses; lei aprovada autorizava o advogado a ter porte de arma; e tantas e tantas mais notícias que o sofrido advogado, atordoado, sentou-se em sua velha poltrona do escritório exclamando sem parar:
- É uma revolução... É uma revolução... É uma revolução...
Mas uma voz distante e conhecida interrompeu seus pensamentos:
- Mas que revolução, homem de Deus? Do que é que você está falando, aí dormindo?
Era sua mulher, que, alertada pela secretária, viera até o escritório encontrar seu marido dormindo debruçado sobre sua mesa de trabalho, com um sorriso nos lábios e exclamando:
- É uma revolução...
Era o chamado para a dura realidade da vida pois, pobre coitado, cansado de tantas desilusões, ele sonhou. Um sonho gostoso, mas apenas um sonho, em que o advogado estava agora sendo tratado como um profissional sério e que merece respeito, retirando-se todos os obstáculos que lhe impediam do exercício da profissão, na defesa de seus clientes e dos direitos dos cidadãos.
Mas... era um sonho, um sonho que, com certeza, é de todos os advogados.
E aqui ficamos a imaginar: quando conseguiremos transformar estes e tantos outros sonhos em realidade?
E indagamos: quando finalmente a voz da OAB será ouvida e atendida?
- Celso Antonio Rossi é vice-presidente da OAB do Paraná.

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