Os perigos da automedicação
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quinta-feira, 04 de maio de 2017
Viviani Costa<br>Reportagem Local 

Digitar sintomas de doenças na internet em busca de diagnósticos tem se tornado uma prática comum que exige cautela. Na ânsia do paciente em eliminar as dores, o "Google" tem substituído a orientação de profissionais na área da saúde. É o que aponta o estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico (ICTQ). Segundo o levantamento, aproximadamente 72% dos brasileiros optam pela automedicação e 40% procuram diagnósticos pela internet.
A pesquisa foi realizada em abril do ano passado e teve a participação de 2.340 pessoas que responderam questionários em 16 capitais do País. Ao todo, 94% das pessoas consultadas em Belém (PA) disseram que recorrem a automedicação. O índice foi o maior entre as capitais escolhidas para a realização da pesquisa. João Pessoa (PB) ocupou a segunda posição com 88%, seguida de Fortaleza (CE), com 85%. Curitiba e Vitória (ES) ficaram em sétimo lugar com 73%.
Para o farmacêutico clínico e pesquisador do ICTQ, Ismael Rosa, os dados são preocupantes, já que muitos se esquecem dos riscos e malefícios que podem ser causados pela administração incorreta das doses. "Medicamento não é isento de toxicidade, não é isento de reações adversas. Para que o medicamento se torne um veneno, basta que você altere a dose", alerta.
Analgésicos, anti-inflamatórios e antialérgicos foram citados como os mais consumidos pelos que ignoram a orientação profissional. Até mesmo antibióticos e ansiolíticos (tarja preta), com venda restrita apenas a quem apresenta receita médica, são adquiridos facilmente por quem se automedica.
Conforme o pesquisador, entre os que disseram utilizar a internet para obter um diagnóstico, 42% eram mulheres, 53% estavam na faixa etária entre 16 e 24 anos e 54% pertenciam à classe B. "Você coloca lá 'dor de cabeça' e isso é sintoma para milhares de doenças. Você encontra de tudo e inclusive muitos dados sem referência. As pessoas comuns não têm formação suficiente para interpretar aquele dado. É preciso procurar os profissionais de saúde como médicos ou farmacêuticos", ressalta.
A monitora de trânsito Amanda Silva mantém uma pequena farmácia em casa, mas, na dúvida sobre qual remédio ingerir, ela recorre ao farmacêutico. "É muito raro eu pesquisar os sintomas na internet e comprar o remédio. Fico com medo. Vai que não é uma informação confiável?", questiona. O contador Wanderlei Maturana também adota a automedicação. Porém, com dores constantes causadas por uma hérnia de disco, o excesso de anti-inflamatório deu origem a outro problema. "Estou com consulta marcada para amanhã. Agora fiquei com dor de estômago, pode ser gastrite", lamenta. Já a atendente Aline Sales garante que só toma remédios por conta própria "quando a dor é muito forte". "Tenho alguns medicamentos em casa mais por causa das crianças. É difícil porque, em alguns casos, se você decidir procurar um médico ou perde o dia inteiro e consegue a consulta ou espera muito e nem é atendido", justifica. A superlotação dos pronto atendimentos e hospitais foi o motivo mais citado para defender a automedicação.

RISCOS
Segundo dados divulgados pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), 17.969 casos de intoxicação causada por medicamentos foram registrados desde 2012 no Paraná. Pessoas entre 20 e 49 anos corresponderam a mais da metade das vítimas. No Dia Nacional do Uso Racional de Medicamentos, o Conselho Regional de Farmácia do Paraná (CRF-PR) realiza uma campanha para conscientizar os usuários sobre a importância da orientação profissional na hora de adquirir os produtos. O farmacêutico e gerente técnico científico do Conselho Regional de Farmácia (CRF-PR), Jackson Carlos Rapkiewicz, lembra que o uso inadequado das doses pode mascarar sintomas iniciais de doenças graves e ainda causar efeito colateral.
"Tem medicamento que não pode ser usado por asmático, por exemplo. Há um tempo teve o caso de um instrutor de autoescola que indicou um medicamento para que a aluna ficasse mais calma. Ela era asmática e morreu. Ela teve uma dificuldade respiratória, foi internada na UTI e acabou falecendo. Outro exemplo: medicamentos para acne e controle de espinhas podem ser contraindicados para mulheres grávidas. Muitas vezes, a pessoa não vai associar que o medicamento para tratar um problema de pele pode causar má-formação no bebê. Nós não somos contra a automedicação, mas ela deve ser feita com o auxílio profissional", alerta.
O gerente técnico científico do CRF-PR lembrou ainda que corticoides, quando utilizados de forma prolongada, pode gerar complicações como o enfraquecimento dos ossos, ainda que seja apenas um creme sobre a pele. O descarte correto de medicamentos vencidos e a compra fracionada também estão entre os temas que serão abordados nesta sexta-feira. Em Londrina, as equipes estarão no Calçadão das 8h às 12h para esclarecer as dúvidas da população. Serviços gratuitos de aferição da pressão arterial e verificação de glicemia também serão ofertados.


