Nova York (AE-NEWSWEEK) Segundo a maioria dos critérios, Bill Frantz está-se saindo às mil maravilhas. Com 31 anos de idade, ele é eletrotécnico na General Motors, a maior corporação dos Estados Unidos. Em Detroit, um salário anual de US$ 60 mil é mais que bom. Ele tem dois carros, incluindo um querido Alfa Romeo, e vai fazer mergulho com equipamento individual em Cancún
em julho. Mas algo o inquieta. Seu amigo, que recebeu aumento salarial de 30% para ir para a Califórnia e trabalhar num emprego de alta tecnologia com opções para compra de ações. Seu amigão com o barco de 32 pés de comprimento. Gente por toda parte parece estar faturando, e as idéias de Frantz sobre o sucesso estão mudando. "Se eu não conhecesse mais nada, estaria perfeitamente feliz com o que faço", diz.
"Mas me incomoda ver meus colegas, gente das minhas relações
gente da minha idade, sair-se melhor que eu. A gente começa a ficar descontente." Muitos entre nós sabem o que ele quer dizer. Passamos por um dos maiores períodos de florescimento econômico da história dos EUA - no entanto, muitos de nós se acham um pouco amuados. É possível que você conheça alguém que acertou em cheio - apostando a tempo em algum tipo de ações em alta, agarrando um punhado de opções para compra de ações da empresa em que você trabalha ou talvez entrando para uma firma que opera na Internet e vai abrir seu capital. De repente, eles pagam em dinheiro por carros e casas onde passam os fins de semana, planejam aposentadoria precoce e revelam muito naturalmente que têm as "duas vírgulas", abreviação atual do milhão. Anúncios incutem nas mentes a noção de que existe dinheiro fácil de ganhar: Há o motorista de caminhão nos anúncios de corretagem Discover que deixou seu emprego e agora possui uma ilha, e o sujeito de sorriso afetado num novo anúncio da Forbes.com que "não é nenhum assalariado, nenhum velho de ceroulas, nenhum diretor-executivo bilionário no papel." Nas livrarias você encontrará o livro best seller "O Milionário Seu Vizinho" dividindo o espaço da prateleira com "Os Milionários do Outro Lado da Rua".
O mercado acionário em alta, incentivado pelo cyberboom, é uma festa pré-milênio que confirma o Sonho Americano. O único problema é que alguns de nós parecem não encontrar nossos convites para a festa. E toda esta nova riqueza cria uma sensação de incômodo e espanto entre os que, como nós, não sabem entrar em contato com nossos magnatas que estão por dentro. A velha estrada que leva ao sucesso - a transpiração e a perseverança - já não parece tão nítida. Nesta Era das Expectativas Bizarras, até Horatio Alger pode ser tentado a negociar ações on-line.
Não é tanto um sentimento de inveja - afinal, sempre houve gente rica por aí -, mas a aguda sensação de que estamos deixando passar a chance.
Na nova Pesquisa Newsweek, 67% das famílias americanas que ganham de US$ 30 mil a US$ 49 mil dizem que não estão aproveitando o boom do mercado acionário. E 71% dos americanos dizem que não têm chances de enriquecer em seus empregos atuais. Mas 72% também dizem que sentem mais pressão social para comprarem casas maiores e carros mais chiques para ficar à altura dos vizinhos. E quase a metade das pessoas que ganham US$ 50 mil ou mais por ano diz que conhece alguém que enriqueceu. "Nada é mais desconcertante do que as opções de outras pessoas para compra de ações", diz Richard Cohan, psicólogo clínico em Berkeley, Califórnia. Recentemente, Cohan saiu à procura de uma casa e descobriu que muitas pessoas estavam pedindo 20% a 30% acima do preço de mercado - fazendo-o sentir-se um estranho em seu próprio bairro. "É difícil evitar o desejo secreto e horrível de ver o mercado quebrar", diz.
Não é só a impressão de que um número maior de pessoas está enriquecendo mais - é a realidade. O número de milionários está de fato crescendo com rapidez. Entre 1995 e 1998, surgiram cerca de 1 milhão de novos milionários, segundo Edward N. Wolff, professor de economia na Universidade Nova York (entre 1989 e 1995, o número de famílias com tal riqueza permaneceu relativamente estável, pouco acima de 3 milhões. A turma das três vírgulas também está aumentando. A revista "Forbes" prevê que sua lista dos 400 americanos mais ricos, a sair neste segundo semestre, vai incluir cerca de 250 bilionários, ou mais 60 em relação à do ano passado.
Alguns desses lucros conseguidos com papéis vão virar fumaça quando o mercado altista finalmente for torrado. E o mercado pode estar na iminência de um leve tombo; é generalizada a previsão de que o presidente do Fed (o banco central dos EUA), Alan Greenspan, vai elevar as taxas de juros. Mas futuras dores de cabeça não conseguem apagar as manchetes que nos trazem histórias sobre executivos de algumas empresas recém-fundadas - Priceline.com, TheStreet.com, theglobe.com - que enriquecem da noite para o dia. Claro que não é da noite para o dia: Muitos espíritos empreendedores que fizeram sucesso contam histórias dos anos de vacas magras, das horas incrivelmente longas e das idéias em que pouca gente acreditou a princípio. Mas a economia da Internet transformou essas histórias em vídeos a que convém assistir com o polegar no botão de avanço rápido do aparelho. Veja-se o caso de Todd Krizelman e Stephan Paternot que em 1994, quando frequentavam o terceiro ano de faculdade em Cornell, tiveram uma grande idéia.
Levantaram US$ 15 mil com amigos e parentes e lançaram theglobe.com, o site na Web onde os usuários podem mandar e-mail
entrar em grupos de bate-papo e criar suas próprias home pages. Os fundadores, ambos de 25 anos, abriram o capital da empresa no segundo semestre do ano passado. Valor de sua participação acionária: cerca de US$ 35 milhões cada.
Numa era anterior - os agitados anos 80 -, muitos americanos tendiam a transformar em vilões tais arrivistas. Mas os que enriquecem de repente já não são bichos-papões como Gordon Gekko
o protagonista falso de "Wall Street", de Oliver Stone. Até que enfim os ricos são ( "são" em itálico no original) muito parecidos conosco: uma versão idealizada de nós mesmos. Se antigamente respeitávamos a ética de trabalho de Alger, muitos de nós agora admiram a inteligência dos que enriquecem depressa, e torcem pela chance de se tornar um deles. "É a primeira vez no pós-guerra que tanta gente parece estar enriquecendo com tão pouco esforço relativo de sua parte", disse Robert B. Reich, ex-secretário do Trabalho e agora professor na Universidade Brandeis. "Ao menos na aparência, a antiga ética de trabalho virou de pernas para o ar." O que mudou mais profundamente não foi o número dos novos-ricos, mas a fórmula para se tornar um deles. A riqueza e a sensação de segurança dos americanos, antes fruto de uma longa carreira de ascensão profissional, tornaram-se mais sujeitas ao acaso. O momento certo e a sorte nunca tiveram tanta influência no enriquecimento. Muitos americanos sentem-se mais ricos hoje em dia, não porque seus cheques salariais engordaram, mas porque seus pés-de-meia estão dando rendimento de dois dígitos. Números recordes agora rolam no mercado: De 1989 a 1995, o porcentual de famílias que possuíam ações saltou de 31,7% para 41,1%. E, com a Média Dow Jones parecendo que não parará de subir - elevou-se 376% desde 1990 -, até os novatos de Wall Street podem sentir-se Senhores do Universo.
Nenhum fenômeno distribuiu mais a riqueza - ou a fez parecer mais aleatória - do que as opções para compra de ações. As opções surgiram no final dos anos 80 como meio de vincular a remuneração dos maiores executivos ao desempenho das ações. Firmas do Vale do Silício deram-nas à maioria dos funcionários para compensar os baixos salários pagos por uma empresa recém-fundada ou contrabalançar as longas horas trabalhadas. Agora as opções estão distribuídas por toda a cadeia alimentar das companhias, não se limitando aos enclaves de alta tecnologia. As opções tornaram-se tão versáteis quanto o canivete multiúso: podem atrair funcionários, mantê-los na empresa e motivá-los a trabalhar mais. Cerca de 6 milhões de trabalhadores abaixo do nível dos executivos agora recebem opções para compra de ações, segundo a Employee Stock Ownership Plan Association of America. Recente pesquisa em 350 grandes companhias, feita pela firma de consultoria William M.
Mercer, mostrou que mais de um terço delas tinha planos de opção para compra de ações que abrangiam a maioria de seus empregados - o dobro do número registrado cinco anos atrás.
Vocês já ouviram falar dos Milionários Microsoft que enriqueceram com suas opções para compra de ações. Mas Atlanta tem legiões de milionários Home Depot e Coca-Cola. A riqueza gerada pelas opções propaga-se pela Silicon Alley de Nova York, por meio de outros centros de alta tecnologia em todos os EUA e também em companhias tradicionais como a GM e a Ford. "Nunca sequer sonhei com algo tão grande", diz Vern Joslyn, de 47 anos
milionário de dois dígitos por causa de suas opções para compra de ações da Home Depot. Joslyn era assistente de gerenciamento de estoques na Bowater Home Center, em Mobile (Alabama), em 1984
quando a Home Depot comprou a loja. Ele nem sabia o que eram opções para compra de ações. Mas, com as ações da Home Depot valorizando-se rapidamente, as opções de Joslyn ajudaram-no a comprar sua primeira casa e mobiliá-la. Ele subiu no escalão administrativo e é agora presidente do grupo para a divisão nordeste da Home Depot. Joslyn diz que é econômico, mas deu-se o luxo de comprar recentemente seu primeiro Mercedes. "Entrei na revendedora de short, sandália e camiseta, e o cara foi meio grosseiro comigo. Ele olhando para minhas roupas e falando: Fechamos em 15 minutos. Respondi: Vocês aceitam pagamento em dinheiro? Adoro isso." A loucura do mercado acionário transforma devaneios em possibilidades concretas. Poucos anos atrás, Steve Markowitz, agora com 28 anos, fundou a Mypoints, firma que oferece aos compradores via Internet o equivalente a bonificações em quilômetros por frequência de vôo. No ano passado ofereceram-lhe US$ 80 milhões pela empresa, o que faria sua participação valer US$ 4 milhões. Mas, com o valor de tantas companhias que operam via Internet chegando à estratosfera, as expectativas de Markowitz mudaram. "Houve um tempo em que eu achava que US$ 1 milhão ou US$ 2 milhões seriam um grande rendimento sobre o que investi em tempo e energia montando a empresa", diz Markowitz, que mora em Berkeley, Califórnia. "Agora até chego a rir desse montante." E qual o limite agora? "Na faixa dos US$ 10 milhões a US$ 100 milhões." Ele planeja abrir o capital de sua empresa no próximo mês, e o potencial do rendimento é muito maior - US$ 10 milhões. Isto, se o preço das ações continuar estável.
Histórias como a de Markowitz têm motivado uma leva de funcionários a sair de grandes corporações. Além dos polpudos pacotes de opções, muitos querem fincar uma bandeira nalgum pedaço virtual do ciberespaço (e colher as recompensas financeiras potencialmente muito maiores que os pioneiros julgam merecer). Recentemente, a Disney perdeu muitos executivos de alto escalão para empresas que operam via Internet. Joe Kennedy, o executivo apontado como responsável por grande parte do sucesso dos carros Saturn, deixou recentemente a GM ao fim de 18 anos e entrou para a E-loan como seu chefe de marketing. Ele diz que na divisão Saturn da GM tinha o melhor emprego do mundo empresarial americano e, com um salário anual de US$ 500 mil, seus objetivos financeiros seriam alcançados. Mas Kennedy aceitou ganhar menos em troca de uma considerável participação acionária na E-loan e uma renda potencial maior. "As pessoas perguntavam: É uma boa companhia? Qual a remuneração, quais os benefícios? Nesta nova economia, a preocupação maior é saber se a companhia vai mesmo ter êxito, se vai ser um negócio garantido." Para os recém-diplomados em faculdades, tudo é como ser criança num carnaval. E, com as expectativas na estratosfera
as grandes carreiras do passado já não motivam. Jonathan Saunders, que faz estudos sobre iniciativa empresarial no Babson College em Boston, faz preparativos para lançar a Puffalumpf Toys, firma de brinquedos produzidos sob medida que tem presença marcante na Internet. Mas, mesmo antes que esta saia da fase de organização, Saunders já pensa no negócio seguinte.
"Sou mais um espírito empreendedor em série que monta o negócio, vende-o ou abre seu capital e parte para uma nova idéia. Tenho uma idéia nova a cada semana." Portanto o que há de errado nas grandes expectativas? Afinal de contas, esta é uma época de prosperidade. O mercado acionário gerou trilhões de dólares em ganhos na última década. O índice de desemprego é baixo. O número de casas próprias cresce. O desnível de renda continua sendo um problema incômodo, mas a riqueza se redistribui cada vez mais porque as empresas dão participação acionária maior aos trabalhadores. E, enquanto todo mundo começa a pensar num plano empresarial próprio via Internet, isto acompanha o ritmo da inovação.
Mas histórias sobre enriquecimento da noite para o dia também podem despertar muitas esperanças vãs - a respeito de tudo, desde o dinheiro que as pessoas pensam que deviam ganhar até a idade em que planejam aposentar-se. Recente pesquisa de opinião com 281 universitários do 1º ao terceiro ano de faculdade mostrou que 61% deles acham que se aposentarão quando tiverem entre 40 e 50 anos - nada mal, se você conseguir manter o embalo. Mas toda essa nova riqueza que predemoinha deixa num leve estado de pânico muita gente que terminou a faculdade há muitos anos. Tente contar aos seus filhos aqueles velhos provérbios sobre a importância da paciência quando eles ouvem histórias de sucesso como a de Don Roberts, de 29 anos. Ele tem mestrado em engenharia nuclear e mora em Emeryville, Califórnia. Decidiu aplicar seus dons analíticos à negociação de posições de um dia com ações via Internet.
Ele já ganhou dinheiro suficiente para dedicar cinco anos a um passeio em veleiro. "Eu tinha como meta velejar pelo mundo"
conta Roberts.
"Perguntei a mim mesmo qual seria o meio mais rápido de alcançar essa meta e achei que podia fundar uma companhia e deixar que outros a administrassem ou então eu podia consegui-lo no mercado acionário." Claro que negociar posições de um dia com ações é um jogo arriscado ao qual se dedica tanta gente que não tem os dons necessários. Mas, diante da ofensiva publicitária das firmas de corretagem on-line, você pode ser perdoado se achar que muitos investidores estão ganhando dinheiro nas posições de um dia. Até Barbra ("Você não me Mandou Dicas sobre Ações") Streisand está negociando com opções de um dia - ela transformou o investimento de US$ 1 milhão de sua amiga Donna Karan em US$ 1,8 milhão, ao fim de apenas cinco meses, segundo artigo que saiu na "Fortune".
Apesar de todas as histórias de sucesso, existe um senão nessas grandes expectativas: a noção de que o trabalho à moda antiga pode ser desmoralizante. Pelo menos quando os nobres ladrões faziam fortunas no final do século 19, era generalizada a opinião de que eles trabalhavam longa e duramente para consegui-las. Agora as fortunas rápidas baseiam-se na noção de "ser o primeiro" no ciberespaço e atrair muitas atenções. "A lógica diz que, se você pode ganhar uma bolada a curto prazo, por que se preocupar com o que vem depois?", diz o professor Jim Kock, do Centro para Ciência, Tecnologia e Sociedade, da Universidade Santa Clara. Ele considera ameaçador o fato de tão poucas pessoas estarem realmente comprometidas com as empresas que vão sendo criadas - não os capitalistas que fazem operações de risco, os banqueiros de hipotecas, os novos espíritos empreendedores. "Não se constrói uma grande sociedade ou uma economia durável nesse ambiente." O estranho é que ninguém está de fato questionando o oba-oba monetário. Em tempos de prosperidade anterior, no século 18 e no início do atual, sempre houve críticas de peso nos púlpitos, escolas e faculdades a esse tipo de conduta. Agora parece que a lista dos pecados capitais se reduz a seis. A guru da evolução pessoal, Suze Orman, deu ao dinheiro um brilho espiritual em seu best seller "A Coragem de ser Rico". Está na praça um novo livro sobre finanças pessoais para os que estão na faixa dos 20 e 30 anos de idade, intitulado "A Ganância é Boa", de Jonathan Hoenig. No prefácio do livro, o autor lembra que, quando menino, era fascinado por tabelas de ações. "A idéia de conseguir ganhar dinheiro sem fazer quase nada me dava uma animação sem fim", escreve Hoenig. Cohan, o psicólogo em Berkeley, também nota uma vasta mudança de atitude em relação ao dinheiro. "As pessoas se desculpavam por ganhar dinheiro. Agora elas se desculpam quando não ganham." Neste mercado sem precedentes, pode ser difícil encontrar palavras sábias, principalmente para os que se julgam meio marginalizados. Os despossuídos podem encontrar consolo na história. Os preços loucos das ações e o frenesi com o ciberespaço não podem durar, e todo este oba-oba por causa da Internet como se ela fosse o Próximo Prodígio vai desaparecer ou emperrar. Quando ela se tornar um ex-Prodígio, o cheque salarial
todo mês, não dará a impressão de que você não trabalha por nada, um número menor de pessoas vai estar tirando a sorte grande e um pecúlio mais ou menos modesto talvez não pareça tão desprezível. À falta de um pregador de moral sobre a ganância dos anos 90, mergulhemos na década de 80. Citemos as já esquecidas palavras do personagem interpretado por Daryl Hannah no filme "Wall Street": "Você pode descobrir um dia que, quando tinha dinheiro e o perdeu, foi muito pior do que não ter dinheiro nenhum." Bem, talvez. Mas os que entre nós não conseguiram sua fatia até que gostariam de sentir o gostinho dele.

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