Nova York (AE-NEWSWEEK) - Sentado para sua última refeição, em meio aos amentilhos e junças à beira do antigo lago, o homem frágil se contorcia de dor agonizando.
Uma fratura em sua têmpora direita ainda estava cicatrizando, abcessos profundos em suas gengivas provocavam pontadas de dor dentro de seu cérebro. Apesar disso, aos 40 e tantos anos, ele era um sobrevivente, um longevo para o seu povo. Mas, logo depois que terminou de comer a carpa cozida, que ele havia pescado na rede num riacho, no local que hoje é o estado americano de Nevada, sentiu que suas forças se esvaiam como uma maré vazante. Deitou-se no chão. Dentro de algumas horas estava morto, vitimado pela septicemia provocada pelo abcesso dental.
Quando sua gente o encontrou, envolveu suavemente seu corpo num manto feito de pele de coelho amarrando a ele seus mocassins de couro costurados com embiras - eram suas posses, conquistadas de suas presas. Ele as tinha remendado duas vezes com pele de antílope e preso em seu calcanhar direito e no dedo do pé. Com certeza, ele queria que essas posses estivessem com ele aonde quer que fosse. Seu povo cavou uma sepultura rasa sob uma proteção de pedra, forrou-a com esteiras de junco e o depositou ali dentro. Cerca de 9.400 anos depois, alguns antropólogos o descobririam. Eles lhe dariam o nome de "Spirit Caveman" (Homem-Espírito da Caverna).
Os arqueólogos supunham que ele não deveria estar ali. Spirit Caveman é o cara errado, no lugar errado, no momento errado. Segundo o "script" da antropologia-padrão, qualquer ser humano que tenha vivido na América há 9.000 anos deve parecer-se ou com os americanos nativos de hoje ou, no mínimo, com asiáticos que foram seus ancestrais e, consequentemente, os americanos originais, de acordo com o que se supunha. Mas o Spirit Caveman não segue esse "script" - nem ele nem mais de uma dúzia de outros esqueletos de americanos da Idade da Pedra.
Em conjunto, esses "aberrantes", não ajustados ao padrão, provocaram um vivo debate: Quem foram os primeiros americanos?
A resposta que está surgindo sugere que os que que cruzaram uma ponte de terra e migraram para o Alasca há 11.500 anos não eram asiáticos de tipo mongoloide, como dizem os livros de texto
mas sim diferentes grupos étnicos, vindos de lugares muito diferentes daqueles que os cientistas supunham ainda há poucos anos. Mais do que isso: utensílios de pedra, fornos e restos de moradias, desenterrados em regiões que vão desde o Peru até Carolina do Sul, sugerem que a América da Idade da Pedra era um lugar bastante povoado para ser uma terra que se supunha estar vazia até que esses asiáticos saíssem da Sibéria atrás de rebanhos e grandes animais de caça e chegassem ao Alasca.
Uma crônica muito diferente dos Primeiros Americanos está portanto surgindo do choque de teorias e descobertas que um antropólogo chama de "guerra de crânios". Segundo provas fornecidas por pedras e ossos, muito antes que a Ellis Island (ilha na Baia de Hudson, em Nova York) abrisse suas portas (aos imigrantes), a América era uma verdadeira Coalizão do Arco-Iris de tipos étnicos, povoada por sul-asiáticos, leste-asiáticos - e até mesmo, talvez, por europeus da Era Glacial, que podem ter navegado bem próximo dos lençois de gelo, com seus caiaques de pele de animais, para chegar à América milênios antes que ela aprecesse como um lampejo aos olhos do navegador norueguês Leif Ericson. "Para mim é muito claro que estamos vendo múltiplas migrações através de um período de tempo muito longo - migrações de diferentes povos de muitas origens étnicas diferentes", disse o antropólogo Dennis Staanford, da Smithsonian Institution..
A história-padrão do povoamento das Américas afirma que migrantes do Nordeste da ásia se espalharam como um leque através das Grandes Planícies, rumando para o Sudoeste e eventualmente para o Leste, para se tornarem as populações fundadoras dos Americanos Nativos de hoje.
Pontas de lança de pedra, encontradas em Clovis, Novo México, na década de 1930, foram datadas de 11 mil anos atrás e saudadas como uma prova do mais antigo asssentamento humano no Novo Mundo. A história era tão metódica que qualquer esqueleto que parecesse desafiar este "modelo Clovis" era rejeitado pelos mandarins da antropologia americana; qualquer ferramenta de pedra que parecesse mais antiga do que as de Clovis era rejeitada como peça mal-datada. Clovis manteve uma influência opressora sobre a arqueologia americana; James Adovasio, do Mervyhurst College, na Pennsylvania, chama seus defensores de "a máfia de Clovis".
O pequeno grupo de caçadores-coletores montava seu acampamento de verão às margens dos rios, na ponta norte da região através da qual perseguiam animais de caça sazonais. A localização, a 72 quilômetros a sudeste do que agora é Richmnond
Virginia, era ideal: os ventos do norte impediam a infestação dos insetos voadores. Alguns membros do grupo passavam os dias arrancando de rochas lascas finas e compridas de quartzo; outros faziam pontas triangulares e pentagonais de lança para a caça. Foi a 15.050 anos atrás. Os anteriormente chamados "Primeiros Americanos" só iriam fazer sua caminhada através do Estreito de Behring há 3.500 anos atrás.
Agora existem nos gabinetes de estudo esqueletos demais para serem ignorados. Barrados por uma lei federal de 1990, que exige que os museus devolvam os restos de americanos nativos às suas tribos, os cientistas, chamados para determinar quem pertence a quem - reuniram um banco de dados de "perfis craniométricos". Cada um dos 2.000 ou mais perfis consiste de aproximadamente 90 medidas cranianas - como a distância entre os olhos, que indica a linhagem. No caso da maioria dos esqueletos, podia-se dizer diretamente que era de um Hopi ou de um Crow (tribos indígenas). Mas alguns crânios de destacam como primos, de cabelos afogueados e pele pálida, numa reunião de família de morenos de pele cor de oliva. O mais antigo americano encontrado até agora, um esqueleto de 11.500 anos, do Brasil Central, se parece com sul-asiáticos e australianos, como informou o antropólogo Walter Neves, da Universidade de São Paulo. Um crâneo de Lime Creek, Nebraska, e dois de Minnesota - todos de 7.840 a 8.900 anos - se parecem com sul-asiáticos ou europeus.
Aqui vão alguns dos outros "aberrantes", que não se ajustam ao "padrão": A Mulher de Buhl, encontrada em 1989, que morreu há 10.600 anos com 19 anos de idade mais ou menos. "Ela não se enquadra em nenhum grupo moderno", disse o antropólogo Richard Jantz, da Universidade de Tennessee, "mas é muito semelhante aos polinésios de hoje".
O Spirit Caveman traz menos semelhanças com os ameríndios do que com qualquer outro grupo étnico, com exceção dos boximanos africanos. Seu rosto não é achatado ou largo, seu nariz não é estreito - todos esses são traços de ameríndios. "Ele não mostra afinidade com nenhu exemplar de ameríndio (que nós usamos)", concluem Jantz e Douglas Owsley, do Smithsonian. Em vez disso, com sua cabeça comprida, seu nariz largo, a face proemiente e o queixo vigoroso, ele se parece com os aborígenes Ainu, do Japão, ou com outros asiáticos orientais.
O Kennewick Man (Homem de Kennewick), encontrado no dia 28 de julho de 1996 por dois estudantes universitários que assistiam a uma corrida de hidroplanos no Rio Columbia, no estado de Washington, não se parece quase nada com um americano nativo. Sua face é estreita, seu nariz proeminente, a mandíbula superior ligeiramente protuberante e sua caixa craniana é estreita. Embora as primeiras informações o tenham descrito como um caucasoide ou ainda um europeu (o que levou a Assembléia do Povo Aratru, seguidores de uma antiga religião nórdica, a reivindicar a sua posse), de fato o homem, de 8.000 anos, se parece mais com um cruzamento entre os Ainu e os polinésios.
Ao que parece, a América era um mosaico de povos e culturas há 11 mil anos. Baseados em seu estudo de 11 crânios antigos, Owsley e Jantz concluem num artigo a ser publicado no American Journal of Physical Anthropology, que a América era habitada por "pelo menos três grupos distintos... Nenhum dos fósseis (com uma única exceção) demonstra qualquer particular afinidade com os americanos nativos modernos... As medições cranianas se afastam dos amerindios contemporâneos, frequentemente na direção de europeus ou sul-asiáticos". Uma das explicações para a falta de uma semelhança familiar entre os mais antigos americanos e os amerindios de hoje é que os americanos originais podem ter simplesmente mudado de aparência no decorrer de varias gerações. "A gente poderia esperar que eles tivessem uma aparência diferente", disse o antropólogo David Hurst Thomas, do Museu Americano de História Natural. "Eles estão separados por 9.000 anos de evolução". Uma explicação mais radical seria de que os Primeiros Americanos - talvez vindos da Polinésia, talvez da Europa - não deixaram descendentes. Em outras palavras, sejam quem forem os que teriam chegado aqui primeiro, não foram eles os ancestrais dos Pequot, dos Shoshone e de outras tribos de hoje. Ao invés, eles foram apagados por outros, que chegaram mais tarde e que ou fizeram guerra ou fizeram amor: matando-os ou se casando com eles. O Kennewick Man, por exemplo, tinha uma ponta de lança de pedra em seus quadris. Sua conformação sugere que ele procedia do que os cientistas chamam de a "cultura da Cascata", pessoas que estavam começando então a se mudar para aquela área. "Pode ser um sinal de conflito étnico", diz o antropólogo James Chatters, que foi a primeira pessoa a inspeccionar o K.Man.
A possibilidade de que os americanos nativos de hoje não sejam os descendentes dos americanos originais não está sendo aceita facilmente. "Se vocês disserem aos americanos nativos que eles não foram os primeiros", disse Thomas, "estarão arranjando encrenca". Essa conclusão, mesmo que seja comprovada
não tem ramificações legais diretas para as conquistas já realizadas a duras pelos americanos nativos, como o direito de pescar em águas ancestrais e o direito de estabelecer cassinos. "Mas poderá ser simplesmente um passo prévio para começar a reverter a legislação", adverte Thomas. Alguns norte-americanos estão incomodados com a nova e recente riqueza de algumas tribos e "se as descobertas transformarem os americanos nativos de hoje em apenas mais um grupo de "emigrantes" da Ellis Island, será dificil que eles preservem sua soberania".
Alguns americanos nativos já estão protestando contra esta linha de pesquisa. Os Shoshone-Bannock exigiram a custódia da Mulher de Buhl e tornaram a sepultá-la. Os Paiute do Norte estão pedindo que o Spirit Caveman seja enterrado novamente e os Umatilla, de Washington, querem o Homem de Kennewick. "Sabemos que nosso povo fez parte desta terra desde o início dos tempos"
declarou Armand Minthorn, líder religioso Umatilla. "Os cientistas acreditam que, devido ao fato de que a medida da cabeça do Homem de Kennewick não se ajusta à nossa, ele não é um americano nativo. Nossos anciãos nos disseram que os indígenas nem sempre se parecem conosco, os índios de hoje".
"O grupo ...rejeitou o quartzo nas jazidas próximas e caminhou para o outro lado do Green River (Rio Verde), onde é agora Wyoming e Utah, chegando até o Bighorn, no Norte, 960 quilômetros mais distante. Ali eles encontraram a obsidiana e o cristal de quartzo que costumam modelar para fazer pontas de pedra e lascas - que nunca usam. Ao invés, eles costumam enterrar suas provisões numa camada de ocre vermelho compacta. Seus vizinhos tinham preferências igualmente fortes, mas para eles a busca não era por materiais exóticos, mas por fontes imbuidas de significação espiritual. Rejeitando o quartzo local, eles escalavam os altos picos para cortar o jasper vermelho encontrado a 9.000 pés e lascá-lo para fazer ferramentas de pedra que eles tambem escondiam sem usar. As pedras que jazem mais perto de seus deuses costumam ser uma oferenda apropriada".
Durante anos, nenhuma autoridade aceitaria qualquer desvio da "linha do partido", segundo a qual os primeiros americanos foram o povo de Clovis, que existiu há 11 mil anos. Mas, em 1977
o arqueólogo Tom Dillehay, da Universidade de Kentucky, começou a escavar um local arqueológico profundo nas chamadas colinas de Monte Verde, no Chile.
Ali viveram cerca de 30 caçadores-coletores, ao lado de um riacho, 56 quilômetros para o interior em relação ao Pacífico, até que o crescimento de uma turfeira os obrigou a sair da área - e preservou o local como a cinza vulcânica que caiu sobre Pompéia. O grupo morava em estruturas baixas, parecidas com barracas, presas com cordas e cobertas com cascas de árvores e pele de mastodontes para evitar a água da chuva, diz Dillehay. Fora, havia as áreas de trabalho e os buracos forrados com barro onde se acendia o fogo . Uma cabana separada das outras pode ter servido como uma espécie de páleo-hospital ou como um Studio 54 da Idade da Pedra: dentro, Dillehay encontrou cinco pedaços mascados de folhas de boldo, que contem um analgésico e um alucinógeno suave. O boldo era claramente valorizado: o suprimento mais próximo de boldo estava a mais de 160 quilômetros ao norte, por isso, ou alguém fazia uma longa caminhada ou se realizavam trocas com moradores distantes.
Desmentindo a imagem dos americanos originais como caçadores que dedicavam todo o seu tempo à caça de grandes animais, os habitantes de Monte Verde comiam uma dieta variada: mexilhões de água doce e lagostins, batata selvagem, frutas e nozes, pequenas caças como pássaros que eles derrubavam com pedras e, ocasionalmente, comiam carne de mastodontes que eles abatiam com suas lanças temperadas a fogo. Mas o que destruia o paradigma, a teoria unanimemente aceita, era isto: Monte Verde era habitada há 12.500 anos - 1.000 anos antes que os americanos originais teriam supostamente atravessado em grandes grupos o Estreito de Behring.
Durante anos, os arqueólogos rejeitaram as afirmaçõess de Dillehay. Em conferências científicas, ele lembra que "os outros costumavam ser apresentados como doutor tal ou doutor qual. Eu era sempre "o cara que está escavando Monte Verde". Algumas pessoas nem mesmo me apertavam a mão".
Pior ainda, o modelo Clovis tinha tanta influência que os cientistas "costumavam escavar até atingir o nível de Clovis e simplesmente paravam ali". Poucos procuravam ossos e ferramentas mais velhas. Quatro ou cinco possíveis sítios arqueológicos pré-Clovis na América do Sul nunca foram registrados porque os cientistas temiam que, fazendo isso, prejudicariam sua reputação.
Isso mudou há dois anos, quando, finalmente, os especialistas em arqueologia aceitaram que Monte Verde tinha realmente 12.500 anos.
Abriram-se as comportas. Sítios arqueológicos anteriormente rejeitados como mal-datados estão sendo reexaminados. Em Meadowcroft Rockshelter, em Avella, Pensylvania, por exemplo, onde durante 26 anos Adovasio escavou sob uma saliência rochosa, 43 pés acima do solo, os cientistas estão agora reconsiderando sua afirmação de que o carvão, as ferramentas de pedra e o material tecido, ali sepultado, têm pelo menos 14.000 anos e possivelmente 17 mil anos. Em Saltville, no oeste de Virginia, os arqueólogos estão estudando o que pode ser uma "festa de mastodonte" da Idade da Pedra. Instrumentos de pedra e de ossos (inclusive um polidor de marfim), ossos de mastodonte e rochas explodidas ao longo da antiga margem de um rio foram desenterrados de uma camada que pode ter 14 mil anos. Saltville tem antecedentes famosos: um amigo enviou a Thomas Jefferson um dente de mastodonte encontrado no local em 1782.
Jefferson era tão curioso em relação à pré-história da America que, quando despachou Lewis e Clark para examinarem o Oeste, pediu-lhes que procurassem sinais de assentamentos primitivos. Ele pode ter tido a sua curiosidade satisfeita. Os arqueólogos liderados por Michael Johnson interromperam as escavações em Cactus Hill, na Virginia, quando encontraram o material de Clovis, datado de 10.920 anos, a três pés de profundidade. Mas, como a teoria dos Primeiros Americanos estava mudando sob seus pés, eles resolveram cavar mais fundo - e se depararam com lâminas de pedra e núcleos de pedra (os blocos de pedra dos quais eram arrancadas as lascas) numa camada de 15.050 anos.
"Isto me parece um bom candidato para um precursor de Clovis", disse Stanford, do Smithsonian. Como Johnson, o arqueólogo Albert Goodyear, da Universidade de Carolina do Sul, nunca havia sentido muita necessidade de escavar abaixo da camada de Clovis em seu sítio arqueológico de Topper no Rio Savannah. Mas , no ínicio deste ano, ele e seus colegas encontraram, abaixo da camada de Clovis, lâminas e lascas de pedra às vintenas em camadas situadas três pés abaixo, - uma profundidade que, segundo ele calcula, corresponde a mais de 12.000 anos. "Estas são provas muito subtanciais", disse Goodyear, "de que as pessoas estiveram aqui muito tempo antes do que nós pensávamos".
E elas podem ter vindo de algum lugar que nenhum cientista teria se arriscado a imaginar há apenas alguns anos: uma Conexão Francesa.
Existem notáveis semelhanças entre os instrumentos de pedra atribuídos à cultura Clovis, nas Américas, e as ferramentas de pedra atribuídas à chamada cultura Solutreana, da França e da Península Ibérica. Ambas faziam bastões chanfrados e hachurados, observa o arqueólogo Bruce Bradley. Ambas faziam pontas de lança peculiares de marfim de mamute.
Ambas faziam raspadores ou desbastadores de pedra triangulares.
Sim, dois povos separados podem ter inventado a mesma coisa, como observa David Meltzer, da Universidade Metodista do Sul: "Estas semelhanças podem representar o encontro da mesma resposta para o mesmo problema" de matar e retalhar a carne dos animais de caça. Mas existe um senão. "Os mais antigos desses instrumentos na América", diz Bradley "estão no Leste e no Sudeste, não no Sudoeste" - onde eles deveriam estar, se o povo de Clovis veio aos poucos a esta região proveniente da Sibéria e depois se espalhou pelo continente. E, como as geleiras só se retiraram da secção central da América há 11.500 anos, quem quer que tenha morado na orla marítima oriental antes dessa época deve ter vindo do Leste, e não do Estreito de Behring.
Como? Cruzar o Atlântico aberto teria representado um desafio talvez insuperável, muito embora as pessoas tenham viajado em barcos desde o sul da Asia para a Austrália há pelo menos 40 mil anos. "Não damos muito crédito às pessoas antigas", diz Stanford. "Ora, elas viviam em cavernas - mas também eram muito inteligentes". Bastante inteligentes, talvez, para terem navegado ao longo das camadas de gelo e dos blocos sazonais de gelo que se estendiam pelo oceano desde a Inglaterra até a Nova Escócia. "Elas poderiam ter feito isso se tivessem enfrentado as gelerias em busca de focas e aves aquáticas", diz Johnson. Elas teriam visto aves migratórias voando para o oeste; elas teriam sabido que havia terras nuela direção". Da mesma forma, os asiáticos que chegaram à America vindos do Oeste podem ter sido tambem homens do mar.
"Bem dentro das escarpadas terras altas, a 450 pés acima do Amazonas, os habitantes de Caverna da Pedra Pintada não se parecem em nada com o estereótipo dos Primeiros Americanos considerados caçadores de grandes animais, vestidos com peles de bisontes. Este grupo retirava seu sustento do rio e da floresta, alimentando-se de tartarugas, rãs, cobras, peixes e mexilhões de água doce como também de castanhas do Pará e coquinhos de palmeiras. E fizeram mais. O solo da caverna está forrado de respingos de tinta vermelha e amarela com base no ferro, que pingaram há 11 mil anos. Os artistas da Idade da Pedra criaram exuberantes cenas de cobras e outros animais e mesmo marcas de mãos - desenhos, assinaturas? - inclusive de crianças".
"Estamos reescrevendo os livros de texto sobre os Primeiros Americanos", disse Stanford. A nova edição mostrará que "o povoamento das Américas nunca foi tão simples quanto diziam os simplórios modelos". Ao invés, o novo texto nos falará de uma América que atraiu vastas populações, muito antes do Mayflower ou da Santa Maria ou dos barcos dos vikings, como um continente desconhecido, tão atraente que homens e mulheres, dotados de uma tecnologia não mais sofisticada do que pedras ásperas, enfrentaram a tundra siberiana e os blocos de gelo do Atlântico para chegar até lá. É ainda o Novo Mundo. Mas milhares de anos mais velho do que nós pensavamos - lugar de moradia de colonizadores tão diversos que mesmo milênios atrás, já era o caldeirão de raças do mundo.

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