Os sentimentos contraditórios dos palestinos
Jerusalém, 08 (AE-ANSA)- Os palestinos têm sentimentos contraditórios em relação à guerra dos Bálcãs, sentindo simpatia com os refugiados kosovares que deixam sua terra, mas duvidando das reais intenções dos Estados Unidos e de seus aliados.
Os kosovares, em sua maioria muçulmanos como os palestinos, abandonam sua terra como também tiveram de fazer os habitantes árabes da Palestina depois da criação do Estado de Israel, em 1948, e daí a simpatia.
Entretanto, entre os palestinos existem muitas suspeitas e dúvidas sobre os objetivos da campanha militar lançada pelos Estados Unidos e os outros países membros da Otan contra a Iugoslávia.
"Os palestinos se identificam com os kosovares obrigados a deixar sua terra pela política de limpeza étnica do governo de Belgrado. A mesma sorte sofreu o povo da Palestina em 1948", afirmou a ativista palestina Hanna Ashrawi.
Ashrawi, integrante de organizações de direitos humanos, sublinhou que "ao mesmo tempo notamos que enquanto a Otan trata de garantir o retorno dos kosovares a suas casas e cidades, aos palestinos se negou sempre este direito".
"Ainda hoje - denunciou Ashrawi em um comunicado divulgado em Jerusalém- existem partidos em Israel que defendem a limpeza étnica usando em seu lugar a expressão transferência da população".
Sobre os bombardeios da Otan na Sérvia, Ashrawi afirmou que as operações militares não fazem distinção entre "os regimes e a população" e criam o risco de "infligir um castigo a civis inocentes".
As dúvidas em relação à campanha militar contra a Iugoslavia expressadas pela população, intelectuais e políticos dos territórios autônomos são em parte consequência da oposição dos palestinos aos bombardeios anglo-americanos contra o Iraque.
"Os mísseis e as bombas contra Bagdá são uma recordação muito amarga para nossa gente -explicou à ANSA o analista político Ghassan Al-Khatib- e nossa gente segue alimentando fortes suspeitas em relação à política e a ação militar dos Estados Unidos no mundo".
Al-Khatib está convencido de que os dirigentes palestinos devem "fazer referência à solidariedade internacional ao povo de Kosovo para reclamar o respeito aos direitos dos palestinos".
Mas o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Yasser Arafat, que realiza consultas políticas urgentes em vários países sobre a necesidade de adiar por alguns meses a proclamação do Estado independente nos territórios, mantém sobre a crise de Kosovo uma atitude de cautela.
Em contraste, quem não têm dúvida em denunciar "os massacres perpetrados pelos sérvios contra os muçulmanos kosovares" são os integristas islâmicos, que já organizaram manifestações populares nos territórios.





